Não, grita Marklin numa explosão de fúria, torcendo a espada nas mãos, inclinando-a para o alto. Durante fracções de segundo o cabo de monofilamento entra em contacto com os miocircuitos de uma das pinças. Saltam chispas. E o braço desprende-se, quebradiço como um galho seco, indo tombar sobre os fungos já espezinhados da biota intestinal.
O dumbo rodopia, tromba erguida, raivoso. Parte da extensão dorsal atinge Marklin em cheio, atirando-o quase dois metros pelo ar.
- Queres matar-me? É isso? Depois de tudo o que fizemos juntos? A nossa relação não significa nada? O teu passado deixou de importar? Sabes que ao matares-me te matas também? Marklin, meu irmão, pensa nas tuas memórias...
Marklin levanta-se, espada a rodopiar sobre a cabeça, boca torcida num esgar. Acabou-se. O passado morreu. Ninguém volta a casa. Não pode haver pesadelo maior do que olhar para trás. Eis a oportunidade única de um suicídio por procuração.
E o dumbo, compreendendo enfim toda a inutilidade de qualquer palavra, procura defender o corpo com a tromba e a outra pinça sobrevivente, mas ambas acabam por ser cortadas pela espada, saltando cada uma para o seu lado, a pinça com um tinir metálico, a tromba a contorcer-se num estertor muscular. Um jacto de linfa ácida tolda a atmosfera. De todos os lados acorrem bexigas, sequiosas de fluídos. Cego, o dumbo perde coerência e voz. O codificador semântico apenas emite os acordes desesperados de uma AGÁPÊ. Ao som da música, Marklin afadiga-se sobre a carcaça que se contorce, espreme e se esvazia, como um carniceiro no açougue. Tem nas mãos uma espada ecléctica. Tanto corta implantes plásticos, como metal, como couro e carne. O interior inefável do corpo do dumbo é composto por milhares de bolsas que se fecham, independentemente umas das outras. Por fim, todas elas acabam por ceder à carícia inevitável da lâmina, derramando no ar fumarolas de pó branco.
E Marklin prossegue na escama. Líquidos sob pressão, óleos lubrificantes, materiais semi digeridos borram-lhe a sintaderme. Não quer saber, não se importa. É o seu passado que está ali, aos seus pés, e para um passado como foi o seu, que várias vezes o trouxe à beira de um suicídio consentido, só pode haver uma resposta, e por isso corta, corta, corta...
- Não achas que já chega? - pergunta o rato. - Não é por mais nada, se a brincadeira te dá prazer, mas olha que acabaste de estragar um exemplar único, um elemento dissidente de uma espécie colectivista...
- E se te calasses? - rosna-lhe Marklin, levantando-se, abandonando a espada para ir vomitar num canto da cratera.
- Vá lá, - continua o rato. - Respira fundo, olha o passarinho, isto não é nada que uma bebida não resolva. Vamos sair daqui, sim? Já deves estar farto de ter essa sintaderme a fazer-te de pulmões...
Marklin acompanha-o, a arrastar os pés. As pernas mal o aguentam. O solarium, lá ao fundo, brilha como uma jóia abandonada sob a neutralidade do Limbo.
- Que pena, que pena... - insiste o rato, olhando para trás, para os restos esquartejados do dumbo, agora totalmente cobertos por um manto de bexigas. - É que nem dá para empalhar!