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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    - Querido amor, mas que preguiçoso, que demorado... Posso saber o que andas por aí a conspirar? - pergunta-lhe Suzana, alapardada no sofá da Sala de Jogos, rodeada por pilhas de biochips e cabos de alimentação. A cadeira indutora, num dos cantos da sala, encontrava-se atravancada por novos circuitos.
    Através dos ladrilhos, sobre a alcatifa, enroscando-se na escada em caracol, um tubo fosco repleto de um visco luminescente prende-se ao tecto, estremece num digerir reptiliano e vai ligar-se à confusão dos terminais da cadeira indutora.
    - Que vem a ser isto? - quer saber Marklin.
    Suzana levanta-se do sofá, agora irremediavelmente manchado pelas suas secreções ácidas.
    - Tudo a seu tempo, - confia ela. - Não queres viajar por diferentes terras? Saltar de estrela em estrela? Dar uma vista de olhos (breve, breve) na explosão do Centro da Galáxia? Ah, Marklin, gentil Piloto, eis a oportunidade de partirmos os dois para muito longe, para um canto onde ninguém interrompa o nosso idílio... Queres saber o que tenho andado a fazer? Sim? Não? Olha, vem comigo, quer queiras ou não, não tens outro remédio...

    Fora do Domo, na aridez gástrica do estômago simulado, sobre as crateras cobertas de colónias de fungos e bactérias, o tubo transparente divide-se em dezenas de ramais, distribuindo-se por toda a superfície protegida do asteróide.
    Suzana paira a seu lado, orelhas abertas, quase imóveis, como um cartaz de Walt Disney. Espreita, convida ela, espreita lá para dentro. E diz-me o que vês. Marklin ajoelha-se, toca com os dedos a superfície gelada do tubo, franze os olhos, mas não consegue perceber. Aquilo que se encontra no interior do tubo parece-se com radículas em constante expansão. De vez em quando, eis uma faísca, luminosa como uma bomba de fósforo. Então, pergunta Suzana, isto não te faz lembrar nada?
    Marklin encolhe os ombros. Diabos a levem! Lembrar o quê? Uma planta, um... falta-lhe o termo.
    - Neurónio! Um neurónio! Então essas lições de biologia? É parte do sistema nervoso da Matrix a crescer. Já te esqueceste? Aquilo que eu roubei, que vinha escondido nas vesículas do Módulo... A reconstituir-se segundo um esquema determinado. Como as árvores bonsai. Uma imitação à escala do vasto modelo neuronal da Matrix. Feito a partir da minha memória eidética. Como sabes, ou sabias, um neurónio não se reproduz, mas, se não foi destruído, ou pertencer ao tecido embrionário, e repara que alguns foram salvos antes que a vossa neurotoxina atingisse os nódulos corticais, então, quando bem alimentado, pode regenerar-se e crescer, crescer... os tubos ensinam-lhe a orientação correcta. Dentro de algumas horas todo o processo estará completo.
    - E para quê? - pergunta Marklin, levantando-se. - O que é que queres, Suzana? O que queres de mim?
    Rápida, a tromba de Suzana estala, capturando a meio do voo uma bexiga que passa próxima. Irisa-se a boca, descobrindo placas ósseas dispostas em círculo, como os dentes de uma lampreia. Cerra-se a boca logo de seguida, smak, num beijo mole, esborrachando a criatura, transformando-a num balão vazio que Suzana logo se põe a mastigar, estremecendo de prazer.
    - Uhm... Miam... Pena que a tua biologia não seja compatível com a digestão destes parasitas intestinais. Ainda bem que crescem tão vigorosos em ambientes simulados. Quando vocês, humanos, nos destruíram a Matrix, chegámos a recear sermos obrigadas a viver exclusivamente de sintéticos e hidropónicos. Enfim, eis uma das poucas compensações do Exílio...
    - Que queres de mim? - insiste Marklin, de punhos cerrados. - QUE QUERES DE MIM?
    - Quero a tua alma, amor! - responde Suzana, muito próxima, a cuspir pela boca fragmentos semi dissolvidos da bexiga. - Para ser mais precisa, necessito do teu córtex visual. Que a Matrix tinha. E que nós não temos. Também me está a fazer falta a territorialidade do teu cérebro reptiliano. A afectividade do centro límbico. Tudo isto é necessário para se poder saltar no EspaçoNulo. Eu não o posso fazer. Mas tu podes, amor, tu podes...
    - O quê? Como?
    - Vem comigo... - Diz Suzana, deslizando no ar, rumo à parte exterior da Doca. Marklin acompanha-a um pouco mais atrás, a arrastar os pés. - O Espaço, o Tempo, que vem a ser isso? Se amarfanhares uma folha de papel, não é verdade que fazes entrar em contacto muitas superfícies outrora distantes? Que forças a obrigam a ser plana. Ou a transformar-se numa esfera multidimensional? Apenas uma ligeira pressão dos dedos, um toque, um quase nada. Um impulso eléctrico no hipotálamo. Anos-luz que se torcem. Uma conexão a mais no lobo occipital. E tu passas a "ver" a mudança. Como interpretá-la? Ora, a través do teu imaginário... o tecido roubado à Matrix vai permitir-te a percepção dessa Metarrealidade. A cadeira indutora um modo original de a conceptualizares... Querido Marklin, sou um génio, sabias? O stress da maternidade tornou-me criativa. Um fenómeno aleatório na sopa genética da minha raça. Apropriei-me dos neurónios embrionários. Sabotei os tracejadores telemétricos. Agora só me basta requisitar informação, ou seja, um piloto humano com uma boa dose de imaginário: tu.
    - Mas se podes realmente fugir, se isso é realmente assim, porque é que não dizes isso aos outros, porque é que não se vão todos embora de uma vez por todas?

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