[Logotipo]

Início | Ficção | Não-Ficção | Outros | A-Z
E-nigma | E-nigma Light

Disney no Céu Entre os Dumbos
por
João Barreiros

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10
11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20
21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30

    - ... Além disso possui tecido cortical em demasia. Simples, tão simples de perceber, pois o tecido excedentário serve para armazenar toda a memória racial, mais as recordações subtraídas aos humanos capturados. Nunca se vêem, estas transportadoras, sempre escondidas, ciosamente guardadas pelo enxame. Sabes que são perigosas? Perigosas porque desejam levar a bom termo a totalidade da ninhada... PUN! Explosão demográfica em poucos meses. E isso não pode acontecer, não é, Marklin querido? Nem todos os dumbinhos têm direito à vida, às vossas almas. É que são muitos... tantos... tantos... Há que seleccionar, escolher os melhores genótipos. Pergunto a mim mesma como é que esta conseguiu escapar-se, pois é mesmo uma fugitiva, disso não tenho a menor dúvida... . Contudo, se analisarmos o problema numa perspectiva...
    - Sharon, cala-te! Mas o que é que se passa contigo? Olha, ela está mesmo aqui!
    De facto o dumbo ascende até à plataforma, escorregando nas correntes de ar, com as orelhas vagamente a fremir, tromba tensa, soerguida como um periscópio. Aqui e ali, na superfície fibrosa do seu dorso, desenham-se os ideogramas dos implantes, piscam as luzes de presença das placas agrav, semelhantes a dezenas de falsos olhos. O filtro sobre o opérculo nasal cospe borbotos de metano. De ambos os lados estalam as juntas dos manipuladores, contraindo-se e distendendo-se como braços esqueléticos. Mais abaixo, quase junto ao inchaço da cloaca, o codificador vocal entretém-se a emitir acordes da Ponte do Rio Kwai.
    Marklin recua até ficar encostado à curvatura da parede. A voz sumiu-se-lhe, não consegue sequer gritar. O coração ribomba-lhe garganta acima. Quer fugir dali e não pode pois as metade cibernética encontra-se desligada.
    E o dumbo fala-lhe com ternura, com uma pitada de desejo escondida lá no fundo, numa voz sintética semelhante à da Marlenne no Anjo Azul: - Salvé ó memória morna ó espírito de pássaro ó nervos que esperam o meu toque, escuta, sou a Suzana, eis-me chegada e inevitável.
    A tromba percorre-lhe a metade humana do rosto numa carícia. É feita de uma estrutura anelada e quitinosa, o seu toque é eléctrico, vagamente sensual. O dumbo flutua mesmo á sua frente, imenso, quase a ocultar com o corpo a totalidade da doca.
    Contudo é o holograma da Sharon Stone quem sofre as primeiras transformações. De início flameja, incerto, esforçando-se por juntar num só todos os rostos que compõem os seus programas. Depois torna-se transparente, quase imaterial. Ainda consegue articular:
    - Mais uma ilegalidade! Porte não autorizado de um disruptor de neurocircuitos! Marklin, depressa, medidas... - e em seguida desaparece.
    No abismo da doca reina a confusão. Robôs completamente desgovernados chocam contra as anteparas, ribombando. Roedores executam loopings, tochas acesas a traçarem sulcos térmicos sobre circuitos expostos e cabos de alimentação. Alguns mordem-se em pleno voo, aspergindo de gotículas sanguinolentas o funil do poço central. Luzes acendem-se e apagam-se, sereias avisadoras de quebra de pressão berram enganadas, e Marklin sente a hipergravidade a ir e a voltar, em sucessivas vagas que variam entre zero gramas e centenas de quilos por centímetro quadrado. Cai de joelhos para logo começar a subir, descolado da parede sem que haja nada que o sustente.
    A tromba da Suzana segura-o então pela cintura, num abraço terno e íntimo, até que os sistemas do neurocomp consigam adaptar-se às buscas quebras de status. Por fim, o silêncio envolve a doca. Calaram-se as sereias, os estampidos das máquinas descerebrizadas, o crepitar dos cabos amputados, os guinchos dos roedores. Resta o dumbo. E a sua voz doce, doce e rouca:
    - Diz-se por aí, e tu sabe-lo bem, não é verdade, Marklin/amor, pérolas da cultura, que dois é companhia e três é multidão. A presença desses teus duplos maternais tornou-se redundante. EU estou aqui, contigo, a sós... Não é maravilhoso?
    Marklin debate-se. larga, pede, larga, põe-me no chão. E o dumbo obedece-lhe. Que horror, pensa, não há expressão, não há rosto, não há nada que identifique Suzana com uma criatura inteligente, só a voz, a terrível, terrível voz...
    - Como queiras, tímida criatura. A Suzana é tua amiga, a Suzana deseja-te, mas não para já, ah não... Quando for noite, quando as estrelas eufemisticamente brilharem plácidas, então sim, unir-nos-emos num fluir de memórias sem espaço nem tempo... Por agora só quero que me mostres o interior do asteróide. Quero visitar tudo. Desde os centros de manutenção das funções vitais às câmaras criogénicas. Quero examinar as qualidades do estoque anímico e todos os sistemas de apoio disponíveis. Ah, Marklin, que aventura vai ser a nossa! Ilegalidade? Claro, mas não será essa a mais gloriosa aspiração da tua raça? A desobediência, o corte, a ruptura? Vamos rever mitos, lado a lado, unidos como quem ama, procria, voar, recordar...
    - Que vais fazer comigo? - pergunta Marklin, sem entender nada do arrazoado do dumbo, recuando, aproximando-se da comporta estanque, sempre seguido pela forma flutuante da Suzana e a sua constelação de acessórios.
    - Mas beber-te! Beber das tuas memórias como um vinho antigo...
    - Deixa-me em paz! - pede Marklin, sabendo que está a cometer a traição derradeira, mas sem se importar, aliás não está ninguém a ouvi-lo e só se é herói perante um público. - Existem dezenas e dezenas de outros como eu em criogenia... Escolhe antes um deles...
    - Ah, Marklin, mas é a ti que eu quero, só a ti... Não foste piloto de um dos mísseis que envenenaram a Matrix, que nos fez prisioneiros deste Sistema? Então não queres que eu te ensine a voar? Preciso dos teus conhecimentos, da concha vazia do teu cérebro, da assistência desse precioso lobo visual... outros mais virão, é verdade, mas depois de ti, quando for necessário alimentar as minhas crias, a totalidade da ninhada... Depois... Para já, és absolutamente necessário à consecução dos meus projectos...

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7 | 8 | 9 | 10
11 | 12 | 13 | 14 | 15 | 16 | 17 | 18 | 19 | 20
21 | 22 | 23 | 24 | 25 | 26 | 27 | 28 | 29 | 30