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Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

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    no instante seguinte encontra-se no meio de um campo banhado de luz, cavalgando uma patinete, a deslizar sobre uma estrada de tijolos amarelos.
    Rodeia-o uma paisagem estranha, cataclísmica. Uma paisagem que estremece, como se fosse desenhada num tapete a ser sacudido do pó. À esquerda, vê-se uma planura de relva ondulando como um mar transido de sargaços. Marklin escorrega, veloz, vento a bater-lhe no rosto, joelhos dobrados, braços abertos para se equilibrar, sobre um pavimento tão macio e implacável como o vidro, como se estivesse a escorregar pelo declive invisível de uma falésia. E, lá ao longe, no fim da estrada
(impossível, impossível) pois é uma estrada que sobe, que se enrola sobre o horizonte, surge um palácio verde esmeralda a brilhar sob a luz omnipresente num brilho tão intenso que vaporiza.
    Pela direita correm casas, galgam-se umas às outras com a pressa da passagem, casas de campo, de chocolate, de cristal, blokhaus de cimento, umas em ruína, outras moles como sorvetes, línguas gigantescas feitas de capachos a pender das portas e a lamberem-se umas às outras.

    (Estamos a descer, a descer tão depressa...), sussurra-lhe uma voz que só pode ser a da Suzana. (Por enquanto ainda não mergulhámos no EspaçoNulo, Mas estás a vê-lo, não estás? Por todo o lado. Frágil como um sonho. Não te percas, segue o caminho traçado. Em frente, em frente. Acompanha a estrada. Ignora as variáveis parasitas. Por muito que eu te bebesse, não as consegui suprimir por completo.)
    Suzana acompanha-o lado a lado nesta descida ilusória. Uma Suzana transformada. Desta vez é mesmo o Dumbo. Patas roliças e encolhidas, orelhas esticadas numa simulação de voo, pele cerunculosa e azulada, olhos pestanudos, chapelinho ridículo encavalitado no alto da cabeça, está tudo conforme. Tatuada no lombo, brilhante como um néon, consegue-se destinguir perfeitamente a estampa dos Estúdios Walt DisneyTM.
    Sobre o oceano de relva foge um veleiro do turbilhão traçado pelo dorso de uma baleia branca. Mesmo do lugar onde está, da protecção mais ou menos segura configurada pela estrada dos tijolos amarelos, Marklin consegue ouvir os gritos de terror da tripulação condenada.

    (Não ligues, não ligues), insiste Suzana. (São sonhos maus, fragmentos mal digeridos de memória. Em frente, em frente. Rumo ao Palácio, às mil portas, ao salto para a liberdade!)
    Marklin levanta os olhos, fixa-os num céu coruscante, num enxame de macacos alados, em bandos de dragões multiformes como variações de serpentes emplumadas, naves espaciais grávidas de mil jactos, pedregulhos do tamanho de pequenas luas.
    (Não ligues, não ligues) insiste o Dumbo (Não passam do modo como visualizas quem te persegue. Descansa que não nos apanham.. Presta atenção ao que fazes, não te distraias!)
    (Tão depressa...) consegue articular Marklin.
    (Achas? E não gostas? Estás a reparar como o Palácio cresce, lá ao fundo? Trata-se do Sol. É por aqueles lados que vamos saltar. Para longe! Para muito longe daqui!)
    Em torno de Marklin, toda a pseudorealidade conceptual parece estar igualmente a ser afectada pela singularidade. Torres imensas dobram-se como girassóis. Lá no alto, dirigíveis amachucam-se como balões furados. Revoadas de fenixes em combustão, descrevem linhas de treva na brancura do céu.
    Atrás dele

    (Não olhes, não olhes)
    uma rapariga grita em silêncio enquanto o seu escafandro estoira naquilo que só pode ser uma explosão descompressiva. Aterrorizado, Marklin reconhece-a.
    Clara! Céus, como é que...
    E a patinete desvia-se para a borda da estrada, uma estrada que vai subindo até ser parede.
    (Corrige, corrige), ordena-lhe o Dumbo (Que estás tu a fazer, não abandones este vector...)
    Marklin rodopia, desorientado, patinete quase a fugir-lhe debaixo dos pés. Acabou de ter a visão tremenda de uma vaga a crescer-lhe pelas costas. Gritam-lhe o nome aos ouvidos. Um nome que soa ao estoiro do coração da Matrix a morrer de overdose.
    O Dumbo puxa-o pelo braço com a tromba.

    (Corrige, corrige, queres dar cabo de nós?)
    Marklin equilibra-se, enfim, voltando ao centro da estrada. Já se esqueceu de quem o seguia. Já perdeu a memória da companheira a morrer. Agora tem mais em que pensar. As fachadas do Palácio de Esmeralda multiplicam ao infinito a imagem da sua aproximação. O vento inverteu o ciclo, deixou de soprar. Agora é como se o chupasse.
    (Atenção ao Portal! Vamos ao salto! Ao salto!)
    E Marklin salta, deixando para trás a patinete. Salta e mergulha de cabeça no túnel traçado no cristal, relâmpago, relâmpago, relâmpago de paredes translúcidas a passarem, até vir cair no interior de uma esfera titânica, crivada por milhares de outros túneis.

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