No fundo do funil, nessa ilusão de óptica que sempre o atormentou, pois ora o considera como o topo de um cone ora o ósculo de um remoinho, jaz a cabeça dissolvida do Módulo Dumbo.
- Suzana? - grita Marklin lá do alto. - Eh, Suzana?
Não lhe respondem, o que também nada prova. Saciado pelo deboche mnésico da noite anterior, o dumbo pode estar neste momento a sofrer de um tropismo negativo. Ou, quem sabe, já que estamos a falar do mal, prestes a tomar um aperitivo.
Desço ou não desço? Espreito ou não?
No fim de contas o que é que se perde em arriscar? Aprender até morrer, pensa Marklin enquanto vai descendo a escada em espiral. Melhor ainda, conclui mordendo os lábios, tão divertida é a situação humilhante em que se encontra. Aprender até morrer... já agora resta descobrir o que é que aquela porcaria tem lá dentro, porque é que a Suzana veio ter aqui à socapa, sem passar cartão aos restantes sexos da sua raça...
À primeira vista, a cúpula de pilotagem, agora dissolvida e transformada em bolhas duras e frias como pingentes de vela, parece ser quase orgânica, quitinosa de fora, fibrosa no interior, como se durante a viagem tivesse feito parte integrante do corpo do dumbo. A cavidade interna, deserta, é negra e esponjosa, contaminada em certos pontos por arquipélagos de bactérias esbranquiçadas. Somente no topo se percebe um terminal mecânico digitalizado, provavelmente para controlo dos jactos de atitude. Logo abaixo, nota-se uma abertura circular de profundidade insondável, mas com um diâmetro sensivelmente idêntico ao do apêndice nasal da Susana.
Marklin arrepia-se, pensando como será viajar no interior deste casulo amorfo, durante dias a fio, sonhando os sonhos dos outros. Será que este Módulo estava parcialmente vivo como estão todos os produtos da ciência híbrida dos dumbos? Se estava, agora já não está. Finou-se com o choque da acoplagem, ou no momento em que Suzana se separou dele, talvez de tristeza, vá-se lá saber...
Acocorado junto à fenda da entrada, Marklin limpa vezes sem conta as mãos às calças, peganhentas pelo contacto com a superfície interna. Visco? Óleos lubrificantes? Fluídos alimentícios? Biotoxinas excretadas pela pele do dumbo?
E a dita carga, onde está? Mais ao fundo? O que foi que a Suzana transportou com tanto cuidado e segredo? O que anda ela a construir?
Marklin arrasta-se, resignado, através da cabina de pilotagem (?), joelhos e mãos afundados no solo que aos poucos se liquefaz. O fedor a gás sulfídrico torna-se quase insuportável. Marklin avança a custo, entre uma tosse e dois espirros, até que a sinta-derme, atenciosa, transformada em filtro molecular, acaba por lhe cobrir as fossas nasais.
Na parede oposta à fenda de acesso, descobre um corredor muscular, cerrado como uma vulva, que palpita ainda num fremir senil. Timidamente, Marklin acaricia-o, e o músculo relaxa-se, separam-se as membranas como um beijo nostálgico, cedendo-lhe a passagem.
O presumível compartimento encontra-se repleto de bolsas, quase todas vazias, murchas e rasgadas, presas por pedúnculos às excrescências das paredes. Gota a gota pinga para o chão dos talos bissectados uma gelatina amarela como açúcar caramelisado. Marklin pisca os olhos, esforça-se por adaptá-los à penumbra ambiente, pois as luzes ferozes da doca mal aqui penetram, enfraquecidas por este mundo uterino e claustrofóbico. Quase a medo aflora com os dedos uma bexiga ainda repleta. Plof, plof, faz o líquido no interior, chocalhando de encontro a algo mais sólido. Vegetal, animal, mineral? Marklin não faz a menor ideia.
Suzana veio até aqui para poder desovar em paz, sem que uma grande percentagem das crias seja destruída nas purgas eugénicas... Mas não será este esconderijo demasiado precário? Mais cedo ou mais tarde os outros dumbos vão acabar por tracejar a rota do Módulo até este asteróide. Nada mais natural que o vigiem com periodicidade, pois uma adega mnésica tão preciosa não pode dar-se ao luxo de ser saqueada por uma mãe neurótica e feral. Milhões de dumbinhos, disse o neurocomp? Céus, que azar o meu. Ela vai dar cabo de mim em três tempos! E se eu te destruísse a carga, Suzana? E se te lixasse o esquema? Achavas graças, não achavas?
Infelizmente, de todas as bexigas que ocupavam o depósito, apenas umas dez ainda se encontram repletas. Sorrindo, vicioso, Marklin rasga duas com as unhas metálicas do braço cibernético. Do interior escorrem segmentos de um tecido fibroso e ramificado como uma árvore mole. Florescente no instante da emergência, o objecto seca-lhe agora junto aos pés, transformando-se num aglomerado de pequenos cristais quebradiços.
As luzes da doca apagam-se nas costas de Marklin. Ruídos de martelos, o crepitar dos lasers industriais, são substituídos pela respiração vulcânica da Suzana. Marklin volta-se, apanhado em falso, sem saber para onde fugir. O corpo do dumbo cobre todo o corredor de acesso como uma rolha imensa de couro.
- És mau... - murmura Suzana na sua voz sintética e melosa. - Ai, Marklin, que desgosto, como podes ser tão ruim, sabes o que estás a fazer?
Marklin encolhe os ombros.
- Andas a destruir algo sagrado que me é muito querido. Algo que roubei ao cortiço com o risco da minha própria ninhada. Algo que todos nós guardámos durante todos estes anos de exílio...
- Quero lá saber!
A tromba acerta-lhe no rosto como uma bofetada. Marklin é projectado contra uma das paredes que se esfarela a olhos vistos.