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CONSIDEREM:
A doca de acoplagem vista do interior pressurizado: um funil ao inverso.
A cabeça da nave dumbo a espreitar do opérculo, torcida como o crânio de uma vespa, lâmpadas de sinalização estaladas como olhos multifacetados.
Nanobôs turbilham contra a curvatura das paredes, afadigando-se em torno das fendas, mossas, e demais estragos. Lasers acendem-se e apagam-se nas mãos humanizadas dos roedores, coruscantes como minúsculas supernovas.
Ratos mergulham na vertiginosa curvatura da doca, servindo-se das placas Agrav, arrastando sacolas de plástico carregadas de componentes de substituição.
E lá quase em baixo, próximo, tão próximo da cabeça fosca da nave dumbo, suspenso pela hipergravidade numa antepara helicoidal, agoniado pelo medo e tonturas, Marklin conversa com a Sharon Stone:
- Isto já tinha acontecido alguma vez?
- Um dumbo chegar sem aviso? Negativo. Há um ritmo de visitas, entendes? Há sempre um código de acesso a respeitar, toda uma hierarquia a cumprir. Este asteróide, sabe-lo bem, é um dos sectores exclusivos à alta casta dos dumbos. Contem melhor material mnésico. Ids fervilhantes. Como o teu, Marklin... - mão sobre o ombro, boca ciciante. - Ainda te restam anos de boas recordações para sugar. a verdade é que desconheço o que se passou. A ver vamos... Quando sua Exª sair do Módulo, terá de dar-me uma justificação...
- Quase destruiu a bioderme...
- É que não possuía um código de acesso aos meus bancos de data que lhe permitissem seguir as coordenadas do feixe electromagnético. Bizarro... A aproximação foi manual... os módulos deste tipo não possuem integração cibernética, não precisam... Seguem vectores calculados no momento do disparo. Servem-se apenas de dois jactos de atitude para corrigir as manobras mais delicadas. Sua Exª deve ter um piloto magnífico para conseguir atracar sem danos de maior monta. Cegos como os dumbos são, só a tromba pode...
- E se te calasses? - grita-lhe Marklin. - Achas que me diverte muito, a pedagogia? Quero ir-me embora. Não estou para o receber, não me apetece. E se fossemos antes tomar um chá?
Sharon sorri, apertando-lhe o braço: - Muito engraçado. Não, tens de ficar aqui. Repara, um dos opérculos está a abrir-se. Sua Exª resolveu sair... Espero que o choque não a tenha danificado...
Suor confunde-se com lágrimas no rosto de Marklin. Vou vomitar, pensa, se continuo aqui, deito tudo fora. Mas não pode fazer nada, claro. Só lhe resta aguardar.
O opérculo do módulo, ou melhor, a parte que conseguiu passar pela comporta estanque, encontra-se presentemente numa fase de dissolução. Embranqueceu, opalesceu, vitrificou-se, e pinga agora, gota a gota, desfazendo-se em pérolas que se desprendem e esvoaçam até serem engolidas pelos colectores de desperdícios situados mais acima.
E o dumbo emerge, enfim, brota do módulo como o caroço de um fruto demasiado maduro. Assemelha-se a uma carraça de cor cinzenta, a não ser nas estrias brancas junto à articulação com a tromba. Gasta alguns segundos a sacudir-se, confusa, libertando as orelhas cartilaginosas, orelhas que se vão desenrolando nesta gravidade minimalista como as asas de uma borboleta acabada de nascer. A criatura não possui braços ou patas, não passa de um saco amorfo unido a uma serpente preênsil.
- Ah, gaita! - exclama Sharon. - Temos sarilho, estamos bem servidos...
- O que foi? - pergunta Marklin, entre dois vómitos secos. - Explica-te!
- É uma mnemo-transportadora! Ilegal! Ilegal! Tenho de comunicar que...
- É o quê?
- Faz parte do terceiro sexo da espécie Dumbo. É um Mula, fisiologicamente neutro, mas maternal até à psicose. Reparaste naquele saco, de tonalidade mais clara, mesmo junto ao ventre?
- Não vejo nada! - geme Marklin.
- Pois serve para transportar óvulos fertilizados. Milhões e...
- Sharon, que raio, então faz qualquer coisa! Aquilo está a acordar, já nos topou, ah, que nojo, não tem olhos, está a levantar a tromba, como é que...
- ... Milhões destinados a receber uma programação eidética transmitida pelos restantes sexos. Percebes?
- Sharon, ela está a levantar voo. As orelhas batem. Vem para aqui. É maior do que eu... Sharon...
- Ora consideremos: macho/classe trabalhadora. Dador de sémen. Fêmea/classe administrativa. Dadora de óvulos não fertilizados. Terceiro sexo/mnemo-transportadoras. Transmitem às crias as recordações da espécie. Além disso...
- Sharon, socorro!