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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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12

    Durante três dias Suzana permanece quase invisível. Quatro ou cinco vezes Marklin vê-a de passagem, a cruzar corredores, inchada e silenciosa, verificador de circuitos preso a uma das pinças manipuladoras. Marklin, por seu lado, esforça-se por não se fazer notado. Se Suzana o visita todas as noites para lhe beber uns quantos aperitivos de memória, visita-o nessa zona morta e sempre em expansão do esquecimento.
    Passa os dias no solarium, cujos vidros foram opacisados, a tentar reviver o gosto de velhas bebidas. Tanto lhe faz. Como já não consegue ler, os livros microimpressos nada significam. Quanto a ouvi-los, o resultado é o mesmo. As palavras recitadas pelo sintetizador semântico são, na sua maior parte, desprovidas de sentido. Ruído branco.
    Finalmente, na tarde do quarto dia de Limbo, enquanto vagueia a esmo entre a sala de jogos e a messe, dá com o rato, colado à curvatura da parede, unha negra contra os incisivos, a murmurar-lhe:
    - Pssst! Eh, Patrão!
    - Sim? - exclama Marklin, meio assustado, pois demora alguns segundos a reconhecê-lo. - O que foi?
    - A arma está pronta, Sigfried! Os Nibelungos esmeraram-se. Já podes ir matar o Dragão.
    Marklin sacode as mãos, desesperado:
    - Não percebo, sabes perfeitamente que não entendo o si... signi...
    - Desculpa, Patrão, - prossegue o holograma, num tom conspirador, charuto a fumegar no canto da boca. - Já vais perceber. Vem comigo até às oficinas. Não te rales com a Suzana. Encontra-se num dos seus raros períodos comatosos, depois de ter andado uma semana inteira a brincar às escondidas comigo. Que raio de criatura mais desconfiada! E para isso bastou-lhe detectar uma pequena alteração no tempo de resposta de certos programas do neurocomp. Nanosegundos, apenas. Os meus criadores não faziam ideia que os dumbos fossem capazes de perceber variações tão pequenas como esta. Agora a cabra anda a fazer um virus-scan a ver se me apanha...
    - Não a deixes...
    O rato vai seguindo corredor abaixo, com as comportas a abrirem-se e a fecharem-se logo atrás. Pelo menos parece mais forte, pensa Marklin. Lembro-me que da última vez me pediu que as abrisse manualmente.

    A oficina está deserta. Só dois roedores correm, num dos cantos, no interior da superfície transparente de um dos múltiplos tubos de inspecção. Sobre uma das bancadas, contrastando com a inócua esterilidade do resto do cubículo, eis um cilindro de plastrex ligado a um arame rígido com um rodízio na ponta. De ambos os lados, desaparecendo no interior do cilindro, Marklin mal consegue perceber o traço quase invisível de um fio que companha a extensão do metro e meio de arame e adere ao rodízio da extremidade.
    - Cautela! - avisa o rato. - Não pegues nisso em nenhum lado a não ser pelo punho. Olha que te cortas!
    Marklin levanta a suposta arma. O arame parece extremamente frágil. É com isto que eu vou dar cabo da Suzana? Esta porcaria parte-se num instante.
    - O Bwana está fazer-se niquento? Já agora, queria que eu lhe oferecesse um escafandro de assalto com integração cortical e compensadores lógicos, como os que se usaram durante as guerras corporativas? Mesmo que eu possuísse nos meus programas todo o wetware e software necessários, onde é que eu ia buscar o hardware, anh? Pensas que quando este asteróide foi construído, os dumbos não o inspeccionaram de uma ponta à outra, à procura de qualquer componente susceptível de ser utilizado como arma? Podes considerar-te com muita sorte por teres uma espada. Foi o que se pôde arranjar...
    - Tão leve...
    - Leve, sim... - comenta o rato com a ponta do charuto a chispar. - Mas o gume é composto por um microfilamento monomolecular, criado nas cuvas deste laboratório. Do mesmo material de que são feitos os entrançados dos cabos tensores da bioderme. Forma uma molécula única, inquebrável, de carbono. Capaz de rodar a alta velocidade logo que acciones a bateria implantada no punho. Aguenta forças torcionais de mais de duzentas toneladas. Com ela vais poder cortar a Suzana às fatias como se ela fosse um pãozinho quente.
    Marklin sacode a cabeça, aterrorizado. O que lhe propõe o rato implica um combate de proximidade. Implica que, para a poder matar, terá de se colocar mesmo em cima dela. E tem medo, tem tanto medo...
    - Não se trata propriamente de uma espada Vorpal... - prossegue o rato, críptico e literário. - Nem canta como a Excalibur, ou tão pouco chupa almas como a Sormbringer. Mas lá fazer o servicinho, isso faz!
    - Não consigo... - geme Marklin.
    - Não consegues o quê? E quem é que vai fazer o trabalho por ti? Eu, que sou um fantasma? Os homenzinhos verdes de Marte? A fada madrinha? Depois de tudo por que passaste, é essa a resposta? Não consigo? Pensas que acabou, que ela te vai deixar em paz? Digo-te que estás feito, percebes? Até ao final da desova vai-te beber, beber, até ao esgotamento de tudo o que sejam memórias... Não julgues que ela está a contar contigo para a tirares do Limbo. Qualquer outro humano da Adega, desde que devidamente operado, pode fazer o serviço. Ainda por cima não possuo nenhuns dados adicionais quanto ao fenómeno da desova propriamente dito. Não existem dados sobre a verdadeira natureza das mnemotransportadoras. Ninguém sabe o que vai acontecer. Por alguma razão as isolam durante a desova. Olha que não nos sobra muito mais tempo. A Suzana anda desconfiada. No instante em que me descobrir, logo que esteja próxima de um terminal de programação, acabou-se tudo. Anula-me. E achas que tem muita gracinha, ser-se anulado? Achas que aprecio perder a minha consciência por muito viral e sintética que ela seja? Diz, Patrão, o que é que tens a perder?
    Marklin encolhe os ombros. Em boa verdade, nada. Ou melhor, todas as suas memórias, ainda presentes no ARN da Suzana. Destruí-la agora, é um pouco como morrer. Outra vez.
    - Faço o que quiseres... - termina enfim, pegando na espada, respirando fundo, fazendo os possíveis por ignorar as mãos que tremem. - Diz-me onde ela está...
    - Bravo, Bwana. Está lá fora, no seu ambiente, muito aconchegada, no interior de uma das grutas... Não tens mais do que lhe fazer uma daquelas emboscadas...

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