[Logotipo]

Início | Ficção | Não-Ficção | Outros | A-Z
E-nigma | E-nigma Light

Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10
11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20
21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30

PRÓLOGO

    Feitas as devidas conexões, activados circuitos e microelétrodos, a manhã pode enfim explodir à entrada do Parque num diorama feito de luz.
    Marklin recua dois passos, quase cego, com a pala do boné a cobrir-lhe os olhos. Não quer entrar, tem medo, há lá dentro qualquer coisa horrível.
    Medo de quê, grande parvo, perguntam-lhe os colegas, ultrapassando-o, dedos nos narizes, a gozá-lo. Não vês que assim é mais depressa? Anda!
    Marklin sacode a cabeça, indeciso, não sabe porque é que tem medo, nem sequer sabe o que está ali a fazer. Rumo a casa vindo da Escola? Quando? Onde?
    A maleta pesa-lhe nos ombros como se a tivessem carregado de calhaus. Os pés, pelo contrário, mal aderem à gravilha do pavimento, tão leves os sente. Que idade tenho? Nove, dez anos? Mas o corpo, esse, é um corpo de adulto.
    Então, então, gritam-lhe os colegas, já lá ao longe, na curva do caminho. Vens connosco ou não? E Marklin, que não quer ficar para trás, mesmo sabendo que está a fazer um disparate, acaba por os seguir.
    E perde-se.
    Ou é o mundo inteiro quem o perde, tanto faz. O céu, de um azul primaveril, desmaia-se num branco intenso, fulminante. O lago dos cisnes cristaliza-se numa placa de ébano. Mas no seu interior fulgem nebulosas.
    Aqui e ali, como balões furados por agulhas, implodem pássaros, mirrando até serem pontos, pontos como estrelas negras a sumirem-se na pálida agonia do céu.
    Assustado, incapaz de fazer face à situação, Marklin recua, mas os portões do jardim fecharam-se-lhe entretanto nas costas, num estrondo que desperta uma revoada de ecos.
    Em desespero de causa, Marklin dirige-se aos reformados sentados aqui e ali, nos bancos de ferro forjado, mas estes já não o ouvem, não se interessam, aliás nunca ali estiveram, não passam de bonecos espalmados de cartolina impressa, que ora se dobram ou se torcem, presos num vento mau que se levanta.
    Subitamente foge-lhe o piso debaixo dos ténis, esvai-se toda e qualquer aderência ao solo, e Marklin vê-se obrigado a acelerar o passo, quase corre para não cair, cola-se ao muro de pedra que ladeia o passeio, mas o musgo, sem volume, acerado como lâminas, macera-lhe as pontas dos dedos.
    As gotículas de sangue, frágeis como bolhas de sabão, dispersam-se pelo ar, sempre a esticarem-se, transformando-se aos poucos em linhas rubras, coruscante como néons. Quanto ao próprio muro, que antes parecia de pedra granítica, já deixou de o ser. As superfícies não cobertas por musgo têm agora o toque, a temperatura, de lamelas de gelo seco. E os paralelepípedos deslocam-se, sim, deslocam-se a velocidades independentes do solo, do seu próprio corpo, uns dos outros. Todos os objectos fogem rumo ao vórtice que surgiu no centro do jardim e que parece ter engolido o coreto inteiro e a estátua do general.
    Marklin faz força com os pés para não ter a mesma sorte, mas nada feito, o gradiente do solo aumenta, o caminho escoa-se sob os ténis, rápido como uma torrente próxima do sorvedouro da catarata.
    Vozes cantam-lhe aos ouvidos, baixinho, num suspiro insistente:
    SINGULARIDADE! SINGULARIDADE! SINGULARIDADE!
    Não quero, geme Marklin, indiferente às vozes, debatendo-se, voltando as costas ao vórtice, procurando arranjar maneira de fugir dali. Talvez se correr o suficiente, se conseguir projectar uma órbita (?) de escape...
    Mas atrás dele o jardim, a cidade, o oceano, o mundo inteiro vão-se erguendo como se estivessem pintados numa parede. Ou num funil.
    Imaginem uma tela elástica na qual se desenharam casas, ruas, um porto com navios, desenhos já tão deformados pela distorção do espaço, que se tornaram incompreensíveis. Desenhos que se esticam rumo à inacessível verticalidade do horizonte.
    e o céu a apagar-se aos poucos como uma lâmpada de mercúrio.
    e as vozes, frenéticas, insistentes:
    singularidade! singularidade! singularidade!
    e Marklin sempre a escorregar de encontro ao horizonte eventual.
    Socorro, grita, socorro!
    De súbito, a seu lado, vindo de onde os sonhos vêm, chapéu de coco escondendo as orelhas rosadas e pontiagudas, patas humaniformes a ajustar os reguladores do saxofone, grande, quase do seu tamanho, charuto na boca a cuspir cinza, fagulhas e perdigotos, materializa-se o Rato Negro.
    - Não te disse que ias meter água? Com que então um vórtice gravítico? Uma estrela neutrónica?
    - Só quero voltar para casa... - pede Marklin. - Só isso...
    - Estamos mesmo contra a parede, não é? Seja, não tenho outra solução... Segue a música, vá... Segue a música...
    Começa a tocar, patas batendo a compasso.
    Marklin pensa: Dixieland? Nova Orleans? Onde...
    Então,

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10
11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20
21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30