- Disney? - pergunta Marklin, consciente do vazio que se alastra dentro de si. - Mas quem é esse gajo?
- Deixa... - responde Suzana, indicando-lhe a cadeira indutora, a cadeira dos jogos cruéis. - Senta-te. Liga os terminais. Não resistas, amor. Para quê? Faz o que te digo, anda. Vou mostrar-te o mundo noménico...
Marklin obedece. Com as mãos que tremem, cobre o crânio com o capacete quinestésico, sentindo na nuca, vagamente, as picadas dos microelétrodos. Cola no peito as ventosas dos bio-receptores. Enfia as luvas. E agora, pergunta, que mais faço?
- Esperas. Também eu me estou a ligar...
Marklin flutua no negro absoluto. Perdeu o uso do corpo, algures, lá muito atrás. Fosfenos estoiram-lhe junto à fóvea.
- Agora muita atenção! - sussurra-lhe Suzana aos ouvidos. - Desconheço como é que um humano reage à visão do EspaçoNulo. Mas não tenhas medo, amor. É só um teste, coisa de poucos segundos. E eu vou estar contigo. Prepara-te. Às três ligo o tecido neuronal da Matrix ao teu centro visual... UM
(Céus, tirem-me daqui, que mal fiz eu, não mereço isto... )
DOIS
(larga-me, Suzana, larga-me ou)
e TRÊS!
um gosto a sal na boca, farripas de espuma gelada, a agonia da velocidade a comprimir as paredes do estômago, à esquerda a falésia cinzenta de um fjord, á direita o sorvedouro de um remoinho. Na proa do barco de pesca, camisa encharcada, uma mulher pálida, olhos como contas vermelhas, procura fazer-se entender contra o grito do vento e o estampido das ondas: onde estamos, onde estamos, que vem a ser isto?
É o Mahelstrom, responde Marklin, vamos cair lá dentro. Ajuda-me, Ligeia!
A vela range, o barco inclina-se vinte graus, perturbando o centro de gravidade, a velocidade aumenta de gradiente, aqui e ali estalam juntas enquanto a superfície da água ascende, vertiginosa.
Marklin, ouve, vê se percebes. O remoinho não é mais do que a tua visualização do poço gravítico do Sol. Ainda não estamos a cair, navegamos em círculos... Está tudo bem, Marklin!
Não, grita ele, e o remoinho transforma-se num rio caudaloso a correr na direcção do abismo do Tártaro. Ligeia reduziu-se a um esqueleto. Numa das mãos segura uma Clepsidra. Na outra, uma foice. Ao cinto, que prende um manto negro, transporta um saquinho cheio de moedas de prata. E agora, pergunta a Morte/Barqueiro, e agora?
Estou morto, morto, responde Marklin num sombrio desespero. Este é o rio Estige. Tu és o Arconte. E esta viagem é a irremediável queda no Hades.
Marklin, começa a Morte
não, responde ele, numa ascensão de glória rumo ao sol, asas mecânicas batendo a compasso, vento no rosto, longe, longe de Minos. Escuta, diz a voz de Dédalo, lá muito em baixo, subindo, vagaroso, ao sabor de uma corrente de convecção, não faças isso, Marklin!
Mas Marklin ignora-o, fugir, pensa, tenho de fugir, mas a única fuga possível é para o alto, mais, mais, entre a chama e a cera que se derrete numa nuvem de penas que se escapam às articulações mecânicas, e depois já não sobe, antes cai desamparado, atrás dele desenha-se no ar um rastro de fragmentos pré-tecnológicos, tomba como um calhau a nove vírgula oito metros por segundo ao quadrado, rumo ao impacto vítreo com o Oceano.
Não, insiste
e acorda enfim, sentado na cadeira indutora. Arranca as fichas do peito a soluçar. Afasta da cabeça o capacete, mal os microelétrodos se desligam do osso. O coração vibra-lhe no peito como um motor mal regulado. No chão, sobre a alcatifa, Suzana torce-se em convulsões.
Marklin tenta pôr-se de pé, sair dali, aproveitar o estado de prostração do dumbo, mas ela grita-lhe QUIETO, e a sua metade cibernética acha por bem desligar-se. Indefeso, meio apoiado na cadeira, meio estatelado sobre a alcatifa, Marklin espera que a Suzana se recomponha.
- Demasiado imaginário, - comenta o dumbo, já a flutuar. - É isso mesmo! Ainda estás cheio de muitas coisas. Pobrezinho do Marklin, preciso de ti vazio, límpido como um lago glaciar. Nesta confusão imagética é impossível dirigir-te. Vamos, deita-te ali no sofá, tenho muita pena, querido amor, mas vou beber-te outra vez!
Marklin pensa o fim chegou. Que vai ficar da sua pessoa depois desta nova prova? Como é que vai poder matá-la?
Suzana, Suzana, eu consigo, garanto-te. Foi só a primeira vez! É uma experiência desconcertante. Entrei em pânico, percebes? Não esperava ver cenas de livros, mas não me tires mais memórias, por favor, não disseste que me querias operacional, capaz de imaginar? Suzana, não me empurres, espera. Su
O dumbo visualiza os corredores de uma biblioteca repleta com todos os livros, jornais, revistas, filmes, que Marklin alguma vez leu, reflectiu, ou passou uma rápida vista de olhos. De A a Z, prateleira após prateleira, página a página, Suzana vai-os sorvendo. Diluem-se as letras no papel. Esvaziam-se os títulos, os nomes dos autores. Apagam-se os desenhos das capas. Num só instante de despolarização neuronal, Marklin perde os Copolla, os Fellini, os Mervyn Peake, as Rosas de Parnassus e todas as Flores do Mal, Bellerophon, o Hipogrifo, Orfeu e a sua inútil viagem às sombras do Hades, Arthus e a espada cantante, Elric o Necromante, as hostes tetónicas a afundarem-se no gelo quebradiço, Bogart a passear-se numa Casablanca nocturna e irreal, Aslan o Leão de Narnia, Oz o Terrível, Ming, o Implacável, a queda putrefacta da Casa de Usher, o abominável Dr. Phybes e o virtuoso Dr. Jeckyll, uma ponte de luz a ligar Nova York ao céu, um trenó a arder na fogueira, Robbie o Robô, a colecção completa dos DC comics até à morte de Batman às mãos do Jocker, a sombra de um estudante faminto com uma machadinha nas mãos, e todos os lábios famosos, todos os peitos e coxas de Mae West a Elleonora Reaves.
Da biblioteca imensa pouco ou nada resta, enfim.
Os óculos estalados de John Lenon.
A primeira página de um manual de biologia elementar.
Algo despropositado, já sem título ou autor: Aprender não é mais do que recordar...
Um graffiti numa parede de Londres: SMASH THE STATE!
O vazio de uma memória quase limpa, pronta a começar de novo.