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Fundo, fundo, no coração do asteróide, eis intacta, a reserva da Memória.
Centenas de cilindros transparentes a verter farrapos de condensação, aglutinados uns aos outros como favos num vespeiro, em unidades removíveis, formam casulos onde dormem humanos à espera de serem provados.
Marklin é a primeira vez que ali entra, visto que o neurocomp foi parcialmente desligado e que outro senhor ora reina. O frio que se escapa dos casulos endurece-lhe a sintaderme, a luminosidade crua dos ultravioletas fere-lhe a vista, a respiração cristaliza-se transformando-se em geada alguns metros mais adiante. Tantos, pensa, tantos, talvez mais de quinhentas amostras de humanidade guardadas nesta adega para dumbos...
De qualquer modo continua a não sentir empatia. O que tem pela frente são vítimas, pedaços de carne, com a vantagem de ainda estarem inteiros, de não terem sofrido mutilação alguma na estrutura das suas memórias.
Aqui jaz uma criança negra, ventre distendido por anos de fome. (A colheita da Privação). Ali ao fundo, um velho com mais de oitenta anos, veias azuladas no azul da luz ambiente, aguarda um despertar efémero. (A colheita do Fim). Mais ao alto, numa perfeição semelhante aos sonhos húmidos da sua adolescência, Marklin reconhece, chocado, uma das mais famosas pornostars do seu tempo. (A colheita do Desejo). Todos eles imóveis, icebergs de memória, prontos a serem dissolvidos num mar tropical. São coisas, insiste Marklin de si para si, são coisas e raios os partam, só vão morrer depois de mim!
- Choras por eles, amor? - pergunta-lhe Suzana, acariciando-lhe o pescoço com a tromba. - Para quê tanta tristeza, se graças à minha pessoa durarão para sempre? Milhares e milhares de vezes nos engramas mnésicos dos meus filhos por nascer...
- Ao raio que te parta! - rosna um Marklin desesperado.
A tromba aperta-lhe o pescoço, não já terna, antes viciosa:
- Então? Precisamos de ser malcriados? Anh?
Marklin debate-se com um só lado do corpo. O outro foi desligado, é evidente, e o braço e perna esquerda pendem como galhos com todos os miocicuitos bloqueados. Ao fim e ao cabo vem tudo a dar no mesmo. Primeiro o neurocomp e as suas estimulações sado-anais. Agora a Suzana...
- Peço mil desculpas... - suspira Marklin pelo canto da boca, libertando nuvenzinhas de condensação.
Suzana solta-lhe as carótidas. Bom, recomeça ela, vê lá se tens respeitinho pela maternidade. Nada de troçar dos sentimentos alheios. Sentimentos esses, aliás, querido Marklin, que herdei da tua gente...
Marklin acena com a cabeça, afasta-se um pouco, cerca de dois metros, até que o sistema locomotor da perna se tranca uma vez mais. Com a ajuda da mão humana, vai massajando o pescoço dorido. Custa-lhe a respirar neste ambiente frígido, agora que não enverga o capuz da sintaderme. Um fedor a gás sulfídrico escapa-se do dumbo como de um pântano cheio de coisas mortas. Os circuitos bioluminuscentes que cobrem a carapaça da Suzana pulsam como artérias de luz. A caixa do comunicador semântico pipila um AGAPÊ de amor universal. Sob o ventre, numa zona adiposa mais translúcida, comprimem-se milhões de esferoides verdes pálidos, que ora se dilatam, ora se contraem como se estivem prontos a descer ao mundo.
- Óptimo! - diz Suzana. - Já vi o que tinha de ver. Vamos agora visitar os teus aposentos? Que tens tu? Estás zangado comigo? Preconceitos xenófobos? Achas que isso é razão para me tratares com repulsa?
Marklin sacode a cabeça: - Já te pedi desculpa. Faz por compreender que tudo isto me perturba, a tua chegada não anunciada e ao que parece ilegal, o neurocomp com os circuitos gnósticos desligados, a visão de todos os meus companheiros...
- Claro, amor, claro... - responde Suzana de novo meiga, insinuante. - Vamos, vamos... Não se fala mais nisso, foi um mal entendido, pronto...