R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Imagem e Semelhança

por Carlos Orsi Martinho

conto publicado em 15.06.2002

republicado em 22.01.2004

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XII.

Então ele me deu anestésicos que reduziram a dor a níveis quase toleráveis, e um aparelho que retardaria a degeneração de meu corpo, quando eu voltasse ao contínuo normal. Eu poderia me mover, ainda que de forma limitada; eu poderia falar. O aparelho retarda a passagem do tempo; dilata os segundos. Ou você não percebeu? Você entrou aqui há menos de dez minutos, e eu estou falando faz quase uma hora...
Ele me deu o anestésico, a máquina, e me trouxe para este mesmo apartamento, poucos segundos depois de eu ter partido em minha viagem rumo à pré-história. O corpo da mulher ainda estava aqui. O "VIII" me passou uma arma e me mandou atirar no cadáver — e simular um grito de mulher.
Na hora, não perguntei por quê.
Depois ele me disse para esperar aqui, sentado, e contar toda minha história para a primeira pessoa que entrasse no apartamento. Em seguida pôs a caixa que tirei de Luciana na mesa ali atrás — não sem antes deixar bem claro o que me aconteceria se eu tentasse fugir —, tirou uma outra caixa de dentro do hábito, pegou o corpo e sumiu.
Estou aqui desde então. A máquina faz um bom trabalho, esticando meus poucos, meus últimos segundos de vida ao máximo. Já o anestésico não é tão bom.
E agora você está aqui, e ouviu minha história. E talvez seja mesmo a hora de dar à "vida na Terra uma origem um pouco mais nobre". Pôr algum altruísmo nas raízes, só pra variar.
Quer saber? Acho que vou desligar a porra da máquina.

Epílogo

O cheiro invade suas narinas e cai como ácido em seus pulmões, em seu estômago. Incapaz de se controlar, você vomita no chão da sala e agradece pelo gosto amargo de bile que se prende no céu da boca, bloqueando o odor da poça de fragmentos de osso e líquido amarelo que escorre do assento da poltrona à frente.
O fato de você conseguir ver a poltrona o surpreende. Um segundo atrás, o apartamento parecia totalmente impermeável à luz de qualquer natureza. Agora, raios luminosos passam livremente por entre as persianas.
De acordo com seu relógio, passaram-se menos de quinze minutos desde o instante em que você desceu do elevador.
Há outra fonte de luz no aposento, mais intensa que as janelas: é uma caixa prateada, posta bem ao centro do que talvez fosse a mesa de jantar do apartamento.
Você caminha até lá, e abre a caixa. Você sente seu coração batendo: não rápido, mas com força. Cada pulsação é um impacto no peito, na garganta.
Há uma data marcada dentro da caixa. Você agora escuta, dentro do ouvido, o redemoinhar do próprio sangue.
A data, na caixa, é de bilhões de anos atrás.
Então você respira fundo. Em seguida, toma uma decisão.

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