2
Marklin desperta, debatendo-se contra o capacete virtual e luvas cinestésicas.
O sofá cheira a vomitado. O revestimento de termoplástico adere-lhe às costas suadas. Por momentos deixa-se ficar assim, a respirar aos sacões, aflito.
À sua frente, recostada num cadeirão da sala de jogos, boquilha apagada ao canto da boca, o holograma da Vanessa Redgrave sacode a cabeça um tom de censura:
- Então, menino, calma, não leves as coisas tão a sério... Afinal não foi nada, vês? Ainda estás inteiro...
Marklin estremece nauseado. Passam-se segundos antes de conseguir arrancar as ventosas dos bioreceptores coladas sobre as arcadas superciliares. Em seguida esfrega os olhos, esforçando-se por exorcizar um pesadelo feito de humilhação e de impotência.
- Tudo o que é demais...
- Achas? - espanta-se Vanessa. - Olha que pela minha parte se cumpriram todas as regras. Até tiveste sorte, pois se não fosse esta emergência, o programa dos jogos continuava ainda por dez minutos subjectivos...
- Mais dez minutos com ela? Céus! A acontecer o quê?
- Ai, não digo. Ficará para a próxima, sim? E agora vê lá se arrebitas, se pegas numa pá ou em qualquer outro objecto contundente e vais ajudar os nossos amigos roedores a espantar pardais...
- Deixa-te de graças e explica-me o que se passa. - resmunga Marklin sem paciência nenhuma.
- Escuta, menino. Uma máquina de von Newmann decidiu fazer ninho mesmo à porta de casa. Furou o balão atmosférico de um lado ao outro. Pfff! Um peido descompressivo. Presentemente anda a fazer estragos nas colheitas...
- E que tenho eu a ver com isso? - resmunga Marklin levantando-se da cadeira, ainda trémulo, perna cibernética bem apoiada, enquanto a outra, a biológica, continua sujeita a espasmos musculares.
Vanessa sorri, escamas a nascerem-lhe no rosto como lágrimas:
- Tens, porque eu te mando, filho! Queres chatices?
Marklin acena que não, resignado. Só pode obedecer.
Termopele vestida, barra de plastex pendurada na mão, olhos por momentos fechados para não ter de suportar a vertigem consequente da distorção gravítica, Marklin desce a escada em caracol ornada de desenhos florais pintados a branco, rumo à superfície do asteróide. Durante segundos sente-se mosca, suspenso de cabeça para baixo numa espiral à la Moebius, onde cada passo implica uma queda inevitável. Depois, já nos braços da hipergravidade, emerge do chão no esplendor cintilante do solarium.
É meio dia e o micro-sol em órbita lithossincrónica incendeia o similcobre que sustenta os painéis hexagonais, escorrega no veludo das folhas, despertando a cor cerunculosa de milhares de pétalas e sépalas. Mais abaixo, bem junto à erva e ao húmus, sobre calhas de plástico, desliza um vagão de fertilizante puxado por três roedores/jardineiros. As criaturas de focinhos soerguidos, pedalam com energia. Sobre os crânios rapados fremem as antenas dos neurotransmissores. Dado que se encontram demasiado ocupados para repararem nele, Marklin diverte-se a assustá-los colocando o seu pé cibernético sobre a calha. Um dos ratos guincha, escandalizado, sacudindo no ar um punho minúsculo. O outro, ainda debruçado sobre os controlos do vagão, não dá por nada, esforçando-se por pedalar contra o súbito obstáculo. Marklin solta um risinho culpado e maldoso.
Por fim suspira, levanta o pé e deixa-os seguir em frente. O vagão arranca, num estalido de engrenagens oleadas, derrapa um pouco devido ao súbito impulso, e lá se vai perder na curva de um montículo, com um dos ratos de pé, sobre a capota, voltado para trás, a chiar insultos.
- Bom dia... - acena-lhes Marklin. - Deixem estar... é hoje que me mato, com certeza...
Passada a comporta da estrutura-solarium, a paisagem acerba-se, sujeita aos imperativos biológicos de um outro ecossistema. Liquens rosáceos espalmam-se de encontro às vertentes sombrias das crateras. Plantas tubulares, mais parecidas com vermes, rendilham a superfície do asteróide, pulsando, com os tegumentos vítreos a deixarem transparecer a circulação de fluídos inomináveis. Têm a cor de vísceras, de órgão tumefactos prestes a explodir. Marklin acelera o passo, evitando pisá-las. Aqui e ali, criaturas semelhantes a bexigas de ar circulam a esmo, na doce aragem. A atmosfera tresanda a gás sulfídrico e, se não fosse a sintaderme que lhe cobre os alvéolos pulmonares, Marklin cedo sufocaria.
Lá no alto, algumas dezenas de metros acima da sua cabeça, a bioderme que envolve o asteróide como uma casca, começa a cicatrizar o rombo provocado pela passagem da máquina de von Newmann. Por todo o lado esvoaçam roedores munidos de placas agrav, com as pinças dos waldos a castanholar. Enquanto outros, suspensos como moscas contra um céu translúcido, correm sobre a bioderme em busca de novas fugas de pressão. Os mais curiosos descem até à sua altura, em suaves voos acrobáticos. Marklin enxota-os, irritado.
O teor de adrenalina sobe e desce-lhe no sangue, estimulado pelos circuitos gnósticos da perna artificial. A verdade é que, algures, nessa zona metarreal que constitui o neurocomp, foi decidido que Marklin teria de se esforçar fisicamente para anular o intruso. Daí essa agressividade, esse angst incipiente. Estúpidos circuitos! Estúpidos ratos! Rua! Casota! Xota!