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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    - Calma, patrão, vamos, calma. Há opções. Ora estica o indicador direito. Isso mesmo. Coloca-o na parte superior do quadro. Superior, gaita, eu disse superior! Pronto, isso mesmo. Agora para a direita, devagar, devagar, muito bem, vá, alto! Carrega aí!
    Marklin soluça, enquanto obedece. Analfabeto. Afásico. Disléxico. Era só o que faltava. E o que não virá a seguir... Suzana, quero que morras uma morte horrível...
    - Não! Não! - zanga-se o holograma. - Tem cuidadinho! Mais atenção ao que fazes. Olha que assim nunca mais saímos daqui. Calma, Bwana, sim?
    Uma operação que podia demorar segundos, dura uma meia hora. Mas a comporta abre-se, enfim.
    Penetram num compartimento esférico. A atmosfera tresanda a feromonas. Aqui a gravidade é nula. Pequenos roedores exasperados, atiram-se contra grelhas numa tentativa de chegar junto das fêmeas compassivas. Noutros sectores, ao alto, em baixo, por tudo quanto é lado, alguns entregam-se já, com entusiasmo, a cópulas febris. Num canto, fêmeas fertilizadas são afastadas da presença dos machos, graças a impulsos eléctricos nos centros álgicos, criando assim um estrotropismo negativo, se bem que temporário. Vivaldi serve de acompanhamento musical. Vivaldi? Mas quem é ele?
    - Ao trabalho, Bwana, ao trabalho! - diz o holograma afadigado sobre uma nova consola. - Pensa na alegria que vamos dar a todos estes bichinhos. Dedo ao alto! Tocar nesse botão vermelho, isso mesmo, ainda te lembras dos códigos das cores?
    Marklin esforça-se por obedecer ao som da música, enervado pelos guinchos e chiados cada vez mais frenéticos. A cacofonia ambiente confunde-o, as moléculas das feromonas excitam-no com falsas mensagens, o cheiro a fezes e urinas territoriais enojam-no. Gotículas de suor esferizam-se-lhe na testa, levantam voo, até serem aspiradas pelo ventilador mais próximo. Finalmente, estafado, termina o serviço e deixa-se ficar a flutuar no meio das orgias que se desenrolam no interior das jaulas.
    - Ai, ai, temos sarilho! - comenta o rato.
    - Que foi agora?
    - A Suzana acabou de fazer aquilo que as suzanas fazem quando estão sozinhas, e anda à tua procura. Seria de muito mau gosto encontrar-nos aqui, neste lugar solitário e de tão pouca virtude. Temos de voltar já!
    - Voltar? Mas eu não quero! Esconde-me, ajuda-me! Disseste que me ias proteger...
    O rato poisa-lhe no ombro uma luva triste:
    - Então, Bwana, ainda é cedo para agir... Ainda faltam horas... Dias... Tem paciência, só mais um pouco e...
    - Mas ela vai-me comer! Estúpido programa, dentro de dias já não sobra nada, entendes? E então quem é que te ajuda, quem é que a mata?
    - Lamento, patrão... A vida é um jogo, se me permites que eu cite o banalisável... Hoje por baixo, amanhã por cima... Receio que neste caso a depressão permaneça tal qual está por mais um bocadinho...
    - Tenho medo! - exclama Marklin, aterrando os roedores, provocando dezenas de coitus interruptos. - Tenho medo, merda!
    - Olha a sorte que tu tens, - responde-lhe o holograma. - Eu cá não tenho nada!

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