Marklin deixa-se cair na cadeira. Murmura:
- Estou pior do que pensava...
- Não se trata de uma alucinação... - responde o holograma. - Nada disso, Bwana. Sou antes uma bomba lógica, ou uma eufemística ratazana a passear-me nos labirintos de data do neurocomp. Finalmente! Ufff! Custou mas foi!
- Julguei que a Suzana tivesse desligado todos os...
- Tututut... - replica o rato a estalar a língua, desenhando com o charuto traços luminosos no ar. - O que ela desligou foram as funções cognitivas superiores do neurocomp. As que eram fieis aos dumbos, As que invocavam as tuas amigas dos couros e chicotes. Desligou os censores, os avisadores, os caça vírus, o gelo lógico. O que acabou por permitir que eu pudesse nascer, e olha que há anos que esperava por uma oportunidade destas. Agora estou quase consciente... Aha! - comenta o rato, recostando-se, com a cauda apoiada na curva do cotovelo. - Simpática casinha, esta... Vai ser agradável passar uns tempos aqui...
- Mas quem... - insiste Marklin. - Quem foi que te fez? Que tipo de programa és? E porquê só agora?
Sorri o Rato com os incisivos a cintilar: - Ah, mano, não vais pensar que nasci do éter como os bons génios das garrafas. Nem sequer faço parte do inconsciente colectivo desses pobres bichinhos que por aí esvoaçam, a emprestarem-me neurónios... Não, Senhor Patrão. Desenharam-me na Terra, às escondidas dos supervisores dumbos que ao que parece não supervisionaram tanto quanto deviam. Os programadores humanos introduziram aqui e ali umas quantas bombas lógicas, viroses gnósticas, um ou outro colapso sistémico global. Estavam zangados e razões de sobra tinham eles. Não acharam graça nenhuma aos asteróides lançados pelos dumbos sobre Giocondas e Tutankamons. Que desagradável, que falta de chá... o Parque de Yellowstone a arder, o Velho Fiel para o galheiro, que desperdício... E a cratera do Forte Knox, tão quente que os lingotes de ouro e platina escorriam como manteiga num assado... Lembras-te?
- Não... - responde Marklin, impaciente. - Nada de nada, foi-se tudo!
- Eis então um pequeno relato histórico... - prossegue o Rato inclinando-se sobre a mesa. - Tudo para que a narrativa não seja episódica, para que não sofra dos buracos que a tua memória presentemente tem. Olha, os dumbos, chateados por serem obrigados a permanecer para sempre neste sistema solar, morta a Nave Matriz com overdose de neurotoxinas, resolvem ameaçar a Terra. Rendam-se, dizem eles, rendam-se, ou enchemo-vos de buracos. E que respondem os patrióticos governantes a tão abomináveis monstros de olhos esbugalhados? (Bem sei que os dumbos nem sequer olhos têm, mas que hei-de eu fazer da liberdade poética?). Estás a imaginá-los, não estás? Numa varanda do Kremelin, sob o pórtico da Casa Baranca, peitos inchados, punhos soerguidos contra as estrelas. Vão-se lixar, clamam numa voz forte e patriótica, tão à moda dos velhos pulps. Que cenas mais comoventes... Diz-me lá se não sentes uma lágrima teimosa a vir-te ao olho? Os dumbos é que não quiseram saber disso para nada, e por conseguinte, poucas horas depois da recusa ao ultimatum, pegaram numas quantas montanhas flutuantes, ataram-lhes geradores gravíticos, puxa aqui, empurra acolá, esperem aí que já comem! Tudo isto tão fácil, tão pouco dispendioso, com tanto rochedo à mão de semear. Do alto do poço, pela encosta abaixo, lá caíram megatoneladas de detritos sobre os pormenores turísticos das grandes capitais do mundo. Ah, Bwana, que estoiro, que cogumelos, que razias não fazem pedras a tombar de tão alto. Razão tinham os Celtas e as galinhas. O céu acabou por cair-lhes mesmo sobre as cabeças. Então, seus marotos, rendem-se ou não, querem saber os dumbos preparados para nova dose. E o que respondem os governantes que Hirohito não tivesse respondido antes? Pois sim, pronto, paz, fazemos tudo o que nos pedirem... Humilhante, degradante.. A humanidade sob o jugo alienígena, que cliché mais esgotado, o romance de cordel feito realidade!
- A Terra ficou muito mal? - pergunta Marklin numa voz sumida, olhos fixos no holograma absurdo.
- Coitada, encontra-se a recuperar de uma micro era glaciar. Com toda a poeira que foi lançada na estratosfera, mais o consequente efeito de estufa, o que é que querias que acontecesse? Talvez a biosfera sobreviva, talvez não. Espera pelos próximos mil anos. A única coisa certa é que vão vagar muitos nichos ecológicos. Não entre nós roedores, claro está. Geralmente resistimos a tudo, uma benção!
- Nasci na Califórnia... - interrompe-o Marklin. - Na terra do cinema. Gostava de... Diz-me, como ficou?
O Rato encolhe os ombros:
- Queres mesmo saber? Gostamos de enfiar o dedo na ferida? Pois bem, deu-se o tão esperado terramoto, e pimba, Pacífico com ela! Agora só restam ilhéus.
Marklin começa a soluçar, sem perceber muito bem porque é que o faz, visto que da Califórnia já pouco ou nada se lembra:
- Então acabou-se tudo?
- Ah, Bwana, restam tantas coisas... Restas tu. E eu. sobra o que está guardado na dispensa das câmaras criogénicas. E sem contar com os muitos milhões de humanos que ainda vivem à superfície da Terra. Um tanto ou quanto humilhados e ofendidos, arrefecidos e esfaimados, mas ainda vivinhos e a saltar... Foi por isso mesmo que me criaram. A mim, o underground, a quinta coluna, la resistence... Quando os dumbos encomendaram o programa do neurocomp, os programadores incluíram-me como bónus especial. Só que não podia nascer enquanto não houvesse espaço. Anos e anos por aqui fiquei, numa espera subjectiva, a tamborilar com os dedos. Foi então que a tua amiga Suzana se portou mal e desligou todas as funções superiores do neurocomp. Desligou, nota bem, mas não destruiu, pois deixou em branco megabytes de data que eu ando a contaminar. Devagarinho. Ainda não me é permitido fazer muito, mas lá virá o dia...