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Nessa noite, depois de ter inspeccionado os contentores do seu Módulo e a segurança da respectiva carga, depois de ter interrogado os neurocomp quanto à remota possibilidade de a fuga ter sido tracejada pelos guardiões/familiares, Suzana vai ter com Marklin que permanece acordado, incapaz de dormir. Ao lusco-fusco das luzinhas de presença, os implantes sobre o seu dorso fulgem, incendiados por um fogo feérico. Sob o ventre, as diminutas consciências de milhões de dumbos, borbulham, sequiosas de informação. Ao vê-la entrar, Marklin levanta-se da cama gelado de terror. Já, pergunta, vai ser já?
Apenas uma gota, um trago, uma lágrima, responde Suzana. Só isso, Marklin, garanto-te, apenas o começo do teu destino, e nada mais. Chega-te para lá, dá-me lugar, deixa-me deitar contigo.
Não, grita Marklin desesperado, procurando encontrar qualquer objecto com que se possa defender. Não, céus, Suzana, não! Mas o dumbo, compassivo e impaciente, desliga-lhe a metade cibernética, e Marklin, semi paralisado, tomba sobre os lençóis. Suzana cobre-o como uma pústula. A tromba liga-se à ficha cervical, estabelecendo uma corrente de descarga. O dumbo flutua enfim sobre uma floresta de memórias já arada pela visita de outros dumbos. Felizmente ainda resta muito, tanta coisa que a dificuldade está na escolha. Suzana sorve o passado da sua vítima num orgasmo lento, interminável.
E Marklin, prostrado, esvazia-se devagarinho numa agonia doce.
Nessa noite, a primeira de muitas noites semelhantes, Marklin perde para sempre o gosto do gelado de baunilha, a cor do seu primeiro peixe vermelho, o derradeiro toque dos lábios de alguém a quem nunca deu muita importância, o nome de Snoopy e Charlie Brown, a chapa de matrícula de uma qualquer bicicleta, o conteúdo da tese universitária, a lambidela do cão favorito, o cheiro do jasmim, o zumbido do zangão.
Ao acordar, horas e horas depois, tenta em vão lembrar-se do que lhe roubaram. Esforço inútil. A seu lado, resta a concavidade vazia feita pela pressão de um corpo imenso, o travo acre de suores e secreções nocturnas. Já não se encontra paralisado. Por fim levanta-se. Que mais pode fazer senão levantar-se?
O duche queima-lhe a pele porque se enganou na programação térmica. Na cozinha, face ao ecrã onde florescem os pratos disponíveis, Marklin fica sem saber o que há-de escolher. É que de momento não faz a menor ideia do que se costuma comer ao pequeno-almoço. Sopa de espargos? Gin tónico? Chá de camomila?
Estou a ir-me abaixo, pensa. Sinto-me como um holograma a perder coerência estrutural...
- Neurocomp? - diz em voz alta. - Vanessa, Sissy, Sigourney, estão a ouvir-me?
- Lamento... - responde a voz sintética. - Mas as minhas funções intelectivas superiores encontram-se de momento inoperantes. Logo que o acesso aos respectivos ficheiros seja restabelecido, em período ainda a computar, eu...
Marklin encolhe os ombros e abandona a cozinha, deixando a caneca cheia de sumo de laranja ainda a fumegar esquecida sobre o tampo da mesa. Na sala de convívio dezenas de roedores munidos de waldos afadigam-se sobre o sofá e terminais quinestésicos. Parte da cobertura plástica do computador de jogos foi entretanto removida. Placas de circuitos impressos estão presentemente a ser substituídas.
- Que vem a ser isto? Que estão vocês a fazer?
Os roedores ignoram-no. Tubos plásticos cheios de um fluído semi-orgânico dispersam-se sobre a alcatifa, serpenteiam pela escada em caracol, indo desaparecer no andar superior. Infatigáveis, os extensores biológicos do neurocomp estão presentemente a ligá-los às fichas de conexão do computador de jogos.
- Quem é que vos mandou mexer nisso, anh?
Marklin dobra-se, estendendo a mão para espremer um dos tubos, mas três roedores, dando-se enfim ao luxo de notarem a sua presença, abrem as bocas, descerrando presas tão ameaçadoras quanto minúsculas.
Marklin suspira, manda-os passear, recua três passos, sobe as escadas decidido a dar uma vista de olhos pelo solarium.
Que raio anda a Suzana a fazer?
Pelo menos no jardim é que não está. Porém, sobre a relva, aqui semi-enterrados, ali suspensos por arames sobre os carris, eis os omnipresentes tubos, no interior dos quais qualquer coisa escorre, repugnante.
Intrigado, Marklin acompanha um, espezinhando flores e talos viçosos, sem se dar conta do massacre ecológico, até constatar o seu desaparecimento através de um dos hexágonos do solarium, mesmo ao nível do solo. Para lá dos vidros foscos pode ainda vê-lo, a estender-se pela cratera do asteróide, dividindo-se em múltiplos ramais, como uma inefável teia a diluir-se na paisagem.
Marklin visita a doca de acoplagem onde estão presentemente a serem feitas as últimas reparações dos estragos provocados pela chegada intempestiva do Dumbo. Roedores volantes zumbem (Que ruído vem a ser este?, atarefados, ignorando-o por completo. Tanto melhor, pensa, divirtam-se, meninos...