Porém, chegado ao solarium, só descobre o caos. Terra, flores, erva, ramagens, tudo isto foi arrancado aos devidos lugares durante as primeiras flutuações da gravidade artificial. Pedaços de lama dançam no ar como planetoides embrionários. Aqui e ali uma esfera feita de água, paira à deriva, elástica e tremeluzente. Não há um único hexágono que esteja inteiro ou deixe passar a luz. Nuvens de pólen e sementes irritam-lhe as mucosas. Os pés recusam-se a assentar no chão. Só as tubagens onde cresce o tecido neuronal da Matrix permanecem fixas ao solo. Lágrimas de desgosto escorrem-lhe dos olhos, esferizam-se a meio caminho, e ali ficam, como berlindes no meio do ar.
E depois, como se isto não bastasse, eis a forma informe de Suzana a brotar do buraco da escada em caracol, tromba esticada na sua direcção, ignorando por completo o estado catastrófico do jardim.
- Onde é que estavas? Por onde é que tu andas sempre escondido, meu maroto? Tenho o neurocomp à tua procura faz já minutos...
- Estragaram tudo... - murmura Marklin, apontando para o jardim.
- É triste, não é? A culpa não foi minha. Deixa, que depois reconstruímos o que valer a pena reconstruir... Agora vem, chegou o momento! Preciso de ti!
Marklin segue-a, cabisbaixo, mergulhando de cabeça através do poço da escada, apoiado pelo corrimão, sem se servir dos pés ou utilizar os degraus, já que o gerador agrav, ocupado em puxar o asteróide até ao Sol, resolveu transferir a energia para outros lados.
A sala dos jogos, se não contarmos com a confusão de cabos que se espalham pela alcatifa, está mais calma, como se fosse um antro sinistro de sossego.
Lá ao canto, aparentemente inócua, espera-o a cadeira indutora.
Senta-se. Enfia o capacete sobre os olhos. Cola ao corpo as ventosas dos estimuladores quinestésicos. Calça as luvas. Aperta um cinto de segurança improvisado. Aos seus pés, deitada sobre o que resta da alcatifa, arquejante como um gigantesco cão fiel, Suzana vai ligando as fichas e os terminais às partes não orgânicas do seu próprio corpo.
Marklin sente a consciência a fugir-lhe com a violência de uma barragem a quem quebraram o dique. Sangue chocalha-lhe nas câmaras de eco dos ouvidos. Ploc-paf, faz um mini-disc à solta, a percutir lá no alto, de encontro ao tecto, irritante como um insecto. Às narinas, chega-lhe o fedor ácido de Suzana, mesclado com a amarga agonia do seu suor.
Em seguida, eis as picadas dos microelétrodos junto às têmporas, nuca e fronte. Os pés a saltarem de um lado para o outro, a cabeça a pender para cima, como se tudo estivesse sujeito a vectores gravíticos contraditórios.
Súbita treva.
(estamos quase) diz Suzana (estás pronto, amor?)
Então