R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Imagem e Semelhança

por Carlos Orsi Martinho

conto publicado em 15.06.2002

republicado em 22.01.2004

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VIII.

Ninguém mais diz que o tempo flui como um rio. A imagem é velha, batida, tem o cheiro desagradável de coisa gasta, suada, de lugar-comum. Imagino se a ação secreta dos irmãos e irmãs, cavaleiros e amazonas da Ordem de Aragão, não teria algo a ver com o desaparecimento dessa figura de linguagem antes tão familiar — e só Deus sabe de quanta coisa eles são capazes. Porque, veja, o tempo realmente flui como um rio. Não se trata de uma metáfora, mas de uma descrição bastante objetiva.
Mais ainda: existem sentidos, comuns a todos os seres mas estranhamente adormecidos no homem, que permitem acompanhar o fluxo, estudá-lo, descrevê-lo. Permitem encontrar os trechos de corrente mais rápida ou lenta, detectar pontos de maior ou menor profundidade, pressentir cachoeiras, penhascos, contracorrentes, redemoinhos. Foi com esses sentidos reavivados, graças ao estudo minucioso do Libro de las Reglas, que retornei ao Brasil.
E foi usando esse velho-novo senso para ler — ler como nunca havia lido antes, decifrando o que está escrito na arquitetura, o que é proclamado na topografia, as sílabas ocultas no movimento das estrelas, as frases desenhadas no traçado das ruas, o discurso fluido do formato, da disposição e da velocidade das nuvens no céu — que encontrei a garota. Se bem que, quando a vi pela primeira vez, já era uma senhora de certa idade.
Ela vivia neste mesmo prédio. Neste mesmo apartamento, aliás.
O que fiz com ela? Ora, você sabe. Matei-a e larguei o cadáver aqui mesmo. É por causa dela que você está aqui, certo? Ou, ao menos, é o que você pensa.
Foi fácil demais, por falar nisso. Eu devia ter imaginado — desconfiado. Afinal, se era capaz de sentir a verdadeira natureza dela, é inacreditável que ela, uma irmã, uma amazona da Orden de Aragón, não soubesse o que eu era.
Portanto, devia ter desconfiado, não?
Merda, mas eu estava prestes a recriar a espécie humana à minha imagem e semelhança. A idéia me intoxicava! Eu realmente gostaria de voltar atrás e desfazer tudo, mas é claro que eles não deixariam.
O nome era Luciana.
Fiz tocaia na frente do prédio durante uma semana; não, uma semana e meia. Às vezes saía a velha senhora, às vezes a garota. Mas isso não me enganou nem por um instante. Os sinais eram claros, principalmente a curva hiperbólica que o vento traçava na copa da terceira árvore à direita, neste mesmo quarteirão (você pode vê-la pela janela), e o brilho nos olhos dos gatos, pretos e rajados, da casa em frente: eram ambas a mesma pessoa. Esta época e este lugar deviam ser uma espécie de base para ela, uma encruzilhada entre uma missão e outra. Aposto que o pessoal do prédio pensava nela como mãe e filha.
Mas, como já disse, foi fácil. Realmente simples: certa noite segui-a até um restaurante alemão. Mas ela não foi até as mesas: ficou pelo bar, tomando golinhos de uma tulipa de chope escuro. Era o ego jovem. Parecia um pouco abatida; talvez soubesse o que estava por acontecer — não, sem "talvez". Tenho certeza de que sabia.
Me limitei a entrar lá e sentar ao lado dela.
— Oi — eu disse, sorrindo.
A garota olhou para mim. Havia tédio em seus olhos, sim senhor.
Saco cheio.
Na hora, imaginei que estivesse cansada de ser abordada por homens desinteressantes; agora, suponho que o enfado se devesse a alguma outra coisa — provavelmente ela estava me medindo, tentando adivinhar o quanto da pantomima teria que levar adiante antes que chegássemos, de fato, aos negócios.
Negócios que significariam a morte dela, claro.
Sim, notei o paradoxo — como ela e a senhora de meia idade poderiam ser a mesma pessoa, se a garota iria morrer ainda jovem, talvez naquela mesma noite? Bem, não sei. Ao menos, não exatamente. Mas já tive provas de que a morte só é definitiva sob circunstâncias muito especiais. Estou aqui falando com você, não estou?
Bem, ficamos lá por uns quarenta minutos, ela fingindo que estava interessada em dar pra mim, eu fingindo estar interessado no que ela poderia oferecer. Dois mentirosos. Marionetes.
Vítimas.
Que mais? Nada. Viemos até este mesmo apartamento; eu a torturei até que ela me dissesse onde guardava a caixa.
Tudo parte da pantomima, claro. Ela iria falar de qualquer jeito; mas eu esperava, estava convencido de que uma verdadeira amazona da Orden só poderia ser induzida a trair segredos da Irmandade sob tortura. Então Luciana encenou um pouco de resistência, imagino que só para me agradar. Ambos não passávamos de marionetes, mas então só ela sabia disso.
Mas, onde eu estava?
Ah. Sim.
Estrangulei-a.

IX.

Já falei sobre a caixa? Não há muito o que dizer e, ao mesmo tempo, há tudo o que dizer. Se estiver interessado, mais tarde você vai poder encontrá-la por aí.
O Libro de la Orden fala das caixas. Cada irmão, cavaleiro ou amazona, tem uma. É com elas que executam suas missões, que mantêm a história fluindo em seu leito. As caixas são veículos, são armas. São a chave do poder absoluto e, embora cada uma delas pese menos que um quilo, representam uma carga às vezes insuportável. Seu uso inspira uma alegria desconcertante ao mesmo tempo em que marca fundo na carne, como ferro em brasa.
Isso é o que o livro diz. Numa tradução livre, acho. É difícil lembrar de tudo.
E, naquele momento, eu tinha uma em meu poder.
O Libro ensinava a operá-la. Não era difícil; bastava escolher uma data e horário, dentro do calendário gregoriano. O que me apresentava um novo problema: em que dia e hora a vida havia começado na Terra? Alguns fundamentalistas cristãos falam em algo como 25 de novembro de 4000 a.C., às três e vinte da tarde, mas essa dificilmente seria uma estimativa confiável. Os fósseis mais antigos já encontrados são de 3,8 bilhões de anos atrás; mas a crosta da Terra já estava formada há 4,3 bilhões de anos. Em algum instante, entre uma época e outra, a vida surgiu.
Quando? No momento em que eu decidisse chegar.
Escolhi o dia de meu aniversário, no ano 4.249.666.713 antes de Cristo. E iniciei a viagem.

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