(Desce. Aguenta. Esquerda. Mais. Direita. Em frente. Corrige. Sim. Sim. Agora. AGORA!)
A transição é tão rápida que mal tem tempo de a perceber. Sente-se a esticar, mais, mais e mais ainda, como se conseguisse chegar até ao fundo do túnel com a ponta dos dedos. Um simples gesto, ou o fantasma da sua intenção, apenas isso. No instante seguinte, encontra-se noutro lado, suspenso sobre uma planura infinita e cinzenta. Lá no alto as estrelas não brilham, a solidão é como um mal estranho, pois Marklin não sente frio ou calor, apenas uma ausência absoluta, como o abraço neutro e indiferente da entropia.
(Chegámos!) diz-lhe a Suzana. (Ou pelo menos terminámos a primeira parte da nossa jornada. Ninguém nos persegue, aqui onde estamos. Que triunfo, Marklin, que feito o nosso! Como te está grata, a minha prole. Já podes despertar...)
E Marklin acorda, arranca-se ao vazio onde o dumbo ainda se deleita, náusea a galgar-lhe a boca, solta o capacete, descalça as luvas, puxa pelos fios dos terminais. Treme, esgotado. A sintaderme vai-lhe bebendo o excesso de suor e toxinas. A sala de jogos está como estava. A gravidade voltou ao normal. A seus pés, Suzana estremece, paquidérmica e saciada. Assim vista de lado, podem-se perceber perfeitamente todas as excrescências gelatinosas que contêm a vastidão incalculável de óvulos. Tenho de sair daqui, quanto mais longe, melhor. Respirar ar puro e ver onde estamos.
No solarium, pedaços de lama, fertilizante, folhas amassadas, pendem, emplastrados, dos hexágonos. Dezenas de ratos afadigam-se a limpar toda a porcaria, a dar-lhes lustro, chiando, esvoaçando, correndo de uma extremidade à outra do domo. Aqui, uma equipa desimpede os carris. Lá ao fundo, um pequeno grupo, saco aos ombros, replanta sementes de relva, mastigando uma ou outra, como aperitivo. Indiferente, Marklin atravessa este cenário em reconstrução, abre à décima tentativa a comporta estanque, e vai dar ao ecossistema estomacal da Matrix.
Por todo o lado as condutas que orientam os macroneurónios espraiam-se, cruzam-se e rendilham-se até desaparecerem na curva do horizonte. O micro-sol ainda não nasceu. Não há a mínima luz ambiente, a não ser a pálida bioluminuscência de certas colónias de bactérias. Como é então possível que os olhos lhe piquem como se...
Marklin levanta a cabeça, surpreendido. Mas, para lá da pele translúcida não consegue ver nada. Nem as estrelas, nem mesmo a escuridão de um espaço vazio. Nada, como se... Não consegue explicar. Não existem palavras. Transido de terror, desvia então a cabeça, cai de joelhos, recuando de gatas de volta à protecção do solarium. Aí, encostado à curvatura das anteparas hexagonais, sem se dar conta das hostes proletárias de roedores que lhe tropeçam nas pernas estendidas, fica-se a mastigar as unhas.
- Onde é que estamos? - grita, num súbito acesso de desespero. - Onde vim eu parar?
- No Limbo, amor... - chega-lhe aos ouvidos a voz da Suzana, cuja tromba acaba de despontar sobre a escada em caracol. - Algures, imóveis, na uniformidade do EspaçoNulo. Fora da bolha do Universo. Não olhes para o exterior, se isso te faz confusão. O não-Ser não é visível nem sequer cognoscível. Não há nada para se ver, acredita. O teu cérebro não possui conexões suficientes para poder integrar dados como este. Não te rales, Marklin. Comigo estás em segurança.
- Quero sair daqui! Quero ir para casa!
- Marklin, Marklin, então, que vem a ser isso? - continua Suzana, aproximando-se, dispersando roedores aterrados em todas as direcções. - Não sabes que a casa é aquele lugar para onde nunca se volta? Pelo menos até à eclosão da minha prole. Para os devidos efeitos, comunico-te que ela acaba de entrar na última fase de gestação. Só mais alguns dias standard. Depois...
- Depois o quê?
- Depois partimos em busca da Diáspora, através do braço exterior da Galáxia. Vamos atrás de todos esses milhares de Naves-Mundo, ou pelo menos daquelas que nunca aprenderam a viajar através do EspaçoNulo. Pedimo-lhes boleia. Oferecemo-lhes o código genético que permita a criação de uma nova Matrix. Em troca... já consideraste o infinito manancial de memória que elas nos podem oferecer?
Marklin sacode a cabeça. O pesadelo continua. Marklin sacode a cabeça e a Suzana acaricia-lhe a nuca com o sensor da tromba.
- Pronto, pronto, tem paciência... Está quase tudo a acabar. Ganhámos. Já ninguém nos pode fazer mal...
Marklin estremece, impotente. Não pode fazer nada. A vitória da Suzana não é a sua. A partir deste momento, as coisas só podem piorar. Humilhado, como um gatinho nas mãos imensas de um gigante incompreensível, deixa-se acariciar.