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Então
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Quando Marklin volta a abrir os olhos, descobre-se deitado na maca da unidade de apoio médico do asteróide. Ecrãs encontram-se ligados ao longo de todas as paredes, revelando o esplendor do EspaçoReal.
Naves imensas, redondas como charutos, fulgem num milhar de cintilações. Planetóides vogam, arrastando tiaras de mil micro-sóis. Esferas Dyson rodopiam, majestosas, transportando no bojo sistemas solares completos. Enxames de pontos dourados saltitam daqui para acolá, percorrendo minutos/luz em poucos segundos.
Inclinado sobre a maca, o holograma do rato negro esboça um sorriso complacente:
- Então, como é que estamos?
- O EspaçoNulo...
- Saímos dele mesmo a tempo. Tive de me resolver a dar-te uma mãozinha nos momentos finais. Quiseste armar-te aos cucos, atravessar diagonalmente a Galáxia e ias caindo na Singulariedade do Centro. Felizmente parte da Diáspora, a famosa Diáspora das Naves fugitivas, estava a passar por perto. As nossas auras foram detectadas por algumas das raças mais empáticas. Ajudaram-nos a vir à superfície. Agora perguntam-nos se queremos acompanhá-las. Se os nossos sistemas de propulsão estão à venda... respondi-lhes que sim, claro!
Marklin levanta-se, tolhido e perplexo:
- Estás em permanente comunicação com elas?
O rato descalça uma das luvas e põe-se a polir as unhas, todo ufano:
- Raças de telepatas, raças capazes de um grau de total empatia, outras especializadas em semiologia e xenolinguística... Questão de horas, apenas, até estabelecer um protocolo de comunicações entre as partes interessadas. Só ainda não entendi o sentido de uma das perguntas que permanentemente me andam a fazer... É estranho, porque a pergunta parece ser bem explícita...
- Pergunta?
- Bom, querem saber se Marklin é o código identificador de qualquer espécie comunitária. Respondi-lhes que não, que Marklin é um indivíduo. Perguntaram-me em seguida: Se é assim, porque têm todos o mesmo nome?
- Todos? - grita, Marklin, aterrado. - Todos quem?
E lá fora, sob a protecção reconfortante da bioderme, em milhares de nichos rochosos judiciosamente escolhidos, a segunda postura de dumbos começa a rasgar o invólucro de gelatina isotérmica. Biliões de minúsculas trombas rudimentares brotam à superfície, apalpam timidamente o território desconhecido, chamando-se umas às outras pelo único nome capaz de as individualizar: MARKLIN MARKLIN MARKLIN MARKLIN,
Um nome que é Legião.