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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    - Ai não queres? - grita-lhe o dumbo. - Implacáveis, insensíveis humanos... Mataram-nos a grande Nave, a vasta Matriz em cujo estômago viajámos felizes fugindo ao fogo do Centro... Se ainda estamos aqui, neste teu sistema, de quem achas que é a culpa? Foram actos como o teu, inconsiderados, vindicativos, ignorantes, tão tipicamente humanos que geraram este impasse. Sabes o que fizeste? Não? Pois acabas de destruir um segmento do sistema nervoso central da Matriz!
    - Mas a Matriz não morreu? - pergunta Marklin, sentado no chão, empapado nos líquido putrefactos do Módulo, a tremer de medo, mas curioso, apesar de tudo: - Os mísseis de neurotoxinas...
    - Ah morreu, sim... - responde Suzana enfiando-se no compartimento, enfim iluminada pelas luzes da doca. - Mas antes de morrer, antes que o vosso veneno lhe contaminasse todo o wetware, conseguimos separar uma parte, algumas células apenas, mas em número suficiente para a consecução dos meus objectivos...
    - Neurónios?
    - Sim, sim, as sagradas unidades estruturais da nossa vasta Mãe. Ou os seus duplicados... Sagradas mas inúteis, quando separadas do Todo... Ah, se não precisasse tanto de ti como preciso, destruía-te aqui já, pelo mal que fizeste e continuas a fazer...
    - Então mata-me, grande cabra! - grita Marklin de punho erguido. - Vá, mata-me, vê se me importa...
    - Negativo, amor... - responde Suzana, cobrindo-o com o horror ácido do seu corpo, tromba a acariciar-lhe a nuca em busca da ficha cervical. - Apenas um castigo... Pois esquecer é morrer um pouco, não é isso que dizem os vossos poetas? Marklin, entende, nós não temos passado... Participamos apenas das recordações dos outros... o que está dentro de ti excita-me, atrai-me, perturba-me... Deixa-me beber um pouco desse manancial... Uma gota, uma pérola, como perdão...
    - Escuta... - começa Marklin, procurando levantar-se. - Ouve, Suzana, olha que... Suzana, NÃO!
    Mas o Dumbo, guloso, indiferente, prende-o entre os manipuladores mecânicos num abraço quase passional.
    E sorve.
    (Memórias como bolhas de gás ascendendo na macieza de um pântano...)

    Suzana dança colada a um céu imenso sobre uma praia. Lá em baixo, um Marklin de seis anos lambe um gelado de limão. O Dumbo mergulha e rouba-lhe esse gosto, todo o sabor agridoce, para sempre. Anos mais tarde, Marklin abraça uma rapariga entre as ondas. Suzana suga-lhe esse abraço, o perfume a iodo, a frescura de um corpo contra os rins, o toque do sal entre dois lábios já sem nome ou rosto.
    Uma vez mais Suzana ascende rumo ao sol que sobe, desce, estróbico, iluminando um céu ora nebulado ora transparente, orelhas a bater, vastas e silenciosas como as asas de uma borboleta nocturna. Vista do alto, a praia parece estar repleta de marklins, suspensos num bilião de poses, de frases, de pensamentos, preenchendo um prazo de mais de trinta verões. Marklins feitos estátuas, como engramas de vivências já quase esquecidas.
    Beija-flor nesse jardim conceptual, Suzana escolhe e prova o que bem lhe apetece, pairando indecisa entre dois momentos deliciosos.
    Aos poucos esvazia-se a praia até mais não ser do que um cenário de areia a estender-se entre um oceano vitrificado e uma muralha de cafés e snack-bars silenciosos. Todas as memórias de Marklin desapareceram, metabolizadas.
    Finalmente, como se receasse deixar qualquer coisa para os outros, Suzana consome o próprio mar, a cor das águas e dos céus, a arquitectura barroca dos restaurantes pré-fabricados, os néons das boates, as nuvens como castelos, dragões ou pudins, a multitude das estrelas, o fractal dos cristais de areia.
    Suzana reduz-se a um ponto de realidade sobre um vazio absoluto. Desta região mnésica, nada mais resta. Desapareceram os nomes das pessoas que Marklin ali conheceu, foi-se para sempre o teor de todas as conversas, perderam-se as páginas dos livros lidos na modorra das tardes, a doce frustração do primeiro amor/orgasmo consumido na noite alta, sobre o areal azulado, num acompanhamento de explosões de espuma e disco-sound dos bares distantes.
    Cheia a transbordar, Suzana desliga-se de um Marklin comatoso. Um músculo treme, solitário, ideogramas acendem-se e apagam-se-lhe sobre o dorso. Pouco a pouco, os impulsos mnésicos vão sendo quimicamente convertidos em ácido ribonucleico.
    Ácido que passará por osmose através da concha translúcida dos ovos, para as consciências ainda embrionárias dos milhões de dumbos por nascer.

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