- Nós, Bwana? - prossegue o rato, tristonho, patas rosadas assentes no ombro de Marklin, unhas negras e fantasmais afundadas sobre a camisa. - Já não te lembras? A Suzana vai querer saltar através do EspaçoNulo. Quer ir desovar longe, num local escondido onde os seus companheiros e a explosão do Centro não lhe possam chegar. Não tarda que esteja aí, a querer ligar-te ao computador de jogos, como uma mãe ciosíssima só preocupada com o bem estar da prole. Escuta, Patrão, quis arranjar-te um meio de te defenderes antes da partida, mas tal não foi possível, desculpa. Resta-nos acompanhá-la corajosamente até onde nenhum homem foi antes, se é que entendes a minha paráfrase. Quando emergirmos do EspaçoNulo, seja lá onde isso for, prometo que este teu criado já terá a resposta... Entretanto, vê se aguentas firme...
- Estou feito, - choraminga Marklin. - Não percebi metade do que me disseste, faltam-me os termos...
- Deixa... Antes que chegue a Suzana tenho outra surpresa para ti... Atenção... Produções Walt Disney apresentam...
- Quem?
- DISNEY NO CÉU ENTRE OS DUMBOS... Olha!
O ecrã de simulação de voo passa a transmitir uma imagem. Qualquer coisa imensa, cilíndrica e anelada flutua no vazio, cuspindo geisers de fumo, iluminada por toda uma constelação de micro-sois. É tão vasta, que Marklin só consegue perceber o seu tamanho real quando a compara com as conchas vazias das naves humanas que orbitam em torno do campo gravítico como partículas de pó sujeitas ao bailado browniano da luz artificial. Certos anéis reflectem as estrelas como espelhos, outros são já tão baços e necróticos que se limitam a abrir as camadas internas à noite e ao vácuo. O próprio cilindro perdeu a linearidade, apresenta-se agora torcido como o ponto de interrogação de um verme em perpétua agonia.
- Que é aquilo?
- A Nave Matrix, claro... o organismo que teve a bondade de conduzir os dumbos até nós. Morto, graças aos mísseis de neurotoxina. Foste um dos pilotos dos dardos-agulha, lembras-te? Foi assim que te apanharam. Na tua cápsula kamikaze, cravado na Matrix a duzentos metros de profundidade, a picar um dos túneis do sistema vascular. Sei isto, porque consultei a tua ficha. Provavelmente já perdeste a memória do que te aconteceu. Deve ter sido um dos primeiros engramas que os dumbos beberam. Deixa lá, também não era uma memória agradável. O importante é que ela morreu e se tornou um Templo para os dumbos. Sagrada é a Mãe em cujo ventre viajamos! No seu interior, ou no que dele resta, repousa um cilindro criogénico com o corpo do velho Walt. Os dumbos visitam-no em romaria. Num alvéolo improvisado, modesta reconstituição das salas de espectáculos dos anos quarenta, projectam-lhe os filmes. Não que os dumbos os possam ver, claro. Para isso servem-se de substitutos humanos e depois bebem-lhes as memórias. Tudo isto em honra do Criador. Imagina a cena, Marklin. Imagina centenas de dumbos muito bem aninhados nos simulacros das cadeiras de um anfiteatro, cegos como toupeiras, trombas coladas às nucas dos seus parceiros humanos. A escutarem canções sentimentais de um elefante de circo que quis aprender a voar. Imagina-os, auriculares levantados, a aplaudirem a obra de quem os concebeu antes de chegarem...
No ecrã, a Matrix vai diminuindo de tamanho, escorregando para a esquerda, até se dissolver na constelação de luzeiros. Fica para trás a Cintura. Com a tocha a cuspir plasma incandescente, âncora de gravidade fixa numa fonte de hidrogénio infinitamente maior, o asteróide mergulha rumo ao sol perseguido por um enxame de dumbos em fúria.
- Reparaste nas nuvens que brotavam de certos sectores da Matrix? - continua o rato, indiferente ao caos ambiente. - São gases provenientes da decomposição. Já se passaram anos e aquela coisa continua a apodrecer. Ou pelo menos as partes que são orgânicas. De vez em quando ocorrem erupções como essa, capazes de estoirarem com as paredes alveolares mais frágeis. As constantes fugas de gás tornaram instável a órbita da Matrix. É por isso que estão sempre a corrigi-la. Fascinante, não achas, Marklin?
Marklin não o ouve. Ainda preso à cadeira, com a cabina a dançar-lhe à volta da cabeça, só sabe roer as unhas. Tem os joelhos encolhidos contra o queixo e não consegue perceber nada de nada.
Nos ecrãs, agora indecifráveis, escorrem ordens dos dumbos perseguidores. Ping, pong, contra as paredes, batem e ressaltam todos os objectos não aderentes da sala.
Marklin levanta-se, agarrado às anteparas, à procura da saída. Não quer saber mais. Não acredita que algum dia se tenha querido matar, mesmo tendo em conta a salvação da sua espécie. Alguma coisa lhe fizeram para o obrigar. Agora apetece-lhe o repouso do solarium, o cheiro a erva cortada, o canto simulado dos pássaros. Quem lhe dera ter uma bebida entre as mãos, embora, por muito que se esforce, não consiga lembrar-se do nome de nenhuma.
- Eh, Patrão! - diz o rato antes dele sair. - A Suzana anda à tua procura. Vai ter com ela. Não deites tudo a perder. Aguenta. Submete-te. Colabora. O resto é secundário. Compreendes? As memórias são coisas que descartamos voluntariamente todos os dias, quase sem darmos por isso. Que importa o que perdeste? Pensa que ainda te restam muitos anos para voltares a aprender milhares de coisas novas...
Marklin encolhe os ombros, escorregando de rabo sobre uma das paredes do corredor subitamente inclinado. Ver o mundo pela última vez! Ver o sol verdadeiro a crescer no céu!