6
O jardim sob o domo. Relva. Flores por todo o lado como um vitral feito só de cor. Cadeiras e mesas de ferro forjado pintadas de branco. E lá no alto sob os hexágonos, a imitar pássaros, pipilam dezenas de ratos munidos de placas agrav.
- São eles quem de facto constitui o neurocomp, sabias? - explica Suzana didáctica, flutuando prudentemente a alguns centímetros da relva, aliás sem efeito algum, pois os eu corpo exala nesse preciso momento minúsculas gotas de uma secreção ácida. Assim, por onde quer que passe, o dumbo deixa atrás de si um sulco de destruição que os roedores procuram reparar. - São esses cerebrozinhos unidos uns aos outros numa gestalt perfeita. Uns miligramas de córtex aqui, outros tantos acolá, e eis um magnífico macrocérebro capaz de tratar da manutenção de todo o asteróide. Eficaz, não achas? Um cérebro que se renova. Pode ser que não esteja a funcionar a cem por cento, mas paciência, também não tenho vontade nenhuma de avisar os meus companheiros de que estou aqui escondida. Não queremos, não achas, Marklin? Não pensas que temos objectivos comuns?
Marklin discorda, mas já aprendeu a calar-se. O diálogo com o dumbo é unilateral. A criatura está completamente doida, mas que fazer? Será por isso que eles controlam e aprisionam as mnemotransportadoras? E depois que importa isso? Na situação em que Marklin se encontra, especular sobre o assunto não passa de uma mera questão académica.
Indiferente à destruição que provocou no jardim, Suzana desliza de um canto para o outro, derrubando cadeiras, massacrando flores, mas visivelmente encantada.
- É assim que passas os dias? Nesta paisagem exótica de mil odores? Ainda te lembras das vastas superfícies planetárias? Sem teres a curvatura de um ventre, lá no alto, a fazer de céu? Sabes que a nossa espécie foi criada em pleno espaço? Sempre a cair, a cair entre as estrelas? Sabes que a nossa nave Matrix era um ser vivo antes de vocês a matarem, condenando-nos a um exílio irremediável?
- Chegaram sem aviso... - murmura Marklin, deixando-se tombar sobre uma das cadeiras do jardim. - Massacraram a colónia de Luna, despressurizaram as cidades Lagrange. Que outra coisa poderíamos nós pensar, senão que se tratava de um estado de guerra?
Suzana roda vertiginosamente sobre o seu próprio eixo. Soergue a tromba como um estandarte do desespero. Pelo codificador vocal, saem estalidos sem nexo. Por fim, mais calmo, o dumbo dispõe-se a falar:
- Mas eram só informações que queríamos, amor... Só saber um pouco mais... Uma memória aqui, outra ali, que importa se há tantas? Vocês são legião. Morrem à fome, matam-se por nada, que desperdício... Não fizemos mais do que absorver o teor mnésico dos habitantes das colónias extra-planetárias. E depois? Foram aí uns dois mil... A espécie humana deu pela falta deles? Quantos de vocês morrem por ano em conflitos tribais?
- Sofismas... - responde Marklin em surdina.
- O QUÊ? - grita Suzana, tão alto que o codificador mal transmite o som. - Foi por causa desses dois mil que lançaram sobre a Matrix mísseis carregados de neuro-toxinas? Foi por isso que nos condenaram ao beijo da Chama que se aproxima?
- Não quero discutir... Não serve de nada...
- Acho que lá no fundo és bem capaz de ter razão... - concorda Suzana, aproximando-se de novo, entre estalidos, luzeiros ideogramáticos e gotículas aciduladas - Em breve seremos um... juntos, tão juntos... Em breve as estrelas serão nossas e o inferno do Centro em chamas lá tão longe...
- Como? O que estás tu a dizer?
A tromba do dumbo corre-lhe sobre a espinha, aflorando a ficha cervical.
- Nada, nada... Não te preocupes, já não estarás aqui quando isso acontecer... Mas as tuas memórias, essas sim, a fervilharem nos engramas da minha vasta prole. E o teu lobo óptico a abarcar num só instante todo o infinito.
Raios, murmura Marklin dobrado sobre a cadeira, roendo os nós dos dedos. Não percebi nada, que quer ela dizer?
- Sabes andar de bicicleta, fazer esqui, surf? Espero que sim, pois ainda não bebi ninguém que o soubesse. Mas o mais importante é que foste piloto. Ah, Marklin, Marklin, temos tanto a transmitir um ao outro... Encosta-te, vá, aqui ao meu lado. Descansa que não vou estragar a relva... Vês como me apoio sobre o empedrado? Não achas que faço bem sala? Acaricia-me o ventre, não tenhas receio, amor, sente os meus filhos...
- Não é preciso, obrigado... - responde Marklin. - É muito gentil da tua parte, mas estou a vê-los muito bem daqui...
De novo a tromba transforma a carícia num choque. Marklin torce-se num suspiro de dor.
- Toca-me no ventre, Marklin, é uma ordem! Nunca te disseram que o amor é um acto de reciprocidade? Não gosto de ti? Não te dei este jardim, estas flores, os hologramas das tuas fêmeas? Repugno-te, é isso?
- Não, não, de modo algum...
Marklin deixa-se cair de joelhos, contrafeito. As mãos deslizam sobre a região ventral do dumbo, aflorando aqui e ali as tumescências transparentes dos ovos em gestação. A carcaça inteira da Suzana estremece de prazer, soltando ligeiras descargas eléctricas que lhe irritam a ponta dos dedos.
- Ah, Marklin, querido... - suspira o dumbo. - Ah, eles estão a sentir-te... Desejam-te, sabes? Tanto, tanto... As tuas memórias são como um caramelo que se saboreia enquanto derrete...
Põe-se o sol num crepúsculo artificial. No mini-coreto próximo, um dos roedores sopra, melancólico, num clarinete. As zonas de relva contaminadas pela Suzana fumegam, cozidas. Volta a noite, voltam as estrelas, volta Júpiter grande como uma lua. O asteróide dança pelo espaço na sua órbita programada.
E de joelhos, acariciando Suzana, Marklin chora de fúria.