À medida que avança rumo ao ponto de impacto da máquina de von Newmann, o micro-sol recua até se pôr no horizonte. A bioderme aclara-se, deixando transparecer a agonia pálida das estrelas já mortas e o arco distante do verdadeiro sol. A temperatura começa a baixar de gradiente, arrefecida pelo vácuo exterior. Sopra agora um ventinho que desliza de um hemisfério para o outro, trazendo consigo colónias de bexigas voadoras.
Marklin diminui a intensidade do passo, receando enfiar o pé em qualquer fenda, ou esborrachar sob a bota a flora que tanto o repugna. O olho esquerdo, o cibernético, começa a funcionar a infravermelho. A visão estereoscópica adquire a capacidade de diferenciar recortes. As plantas dulcificam-se, e por ali ficam a arder como rios de lava. Líquenes cromatizam a paisagem nocturna, bexigas vogam como dirigíveis festivos. E lá no alto, a Via Láctea desperta em Marklin o habitual arrepio de horror: O Centro, pensa ele, o Centro a explodir numa labareda única com centenas de milhar de anos-luz de extensão, e toda a fauna da Galáxia em fuga para a periferia, a ultrapassar-nos... E nós sem a podermos seguir, prisioneiros de náufragos parasitas, sob o jugo implacável dos Dumbos...
A metade humana começa a tremer. De medo, de frio, da estimulação supra-renal, tanto faz. Marklin tirita. Bipbipbip, diz-lhe o comunicador auricular, avisando-o do ponto de penetração da máquina de von Newmann.
Ao aproximar-se do asteróide, a máquina abandonou a tocha de hidrogénio. Afinal só o módulo reprodutor trespassou a bioderme. Marklin descobre-o lá ao fundo, suspenso nas patas ambulacrárias, a descer prudentemente a ravina de uma cratera. Verdade seja dita que não foi von Newmann quem o concebeu, pois nessa época remota a espécie humana ainda devia estar a perguntar-se como seria possível descer das árvores. Decerto criada no centro da galáxia, esse centro já extinto num orgasmo de luz e radiação, a máquina viajou, solitária, através de incontáveis sistemas, devagar, devagar, como uma borboleta nocturna rumo à candeia das estrelas, colando-se a luas e asteróides, sugando matérias-primas, fabricando cópias de si mesma, partindo de novo, sempre a reproduzir-se num ritmo exponencial, até que um belo dia, num futuro incomputável, fosse possível encontrar-se por todos os aglomerados estelares modelos semelhantes, grávidos de informações preciosas. Máquinas de von Newmann de origem alienígena sempre foram raras no sistema-sol. Em melhores dias, a captura de um destes modelos teria provocado manifestações de júbilo na comunidade científica humana. Mas agora que a tromba dos Dumbos anda a saquear a libido da humanidade escravizada, a sua presença não passa de um mero incómodo. E ali estava uma delas, à guisa de exemplo, a pavonear-se, a esgravatar o solo com as pinças, incapaz de compreender que desceu em território ocupado.
Factor que não impediu, aliás, que os seus sensores, indiferentes a qualquer impulso orgânico, detectassem a existência de ligas metálicas complexas no sistema de apoio de um dos cabos de suspensão da bioderme. E assim, impelida por tropismos programados por uma espécie carbonizada pela explosão do Centro, plocplocploc, patas ambulacrárias esborrachando a flora, a máquina começa a aproximar-se da âncora magnética em busca de materiais que lhe facilitem a próxima reprodução. Nem penses, grita-lhe Marklin, barra de plastex levantada ao alto, pois o corte súbito de qualquer cabo faria perigar a posição da bioderme relativamente à massa do asteróide. Um acidente que nem ele nem o neurocomp poderiam permitir que acontecesse.
Por isso mesmo, sob a luz crescente do micro-sol que desponta no horizonte, Marklin ergue a tranca e abate-a uma, duas, três vezes sobre os órgãos sensitivos da máquina de von Newmann. O seu gesto não passa afinal de um acto de misericórdia. Placas exteriores corroídas pela atmosfera de metano, e com as pinças, câmaras e circuitos fundidos, a máquina resigna-se a entregar a alma ao criador. Mesmo assim Marklin insiste, numa fúria perversa, pois ela é um bom exemplo dessa vida que foge do Centro da Galáxia, dessa vida que ignorou a humanidade, que a deixou entregue à abominação dos Dumbos.
Ora toma! resmunga ele acertando em cheio. Pensas que me ralo? Toma!