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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    - Ainda não percebeste, pois não? Marklin, Marklin, a minha prole é imensa. São biliões de larvas no interior dos meus ovos. Nunca, mas nunca, mesmo a título de uma recompensa excepcional, os restantes Dumbos permitiriam que eclodissem todas. Superpopulação. PUM. Sobrecarga a todos os níveis. Não, amor, tenho de os proteger. E para isso terão de nascer longe, mesmo muito longe...
    - Era só o que me faltava... - murmura Marklin. - Um dumbo psi... psi...
    Suzana aproxima-se, agressiva:
    - Já te disse que não permito insultos. Sou doida, é natural. Todos os dumbos na desova o são. Sabias que nos prendiam numa bolsa de celulose poucos dias antes das larvas nascerem? De modo a que se faça uma correcta transmissão de memória. De modo a que elas possam alimentar-se do nosso corpo. A fim que as mais deficientes possam ser capturadas e eliminadas... Achas que sou livre, que tenho hipóteses de escolha?
    Marklin sacode a cabeça. Custa-lhe a pensar, falta-lhe já tanta coisa...

    Do outro lado da bioderme, no funil exterior da Doca, a actividade dos robôs e waldos é frenética. Fulgem como estrelas os arcos de iluminação. Explodem fagulhas dos lasers industriais. Guindastes e pinças invertem os reactores químicos arrancados ao Módulo do dumbo, fixando-os à rocha nua do asteróide.
    - Vão permitir-nos uma ligeira capacidade de manobra. Pelo menos para abandonar a órbita e mergulhar na direcção do Sol. Como podes verificar, estão quase prontos...
    Marklin acena que sim, desconsolado.
    - Vem até à sala de jogos, - diz o dumbo, colocando-lhe uma tromba maternal sobre o ombro. - Quero mostrar-te como as coisas funcionam...
    Júpiter brilha lá no alto. O microsol madruga no horizonte restrito. Uma revoada de bexigas passa sobre a borda da cratera, arrastada pelos ventos matinais. Marklin soluça, solitário e aterrorizado. E Suzana, sempre pedagógica, prossegue com as confidências:
    - É natural que isto nunca te tenha passado pela cabeça, dado o triste estado em que te encontras, mas sabias que existe uma justificação lógica para a nossa sede de memórias? É que nós, os dumbos, também somos máquinas... Constructos orgânicos feitos certo dia por um Criador, não uma entidade metafísica, mas um Ser tão real como tu ou eu. Um Criador que fugiu de nós e da chama que arde no Centro, mas que nos programou para o procurarmos até que o universo se contraia. Recolhemos informações. Não através de fotografias, mas da síntese das memórias. Memórias, Marklin. ADN. As vossas, as dos gastrópodes de Lyra, tanto se nos dá. Como que colecciona jóias, moedas, ou cromos. A nossa missão é recolher e transmitir o recolhido. Como fazem as máquinas de Von Newman.
    - Deixa-me em paz, Suzana!
    - Não, Marklin, escuta. Não há fuga para isto. Não posso fazer as coisas doutro modo. Tenho de sair daqui, passar a informação, proteger a prole que a vai herdar. Tenho de obedecer a este imperativo como tu tens de respirar ou comer. E se me perguntares se eu tiro daqui algum prazer, respondo-te que tiro, sim senhor. Um gozo semelhante ao vosso orgasmo. Todos os comportamentos são motivados. O nosso também, amor. Não fugimos à regra.
    - Eu quero matar-te, Suzana. Quero ver-te morrer. Agora só quero isso!
    - Pois claro, compreendo perfeitamente o teu problema. Queres, mas não podes...
    - Compreendes uma treta! Nada temos em comum! - grita Marklin num acesso de raiva.
    - Ai, amor, como podes dizer isso! Então não temos? Tenho as tuas memórias. Todas elas. Guardadas para o usufruto da minha prole. Tenho tudo o que é teu. Todo o teu passado...
    Penetram no solarium. Marklin segue pelo carreiro, enquanto Suzana gravita ostensivamente sobre a relva, aspergindo os canteiros com as secreções corrosivas do seu corpo. Roedores jardineiros chiam, indignados. No emaranhado da relva, trinam cigarras verdadeiras. Lá no alto, nas ramagens, trinam pássaros artificiais. E Suzana prossegue:
    - Como é fascinante, a tua cultura. Moldam as infâncias no terror da punição. Se nos consideram monstros, o que não serão os vossos contadores de histórias? É isto que narram à vossa prole? Socialização por condicionamento negativo? Paquidermes que voam? Bonecos de madeira engolidos por matrizes aquáticas? Insectos a servirem de super-ego? Lobos humaniformes que derrubam num só sopro casas feitas à base de celulose alimentar? Anões homossexuais que cohabitam com donzelas em constante cio?
    E lá vão descendo a escada em caracol, gravidade a inverter-se, Marklin a reprimir a habitual náusea. Suzana segue logo atrás, com os implantes manipuladores a rasparem contra os embutidos de ferro forjado.
    - Após a capitulação, a primeira coisa que exigimos aos Governos da Terra foi o envio imediato desse grande Mestre, desse inventor em imagens de todas as lágrimas infantis. Queremos o Walt Disney entre nós! Queremos as suas memórias! Enviaram-nos o seu cadáver criogenizado, irrecuperável, devido à refrigeração por processos artesanais. Não restava nada. Nem um só engrama. Todas as células estavam estoiradas pela dilatação da água. Olha, vou dizer-te uma coisa que mais nenhum humano sabe. No ventre apodrecido da Matrix, entre baforadas e vendavais de gases em decomposição, construímos um altar. E sobre ele, depositámos o cilindro criogénico. Mais acima, um holograma animado de um Dumbo a voar, com uma pena preta na tromba, um rato vestido de vermelho a espreitar pela borda do chapéu. Se algum dia os da minha espécie saírem daqui como eu vou sair, será este o marco mais importante da nossa visita a este sistema solar. Um corpo morto e congelado à temperatura do nitrogénio líquido, sob a sombra de um elefante alado.

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