10
Marklin acorda com uma sensação diferente na boca do estômago. O chão da sala de jogos parece inclinado para um dos lados. A parede rochosa vibra. Ouvem-se estrondos na distância como uma tempestade omnipresente.
Levanta-se a custo, engolindo em seco, apoiado no sofá, procurando equilibrar-se sem perceber porque é que o solo persiste em descer rumo à parede do fundo. O braço e a perna esquerda encontram-se adormecidos, insensíveis. Incomodado, Marklin abre e flecte a mão, uma, duas, três vezes, procurando sentir o habitual formigueiro a alastrar-se pelo braço, a irritação das picadas nas pontas dos dedos. Nada. A mão aberta, no momento em que resolveu prestar-lhe um pouco mais de atenção, é um simulacro de plástico, sem impressões digitais, marcada apenas com o traço vestigial da linha da vida e da sorte. Que se passa, que foi que me aconteceu, pergunta Marklin sentando-se no sofá, cobrindo o rosto com as mãos, reprimindo um vómito motivado pela sensação de queda permanente.
- Estás bem? - diz-lhe uma voz mesmo junto aos ouvidos.
Marklin estremece ao deparar com um holograma de um rato negro.
- O que é isto?
- Mau... - suspira o rato. - Os estragos não foram tantos como isso. Ainda falas, pensas... Escuta, lembras-te de mim?
- És um sistema de defesa anti-dumbo!
- Bravo! E tu, como te chamas?
- Marklin.
- Muito bem. E o que é que eu estou aqui a fazer? Lembras-te?
- A Su... zana... bebeu-me. Agora... o meu braço e a minha perna... Que...
- Era bom demais, - chia o rato, acendendo um charuto, secando o suor das orelhas com um lenço amarelo. - Olha, Bwana, não temos muito tempo. A Suzana anda a fazer asneiras. Acaba de acender os jactos de atitude. Abandonámos a órbita estacionária. Estamos presentemente em fuga, sob uma aceleração de 3g prestes a atingir uma velocidade de escape que ela considera ideal. Ao mesmo tempo estamos a ser perseguidos por centenas de Módulos dumbo. Um lindo sarilho, é o que é.
- O meu braço, a minha perna, que têm eles? - insiste Marklin, porque não percebeu nada do resto da conversa.
- Ai bom Jesus! - resmunga o rato batendo com uma das botinas rutilantes sobre a alcatifa. - Não há pachorra para biografias da desgraça, Bwana. Ela vai chamar-te ao dever de um momento para o outro. Infelizmente a construção do tecido neuronal encontra-se pouco adiantada. Quem me dera que pudesses agir agora, mas não é possível. Se a Suzana desse conta da nossa conspiraçãozinha, desligava-te a parte cibernética. Os dumbos estão todos a correr atrás de nós. Tarde demais, temos mesmo de saltar daqui para fora.
- Não estou a perceber...
- Ah, Patrão, as coisas estão pretas, mas não as tornes pior do que parecem, sim? Vem comigo até à sala de controlo.
- Fazer o quê?
- Olha, ver a paisagem! - exclama o holograma. - Ouvir o barulho das luzes!
O ecrã encontra-se dividido ao meio. De um lado, em simulação, o asteróide atravessa uma rede topográfica repleta de vectores em movimento. Do outro, no espaço real, rodopiam estrelas em tracejados de néon. Luzes de alarme incendeiam a sala oval. A gravidade vai e volta, maldosa como uma maré, forçando Marklin a amarrar-se aos cintos de segurança na cadeira de controlo. O estômago dá-lhe voltas sobre voltas.
- Feixes tractores... - explica o rato, didáctico, imóvel no meio do turbilhão. - Suzana deu ordens ao neurocomp para arrancar, mal ele sentisse Módulos dúmbicos nas proximidades. Podia até ser que andassem por aí, a passearem-se, sem terem a Suzana nos pensamentos. Mas o mal está feito. Encontramo-nos num processo de fuga catastrófica. Atrás de nós a tocha de hidrogénio deve estar a queimá-los às dezenas. Os feixes tractores dos Módulos de intercepção não possuem força suficiente para se fixarem em nós e travarem o movimento. Por enquanto, ainda não utilizaram mísseis ultra-rápidos. Duvido que o venham a fazer. Acho que pretendem recuperar intacto o sacrossanto tecido neuronal da Matrix. Sorte a nossa! E que espectáculo, Marklin, que coisa mais sublime! Que bela lição de maternidade lhes está a dar a nossa Suzaninha!
- Para onde vamos?
- Rumo ao Sol, claro. Não há vector gravítico mais perfeito. Dumbinhos como ícaros a crepitarem na chama... Cada vez mais depressa...
- Rumo ao Sol?
- Sim... Sim... - responde o rato, entusiasmado. - A cair, a cair, num dança em espiral... E na nossa peugada, grande parte da frota invasora. Penso que vão morrer muitos, quando descobrirem que já não podem voltar atrás... Uma vez junto à verticalidade do poço, não há conversores agrav que aguentem...
- E nós?