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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    Morto o Balrog, espada cravada entre a décima e a décima quinta costela, morto pelas costas, à socapa, o que não é lá muito correcto em termos de pontuação. (mas como é que se pode dar cabo de uma criatura destas senão assim), Marklin avança pelo corredor rumo aos aposentos da Princesa, devagarinho, pé ante pé, invisível, amuleto mágico telintando de encontro ao pescoço. No canto superior esquerdo do olho, flamejam em cores garridas os algarismos da pontuação final. O jogo está prestes a terminar. A recompensa aproxima-se.
    A cota de malha empapada na linfa amarelada do Balrog enoja-o, dificultando-lhe os movimentos. Marklin despe-a e abandona-a no chão, confiante de que não será mais necessária. Tremem-lhe de cansaço as mãos suadas. Lembra-se da espada, ainda cravada nas costas da aventesma, mas não lhe apetece ir buscá-la, aliás nem sequer se preocupa com isso, a partir deste instante pede-se um outro feito, um outro género de arma.
    Desemboca numa sala cujo tecto desaparece na distância e na escuridão. Penduradas nas paredes de rocha talhada ao vivo, tapeçarias medievais desbotam desenhos comidos pelo tempo e humidade. Fragmentos de corpos enlaçados jazem, estáticos, sobre jardins de pedra. Mais á frente, eis duas portas cobertas por dois cortinados púrpura.
    Duas portas?
    Ah não, pensa, é injusto! Marklin ressente-se desta traição final, deseja a carga catéxica do futuro encontro com a Princesa, não isto, não uma escolha que se pode revelar fatal. Ainda por cima os pontos de que dispõe não chegam para um charme précognitivo. Gaita! Não chegam, porque os gastou num estúpido escudo de invisibilidade. Vai ser obrigado a decidir de outro modo, ao acaso.
    Estala com a língua nos lábios, bate o pé, coça o pescoço, vamos, vamos, o tempo aqui é precioso, qual das duas, a Dama ou o Tigre?
    Decide-se, enfim. Será a da direita, pronto. Afasta o cortinado, roda a maçaneta, penetra num quarto de dormir. Deitada na cama, nua, sorrindo-lhe, braços e pernas abertos para o receber, eis a Princesa!
    Marklin respira fundo, aliviado. Afinal acertou!
    - O Balrog está morto, o feiticeiro desfez-se em cinzas, estás livre e eu exijo a recompensa a que tenho direito!
    - Então porque esperas? - responde a Princesa, apoiada num cotovelo, a outra mão estendida. - Vem. Vem até mim. Ama-me!
    Marklin abraça-a, toca-lhe num seio, beija-lhe a boca. Mas os seus dedos sentem o frio da escama e os lábios sorvem o bafo adocicado da carne putrefacta. Procura fugir, recuar, mas a Princesa agarra-o pelo pescoço, mostrando dentes afiados em ponta, obrigando-o a contemplar as jóias cintilantes dos olhos.
    - És um parvo! - troça ela. - Como te atreveste a terminar o jogo sem um mínimo de reservas pontuais? Sabes que vais morrer? E que horrível vai ser esta tua morte! Sabes que falhaste na escolha da porta? Era à esquerda, imbecil! Já percebeste quem eu sou, como amo?
    Não, diz Marklin, debatendo-se, não, não...
    - Ah sim... - responde Lilith, a Lâmia, caindo sobre ele, imobilizando-o na contorção ofídia do seu corpo, entre lençóis que sabem a morte, que são a Morte. - Vês a minha mão? - pergunta, mostrando dedos onde crescem unhas, negras como garras. - Vês os meus lábios? - sorri, descobrindo gengivas que endurecem, cartilaginosas, num beijo de lampreia. - Perdeste, perdeste, és meu, e eu devoro-te!
    Marklin grita de terror. Tenta desviar a cara, fechar os olhos, mas as regras não lho permitem, é obrigado a ver a Lâmia enterrar-lhe as garras nos músculos peitorais, a descer a boca rumo ao baixo ventre, rumo à mutilação definitiva.
    Dentes sobre o pénis, macerando, macerando com doçura.
    Cor.
    Luz.
    Dor. Sons. Frio. Ar. Ar.
    E...

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