3
Mas lá para o fim do pseudo-dia, enquanto o micro-sol se afasta rumo ao outro hemisfério, sentado numa das cadeiras de lona sob a cúpula despolarizada do solarium, envolto no musco clorofílico das plantas terrestres, copo de álcool quase puro a pender da mão, Marklin enfrenta a fase depressiva da sua ciclotimia.
Quer morrer de vez, pois a vida transformou-se num horror sem sentido. Que mais pode esperar dela senão outra visita dos Dumbos?
Para o distrair, roedores saltam de ramagem em ramagem imitando pássaros, cantando como pássaros. Num minúsculo coreto a alguns metros de distância, cinco ratos negros tocam clarinete e saxofone, patas humanizadas a correr sobre os orifícios dos instrumentos, antenas dos neurotransmissores de momento ocultas sob os chapéus de coco. Eis Nova Orleans, diz Marklin de si para si, procurando transformar a palavra em algo mais do que um nome. Mas nada resulta, nada. A memória do passado permanece impenetrável. Quantas vezes, pensa num arrepio nauseado, quantas vezes já me visitaram? Quantas vezes restam até ficar vazio como um saco?
Levanta-se, entornando o copo. Um dos ratos poisa-lhe sobre o ombro. No seu dorso, por detrás de duas minuciosas asas de anjo, zumbe um placa agrav. Marklin enxota-o. Ofendido, o roedor angelical esvoaça, ascendendo aos hexágonos superiores do solarium. E lá no alto, pendurado pelas patas traseiras a uma junta de similcobre, fica a olhá-lo, a chiar baixinho.
Passada a comporta, lá fora, indiferente, o ecossistema dos dumbos dormita na noite artificial. Como um parasita perdido num estômago imenso, cabeça atirada para trás, procurando esconder os seus pensamentos à inefável vigilância do neurocomp, Marklin deita a correr na direcção do ponto onde a bioderme se une à rocha do asteróide.
Mas como morrer sem que ninguém dê por isso, como escapar de vez a esta espera que se eterniza num marasmo de doce horror? Nada mais simples: basta-lhe furar a pele no ponto mais acessível, junto às docas de acoplagem, e passar-se para o outro lado onde a noite é permanente e o vácuo absoluto. E tudo isto depressa, antes que o neurocomp perceba a situação e resolva desligar-lhe a metade cibernética. Será que já tentou isto antes? Não se lembra, raios, não se lembra...
Lá no alto, as estrelas seguem-no em despedida. Júpiter brilha na vertical, grande como um polegar, deixando transparecer uma réstia de cor logo oculta por uma nuvem de esporos em migração. Como ficará o céu, interroga-se Marklin, quando o nosso sistema solar foi envolvido na labareda que vem do Centro? Os dumbos e a humanidade ainda dançarão esta pavana de morte?
E depois? Encolhe os ombros. Tão próximo do fim, que lhe importa a sorte dos outros?
Acabaram-se as divagações. Chegou. Eis as docas, mesmo em frente.
A Via Láctea torna-se invisível, a bioderme conjuga-se com o asteróide, opacizando-se à medida que desce e engrossa, com todas as artérias irrigadoras bem distintas na florescência dos fluídos alimentares. Sobre a rocha, expandindo-se para ambos os lados até se ir enrolar no horizonte, um muro de plastex engole os derradeiros centímetros da bioderme. Delgadas como dedos, emergindo do solo e colando-se aos conectores arteriais, tubagens sugam proteínas dos sintetizadores enterrados, distribuindo-as pela bioderme sequiosa.
Ofegante, Marklin espalma as mãos sobre a superfície fosca e visceral, sentido a mordedura do frio absoluto que o espera do outro lado. Para além do véu que a pele forma, fantasmáticas, ameaçadoras como insectos carnívoros, elevam-se gruas, torreões, waldos, antenas de micro-ondas e cabos de acoplagem.
Deste lado, de pé, braços abertos em cruz, Marklin faz força, empurra. Mas a bioderme resiste a todos os esforços.
Marklin morde os lábios ao ponto de fazer sangue. Podia desistir, dar-se por vencido, voltar ao solarium. Contudo insiste por princípio. A cobertura, teimosa, molda-se-lhe aos dedos.
Marklin grita, desesperado, músculos a tremer com o esforço, até que a bioderme acaba por rasgar-se, deixando passar os punhos.
Alarmes de quebra de pressão troam nos auriculares. Uma voz sussurra-lhe aos ouvidos:
- O que é que julgas que estás a fazer, grande parvo?
A pele que lhe acaricia o rosto começa a fremir, magoada, chamando a si cicatrizantes. Quanto à mão direita, a verdadeira, mal protegida pelo fato de sintaderme, no abraço álgido de cem graus negativos, insensibiliza-se.
- Complexos messiânicos? É isso? - insiste a voz. - Crucificado perante um universo indiferente? Vendido ao dumbo invasor? Para redimir os pecados de quem? Francamente, Marklin... Que mau gosto, filho!
Marklin não quer saber, finca os pés, empurra com todo o corpo. Submissa, a bio-derme dilata-se acompanhando a curvatura do rosto e dos joelhos. Metano escapa-se através das fendas. Depressa! Eis que chega o fim, como uma taça de gelo...
- Queres parar com esse disparate? Queres ter chatices comigo, é isso? Estás com muita vontade de apanhar? - prossegue a voz do neurocomp, tornando-se dura, maliciosa.
Desta vez a pele rasga-se-lhe em torno da cabeça como um hímen imenso e pegajoso. Mas acabou. A partir daí não consegue avançar nem mais um centímetro. Preso pelos braços e pelo pescoço, como num patíbulo medieval, Marklin sujeita-se durante curtos segundos à negação do vazio.