R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Imagem e Semelhança

por Carlos Orsi Martinho

conto publicado em 15.06.2002

republicado em 22.01.2004

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7

II.

Tendo decidido não ser mais um simulacro, uma cópia de segunda categoria, me vi diante de duas alternativas: ou eu me igualava ao original — deixando se ser uma cópia mal resolvida para me tornar uma verdadeira réplica fiel — ou seguia o caminho oposto: tratava de me afastar ao máximo da matriz, de desfigurar a criação, de escapar da esfera do Criador. A primeira alternativa me pareceu, na época, pouco viável. Fiquei, portanto, com a segunda.
Imagino que um espírito menos sofisticado teria se contentado com uma série de alterações cosméticas — tatuagens, "piercings", cirurgias, cicatrizes, mudança de sexo, amputações. Eu, não. Oh, não. Eu sabia que para deixar de vez o rol das imitações baratas, dos fac-símiles, das xícaras de gesso, das bijuterias de plástico, seria preciso me excluir de vez da espécie humana. Não se tratava de mudar o corpo, portanto, mas de transformar, transcender, desfigurar a alma. Como fazer isso?
Falei em cirurgias. Enquanto pesquisava, ouvi falar de algo, sugerido por um médico italiano, um certo doutor G. W. Luppi — uma operação que desconecta as funções superiores do cérebro, circunscrevendo a capacidade mental do paciente aos limites da de um animal; uma operação capaz de fazer o homem esquecer-se de si mesmo, parar de lembrar, de sofrer e de sentir tudo que estiver para além das funções mínimas da mente: fome, frio, sede, sono e pouco mais. Um suicídio da consciência.
A idéia quase me seduziu, mas depois descobri que se tratava apenas de mera especulação entre cientistas, sem nenhuma viabilidade para o presente.
Busquei, então, outras fontes e possibilidades. Veja, por exemplo, as palavras desumano, inumano, ou, mesmo, anti-humano no dicionário. Qualquer dicionário. O número de sinônimos pode variar, mas todos se resumem a, basicamente, duas acepções: animalesco ou cruel.
Mas seria isso mesmo? Uma pessoa pode ser animalesca e cruel e, ainda assim, continuar a ser uma pessoa. Fiz experiências neste sentido — não, você não quer saber que experiências, eu lhe garanto — e obtive sucesso em meus objetivos imediatos, isto é, algumas vidas e mentes realmente se perderam, outras tantas, claro, se destruíram.
Foi instrutivo, de certa forma. Mas o fato é que em momento algum me senti menos humano.
Passei a considerar o extremo oposto: a mansidão, a paciência, a santidade. Ainda assim, ponderei, um santo é um "holy man", um homem santo. Foi aí que tive o que considero, ainda hoje, uma inspiração única: e se eu praticasse ambos extremos simultaneamente? A metáfora dos dois raios de luz cruzando-se em interferência destrutiva, produzindo escuridão, fixou-se em minha mente. Eu tinha que testar a idéia; na verdade, podia quase saboreá-la, como se fosse uma carne excepcionalmente macia, levemente picante, dissolvendo-se na boca.
Durante três dias e três noites jejuei e orei. Mortifiquei-me, em sinal de humildade e penitência. Todo o dinheiro que teria usado para me alimentar no período, e cinco vezes mais, gastei-o comprando gêneros que seriam doados a um projeto de caridade que alimenta famílias sem-teto e outros desvalidos.
Ao mesmo tempo, cuidei para que parte desses gêneros — não todos, apenas uma parcela — fosse envenenada. E não com uma substância qualquer, claro, mas com alguma coisa que produzisse agonia intensa e morte inevitável. Com minhas experiências anteriores eu havia ganho algum conhecimento na área, e pude fazer uma boa escolha. Também cuidei para que as porções envenenadas fossem distribuídas de forma absolutamente aleatória. Assim, na casualidade — improvável — de alguma das mortes me trazer lucro ou satisfação pessoal (vingança, por exemplo), tal fato seria responsabilidade única e exclusiva do mais puro acaso.
Embora a idéia tenha sido boa (orgulho-me dela até hoje), os resultados foram, infelizmente, menos do que satisfatórios. O choque de emoções que eu esperava, o cataclisma resultante do impacto das ondas de culpa e beatitude, desprendimento e crueldade, vida e morte, o vórtice espiritual que, era esta a esperança, iria desenraizar minha alma, causar o colapso de tudo que havia de humano em mim — não aconteceu.
Oh, sim, algo aconteceu. Mas poderia ter sido uma indigestão leve; ou a dificuldade que tive para dormir quando, certa vez, tomei uma xícara de café expresso imediatamente antes de ir para a cama.

