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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    E eis o despertar como uma vertigem nauseada.
    Por detrás dos olhos, imagens aos estilhaços, como vitrais dançando numa lenta explosão. Fragmentos de sonhos, alucinações hipnogógicas, quase recuperadas, e depois para sempre perdidas.
    Marklin desperta a feder a vómito, deitado sobre o metal frio da doca abandonada. Atrás dele, do Módulo de transporte dumbo, já quase nada resta, a não ser um ou outro pedaço queratinoso, a flutuar através do poço central. Lá em cima, nas bordas do funil, apagam-se aos poucos as luzes de manutenção.
    Marklin não se lembra de ter sido puxado para fora do Módulo, mas foi certamente o que lhe aconteceu, ou por esta altura já estaria descomprimido e liofilizado, timidamente em órbita à volta do asteróide. Não lhe é difícil compreender porque é que o Dumbo ordenou o suicídio do Módulo. Suzana, essa terna e potencial mãe, traiu a sua raça em nome da prole, roubou, vá-se lá saber porquê pedaços do sistema nervoso da Nave Matriz, e veio-se aqui esconder para desovar em paz e sossego. É natural que não queira que os restantes sexos a descubram. E ao raio que os parta os imperativos territoriais!
    Marklin levanta-se cheio de fome, pois lá dentro uma vozinha insiste em surdina na palavra sorvete. Sorvete? Quem vem a ser isso? É coisa que se coma? Ah, Suzana, o que foi que me tiraste desta vez?

    Meia hora mais tarde, na cantina, depois de ter percorrido os intestinos moébicos do asteróide, coração nas mãos, pé ante pé como um idiota, sempre no terror de dar de caras com o Dumbo, Marklin acompanha com o dedo todo o teor de delícias gastronómicas que correm através do ecrã. De vez em quando descobre palavras que já não consegue ler.
    Gelado, gelado (sorvete?), onde paras tu? Nas entradas, nos aperitivos, nos digestivos? Animal, mineral ou vegetal? Frustrado pelas crescentes afazias semânticas, liga os circuitos de ordem vocal do cozinheiro/sintetizador. Como é que se come uma coisa destas? Sorve-se?
    PEÇO DESCULPA POR NÃO HAVER IMAGEM, troa a voz simulada de uma rapariga a mascar pastilha elástica, MAS OS CIRCUITOS VISUAIS ENCONTRAM-SE DE MOMENTO BLOQUEADOS. DE QUALQUER MODO, O QUE É QUE VAI QUERER?
    - Sorvete! - explode Marklin como que pede que lhe salvem a vida. - Há sorvete?
    SORVETES HÁ MUITOS. DE QUE TIPO, FILHO?
    Marklin cala-se. Filho? Abana a cabeça. Não está a perceber nada de nada.
    - Diz o que tens...
    MORANGO? (não, isso não, morango é um fruto) CAFÉ? (Uma bebida? Chama-se café ao sorvete ou vice versa? Não, café também não...) TCHIPEPPA? (E isto? Nem me atrevo a perguntar...) LIMÃO? (Limão?)
    - Pois sim, que seja esse...
    Rodam tampas de compartimentos, zumbem circuitos, descem placas, tilintam campainhas (?) e sobre o tampo da mesa desliza enfim uma taça de aço coberta de gotas de condensação. No interior eis um planetoide feito de uma substância a meio caminho entre a neve e a plasticina. Será isto um sorvete? Como se come? Sorve-se?
    A medo segura na colher, desconfiado retira um fragmento da massa viscosa e renitente e leva-o à boca para o cuspir logo de seguida, por causa do frio intenso que lhe massacra as obturações. Devagar, vá, tem calma...
    De novo prova uma colher deixando-se desfazer-se sob a língua.
    O choque é tão intenso que Marklin começa a tremer. O gosto estoirou-lhe por toda a boca numa daquelas sensações ditas puras. Que coisa extraordinária, nunca antes provou nada assim, céus, um sabor absolutamente novo! Incapaz de se controlar, indiferente ao frio, Marklin devora, pedaço atrás de pedaço, em poucos minutos, todo o conteúdo da taça.
    E quando termina, tão envergonhado quanto lambuzado, chora, com a cabeça apoiada entre as mãos, convulsivamente. Eis uma memória reconquistada entre tantas outras perdidas. Maldita Suzana! Continuas a esvaziar-me, transformaste-me num boião, só forma sem conteúdos. E o pior é que continuo sem saber o que já me tiraram... Que idade tenho, que fazia eu antes de vir aqui parar, seria casado, e se era, como é que se chamava a minha mulher? Qual o primeiro nome dos meus pais? Vivia nas colónias Lagrange antes de ser raptado pelos dumbos, disso ainda me recordo. Mas em qual delas? Quais eram os meus filmes preferidos? Sei que gostava de ler, mas lia o quê?
    - Então, então, homem, domina-te! - diz-lhe uma voz vinda do outro lado da mesa.
    Marklin levanta a cabeça esperando Suzana, seja quem for, menos o holograma semi-transparente de um rato negro e enorme, recostado sobre um sofá imaginário. Veste um smoking impecavelmente limpo. Um chapéu de coco cobre-lhe parte das orelhas rosadas. Entre os lábios, fumega um charuto a pingar cinzas em brasa como as centelhas finais de um fogo de artifício. As gengivas rasgam-se num esgar. Estrelinhas refulgem sobre os incisivos gigantes.
    - Temos de ser uns para os outros, companheiro... A tristeza é a alma da música, não da vida...
    Marklin levanta-se derrubando a taça do gelado.
    - Quem... - começa a dizer, mas o rato interrompe-o, levantado uma das patas.
    - Pronto... Está tudo bem. Não vale a pena gritar, ou queres que a carraça te oiça?

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