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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    Infelizmente a sintaderme que lhe cobre o corpo inteiro, fabricada especialmente para resolver acidentes como este, ao detectar uma baixa repentina de pressão e temperatura, cristaliza-se sobre as zonas expostas, metabolizando oxigénio a partir da água residual celular. Marklin quer morrer mas não morre. Quer gritar e não consegue. À sua frente, o cais de desembarque afunila-se rumo ao opérculo do centro, com os holofotes de sinalização acesos numa claridade que não permite sombras. E lá no alto, ou no fundo, como queiram, já que a hipergravidade aqui não funciona, uma estrela cadente roda cento e oitenta graus, e Marklin pode ver enfim a superfície ovóide que se aproxima, jactos de atitude a travar, fulgurantes como sois, prestes a sincronizar órbitas com o asteróide, sempre a inchar, grande, tão grande, eclipsando estrelas com o negrume da sua massa, anéis de luzes vermelhas cintilando sobre a região frontal.
    Marklin debate-se, apoia os pés, arrancando-se como uma rolha ao amplexo elástico da bioderme, acabando por cair de costas sobre a rocha vulcânica, esborrachando fungos e colónias de liquens. Aos poucos, as fendas feitas na bioderme cicatrizam-se, emitindo macromoléculas, impedindo a perda de metano.
    - Grande parvo... - comenta o holograma da Raquel Welsh, vestida de couro negro, chicote a serpentear numa das mãos, rodeada pelos seus olhos verdadeiros, cinco formas fugazes de ratos voadores. - Então já te fartaste? Sua Exª adiou o suicídio para outra ocasião?
    - Um dumbo... - responde Marklin, arquejando, enquanto a sintaderme lhe vai desbloqueando as vias respiratórias. - Vem aí um dumbo...
    - Vem o quê? - Raquel sacode o braço e o chicote estala mesmo sobre a sua cabeça, num ruído seco como uma bofetada. - Estamos a delirar? Não achas que me teriam avisado se isso viesse a acontecer? Os dumbos informam sempre... Aliás ainda te encontras dentro do período de recuperação. Não é aconselhável que...
    - Um dumbo...
    - Já ouvi, filho! Não desvies a conversa. Temos contas a ajustar, foste desobediente, danificaste a propriedade alheia... os meninos maus têm de ser punidos, pois a dor é essencial à disciplina. O castigo em termos psicossexuais é...
    - Estou farto disto! - grita-lhe Marklin, tentando levantar-se, ainda mal seguro sobre a perna verdadeira. - Não percebeste o que te disse? Arre, tudo isto é grotesco!
    Procura pôr-se de pé, mas o chicote, ou o seu holograma, marca-lhe as costas numa vergastada tão real como se fosse verdadeira. Micro-elétrodos de proteína, implantados um pouco por todo o sistema nervoso, enviam falsas informações ao hipotálamo. Falsas ou não, doem.
    - De joelhos! - insiste Raquel. - De joelhos, menino, a pedir perdão a quem de direito!
    Marklin não pode fazer nada além de obedecer. Implacável, o holograma faz estalar o chicote. Marklin morde os lábios para fazer sangue, para enganar a dor virtual, mas a sintaderme solidifica-se ante a pressão dos maxilares, obrigando-o a sujeitar-se à tempestade das sensações fantasmas.
    - As botas! Quero as botas lambidas, já!
    - O jogo acabou, estúpido programa! Vem aí um dumbo!
    - As botas... As... - e depois cala-se, interdita. O neurocomp capta enfim o código de emergência de uma nave dumbo em perdição, nave que se aproxima do asteróide pelos seus próprios meios, indiferente às coordenadas do feixe electromagnético.
    - Como? - pergunta Raquel. - Como...
    Do outro lado da bioderme desce a madrugada sobre o cais. Clarões luminosos cromatizam a barreira atmosférica do balão. Apitos de alarme silvam na distância. O solo estremece, febril.
    Arrancado pela fricção súbita de um tanque de combustível, um dos guindastes é atirado para longe do funil de acoplagem, a rodopiar num vector quase tangencial ao micro-sol que nesse momento desponta. A nave dumbo, mal pilotada, arremessa toneladas de energia cinética contra o opérculo estanque da doca. No seu rasto, quebram-se waldos, estilhaçam-se chapas fotocolectoras, fundem-se holofotes, num temporal de nuvens de gás sob pressão. Cabos eléctricos bissectados sangram energia, sacudindo-se como mangueiras, cuspindo fagulhas em fogos de artifício. O asteróide inteiro sacode-se. Dançam os cumes das crateras, cantam os cabos de sustentação.
    Finalmente, a acalmia.
    No cais, inclinado de lado, desenha-se a contra luz a massa gigantesca e ovóide de uma nave dumbo. E do outro lado da bioderme chamuscada, sombra na noite imensa que constitui a cintura de asteróides, Marklin destingue o Módulo pendente, os cilindros de combustível quase desfeitos, o fulgor vermelho dos reactores desligados, a esmorecer aos poucos.
    Um dumbo! geme Marklin. Um dumbo que atracou! É o fim... Estou feito!
    Já não quer morrer, desistiu de pensar no suicídio. Tem demasiado medo doutro tipo de morte, do lento escoar da alma, desse abismo ontológico de que os dumbos são peritos. Quer viver outra vez... Agora que não pode, agora que já é demasiado tarde...

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