13
Esperar, sob um céu impossível, acocorado de encontro a uma espírula rochosa, pés a esborracharem aquilo que parece ser uma colónia vermiforme de cabelos azuis, olhos fixos numa fenda escura como o breu, punho da espada a saltar de uma mão para a outra, como se cada uma delas se recusasse a aceitá-lo, esperar assim, horas a fio, sem conseguir pensar, pois dentro dele nada sobra que valha a pena ser pensado, vai-se tornando aos poucos numa situação intolerável.
De vez em quando, bandos de bexigas passam-lhe frente ao nariz, como balões tristes no rescaldo de uma festa. O holograma do rato faz-lhe companhia. Para o distrair, toca solos de clarinete, dança um sapateado, conta-lhe história de violência na Nova Orleans dos anos trinta. Marklin mal o ouve. A boca da caverna enche todo o universo. Os minutos arrastam-se. A nulidade do Limbo enche-o de agonias.
Vou desistir, é ridículo! Não consigo aguentar...
É então que, de um momento para o outro, a entrada da caverna se ilumina com o pálido fulgor dos terminais implantados na massa gigantesca do dumbo. Suzana emerge à superfície como uma crisálida do seu casulo.
- Marklin, amor? Tu aqui, à minha espera? Mas a que devo tal prova de afecto?
Durante segundos Marklin não consegue dizer nada. Sente-se paralisado como uma criança em falta. Só agora compreende o que esperam dele. A mão crispa-se sobre o botão de contacto no punho da espada. Começa a levantar-se a custo, articulações tolhidas por horas de stress e imobilidade.
Nesse instante Suzana depara com o holograma do rato negro. Coco, casaca, lacinho ao pescoço, bengala, botinas envernizadas, todo ele está ali, a destoar.
- Minha cara senhora... - diz-lhe o rato, fleumático. - Nestes últimos dias sei que tem andado à minha procura. E eu a fugir de si. Até parece que marcámos um encontro em Samarcanda. Pois é meu penoso dever comunicar-lhe que, em nome da humanidade e por crimes de furto e vandalismo cultural, vossa excelência foi condenada a uma morte sem clemência. Nomeio seu executor o cidadão Marklin, aqui presente. É inútil procurar controlar-lhe a metade cibernética. Desbloqueei todos os programas de acesso. Marklin livrou-se do jugo. Peço-lhe que aceite a sua sorte com a devida resignação e dignidade.
- Marklin? Mas que brincadeira vem a ser esta? Como é que tiveste acesso aos terminais de programação? Marklin, responde, é uma ordem! Que porcaria tens aí na mão? O que é que julgas que vais...
- Agora, Bwana, agora! - grita o rato.
- Escuta Marklin, ouve o que te digo, - começa Suzana, melosa, aproximando-se. - Não prestes atenção ao que ele está a dizer... Sem mim, que será de ti, anh? Sabias que o processo de captação mnésica pode ser revertido? Queres o teu passado de volta? Eu dou-te tudo, amor, tu mereces isso e muito mais... Basta um novo implante no córtex visual para retransmitir todo o cinema da tua vida...
- As minhas memórias...
- É mentira, Patrão! Pelos céus...
- Marklin, escuta... Não querias voltar a descer o Mississipi com Huck Finn? Visitar Gormenghast com a Princesa Fuchsia? Viajar até Luna numa esfera de cavorite?
- Ela está a mentir, Bwana. Que interesse tem ela em preservar-te? Essas memórias já não são tuas, perdeste-as. Não te deixes vender por uma promessa tão inútil...
- Vê lá se te calas, estúpido programa! - rosna o dumbo, alterando a voz, uma voz masculina que é a sua. - Estou a dizer a verdade, e Marklin sabe disso tão bem quanto eu, não é, parceiro? Porque é que vieste desinquietá-lo com as ilusões da liberdade? Marklin, recorda-te que ainda há poucos dias querias morrer! Ah, rato miserável, que vais ser caçado, não tarda nada. Caçado e afogado como rato que és. Como foste capaz de pensar que ele me faria mal? Marklin, escuta, eu sou tu, um eu completo, perfeito, acabado... Sei de cor os livros que leste, todos os jornais para onde olhaste, mesmo de relance, o que respondeste ao leiteiro numa manhã de Junho há vinte anos atrás, o teu primeiro amor e quantas vezes dormiste com ela, a cábula que te apanharam na frequência de Engenharia Molecular, o que te passou pela cabeça quando mergulhaste com o Míssil de Neurotoxina no corpo sagrado da Matrix...
- Não quero, - murmura Marklin.
- Ai não? - pergunta Suzana/Marklin, quase em cima dele, waldo extensor prestes a agarrar-lhe o pulso.