III.

Deformações do corpo e dos sentimentos, concluí, não iriam me levar até onde eu queria; restava-me, portanto, agir sobre o intelecto.
Em fases anteriores de minha busca eu já havia tido contato com certos textos tidos como desumanos, ou desumanizantes: os trabalhos de De Sade e D'Erlette, principalmente, algumas das Súmulas de Calígula e, o que me causou maior e melhor impressão, as Memórias, provavelmente apócrifas mas atribuídas a um certo Amadeus Brusch, serviçal do papa Alexandre VI, nascido Rodrigo Bórgia, pai e provável amante da não menos infame Lucrécia.
Brusch, o possível autor do texto, tinha sido destacado para cuidar do Infantum Romanum, o "filho de Roma", a misteriosa criança sem nome que teria nascido da ligação incestuosa do papa com a filha, e sobre a qual praticamente não há registros na história — exceto pelos fatos, documentados, de que nasceu do ventre de Lucrécia, foi reconhecida pelos Bórgias como da família e viveu por, pelo menos, cinco anos.
Os escritos atribuídos a Brusch falam da perseguição movida ao Infantum Romanum por seitas e círculos satânicos, por irmandades de feiticeiras, alquimistas, loucos e charlatões. Afinal, num tempo em que se acreditava que a gordura de uma criança não-batizada poderia fazer uma bruxa voar, que poderes não estariam contidos no corpo do filho — incestuoso — do próprio papa?
Boa parte das Memórias apenas antecipa o que viria a se tornar lugar-comum na obra de De Sade e seus imitadores: orgias em conventos, freiras sibaríticas, falos de espinhos, aço, vidro, gelo e madeira, mulheres com lâminas ocultas nos orifícios mais insuspeitos. Mas havia algo mais — algo que vinha nas entrelinhas, um certo conhecimento implícito, a sugestão de possibilidades que ficavam muito além das vulgaridades contidas no texto. E a chave para tais possibilidades parecia se encontrar em ainda outros livros, citados de forma bem pouco explícita, às vezes por meio de abreviações obscuras, ao longo das Memórias: o De Daemonialitate, normalmente atribuído a um alquimista italiano do século XVII, mas escrito, por um autor desconhecido, quatrocentos anos antes; e o Fuga Satannae, impresso pela primeira vez em 1597, mas que já circulava, como manuscrito copiado e recopiado, pelo menos desde o primeiro século da Era Cristã.
Percorri a Europa e o Oriente em busca desses trabalhos, e de outros. Dinheiro não era problema. Na verdade, como qualquer político ou traficante de drogas poderá lhe dizer, dinheiro nunca é realmente um problema. Ao menos, não para quem está disposto a fazer o que quer que seja necessário para ganhá-lo.
Os incunábulos, se não destruíram a fagulha humana em mim, ao menos apontaram-me caminhos novos e surpreendentes.
Considere, por exemplo, o conceito de tempo; a idéia de que o passado é uno e imutável. Mas... será mesmo? Há passagens no Fuga Satannae onde o Inferno é comparado a um lugar que parece existir fora do tempo, um limbo aonde são levados "corpos sensíveis, não apenas formas essenciais; e exilados ficam, fora do fluxo do Devir e de todo Pensamento que cruza a Mente da Providência". Quando li esse versículo, eu imediatamente soube que havia algo ali; ainda não exatamente o quê, mas me senti, sem sombra de dúvida, na pista certa.
Eu tinha uma cópia fotostática dessa página.
Foi em Portugal que fiz a descoberta. Foi lá que encontrei o livro que me seria verdadeiramente útil, páginas de linho e seda encadernadas entre duas placas de ébano com entalhes preenchidos por ouro e prata, um fecho de aço e um cadeado de bronze. A data exata da obra é desconhecida, mas com certeza não antecede ao século XVI; o trabalho não é citado em nenhuma bibliografia a que eu já tenha tido acesso, nem mesmo no Index Librorum do Vaticano ou nas Coleções Reservadas de Miskatonic, Buenos Aires ou do Museu Britânico. Chama-se El Libro de Las Reglas de la Orden de Aragón, ou "O Livro das Regras da Ordem de Aragão". O título é capcioso: o leitor desavisado pode pensar que se trata de uma compilação de leis do reino de Aragão, um dos Estados medievais que deram origem à Espanha moderna.
Mas não se trata disso; de maneira alguma.

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7

Gostou deste texto? Ajude-nos a oferecer-lhe mais!

 

Imagem e Semelhança