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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    - Quando? - pergunta Marklin. - Quando, que raio?
    - Um pouco mais cedo se colaborares...
    - Qual colaboração, qual história! - exaspera-se Marklin, agitando os braços, derrubando a taça vazia do sorvete. - Que pode fazer um holograma? Que posso eu fazer? Basta uma palavra do dumbo para que eu fique com metade do corpo paralisada. Todos os dias dá-me uma colherada na memória. Ah, idiota, estúpido programa, basta que ela me beba uma única vez para descobrir, tudo, tudo!
    O rato suspira, condescendente. Aspira o fumo do charuto virtual, exalando-o em seguida transformado em perfeitas fitas de Moebius.
    - Marklin, confia aqui no Pai Tomás, sim? A Suzana só gosta de beberricar no passado profundo, não lhe interessa o teu dia a dia, não existe nele nada de estético ou pedagógico. Ainda temos tempo, não muito, é verdade, mas o suficiente para aquilo que quero.
    - E o que queres tu?
    - A tua felicidade, Bwana Sahib! És tu o homem de acção, porque eu não passo do sonho de uma sombra. Um herói cobarde, egocêntrico, pacifista, misógino, mas foi o que se pôde arranjar, também não podemos ser esquisitos!
    - Merda! Agora só cá faltavam os insultos!
    - Schiu! Olha que o Papão te ouve! Queres mesmo matá-la, Marklin? Queres dar cabo da tua querida Suzana num corpo a corpo singular? A morte é um acto tão íntimo, não achas? Quase como que uma forma de amor. Como as aranhas e as louva-a-deus... ou tu, ou ela! Então?
    - Matar o dumbo? Um prazer... Céus, até sonho com isso! Mas como?
    O rato levanta no ar uma pata enluvada:
    - Ora aí é que começam os problemas... Infelizmente não posso reproduzir armas sofisticadas... o acesso a lasers, mesmo do tipo industrial, é-me absolutamente interdito, faça o que fizer. Não, amigo Marklin, não vai ser à distância que a matas, nada de execuções higiénicas, é como te disse, será corpo a corpo, com uma espada ou uma lança, valoroso Conan!
    - Não quero tocar-lhe! Não...
    - Por outro lado, não queres salvar a tua pobre alma de um destino pior do que a morte? E os teus companheiros criogenizados, quem os ajuda? Não anseias pelo prémio de posse de todas essas belas adormecidas? Pelas sobrinhas ingénuas dos cientistas? Redimir-te graças a um acto de coragem?
    - Cala-te! - grita Marklin ameaçando o rato com o punho. - Não estou a perceber nada!
    O rato encolhe os ombros. Vem comigo, ordena, temos muito que fazer. Não ligues ao que eu disse, esquece (ups), já perdeste informação a mais para entenderes. De momento, tenho um trabalinho eugénico a entregar-te!
    Corredor fora, lá seguem Marklin e o rato, um com os pés a arrastar, o outro saltitando em frente, cauda rosada a descansar sobre o cotovelo, rumo às zonas interditas do asteróide. Mudam os códigos de cor das paredes. Abrem-se com silvos discretos as comportas estanques desde há muito cerradas. No interior das paredes, ao longo de tubos translúcidos, correm milhares de roedores, frenéticos, como Porches de veludo sobre auto-estradas miniatura. À medida que avançam através dos veios rochosos, ora sujeitos à hipergravidade, ora livres como leucócitos no plasma, assim também aumentam proporcionalmente o número de tubagens circulatórias cravadas na rochas. E lá dentro, foscos e fluídos, os roedores deslizam.
    - Que se passa, para onde vamos?
    - Bom, podes chamar-lhe o Centro de Cultura de Tecido Neuronal. Aqui para nós, aquilo não passa de um lugar de pouca vergonha e deboche. Percebes? Repara como se apressam, como anseiam por resolver as suas pulsões hormonais, fertilizar fêmeas no estro, produzir tecidos conectivos para o neurocomp...
    Mais uma comporta que desta vez não se abre. Isto é, não se abre para Marklin e o seu rato holográfico, porque através das tubagens laterais, os restantes roedores passam, uns atrás dos outros, sem a menor dificuldade.
    - E agora?
    - Agora, Bwana, vais teclar nesse painel digital o código de acesso. Como podes verificar, a minha natureza fantasmal não me permite fazê-lo. Precisava da solidez dos dedos humanos. Vá... Estás a prestar atenção? Sequência 7-4-6-1 nas teclas verdes. Duas pausas. Em seguida... Então, não fazes nada? Não ouviste o que eu te disse?
    Marklin sacode a cabeça, embaraçado. Depois rói as unhas. É que acabou de descobrir um novo buraco na memória.
    Os números, murmura em surdina, não os percebo, não consigo identificar nenhum. Não consigo ler o quadro...
    O rato sacode no ar as mãos enluvadas:

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