R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Imagem e Semelhança

por Carlos Orsi Martinho

conto publicado em 15.06.2002

republicado em 22.01.2004

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X.

É óbvio que eu esperava morrer poucos minutos depois de chegar lá. Sufocado pela atmosfera de gás carbônico e vapor d'água; talvez escorchado, reduzido a pústulas e pele seca pela luz calcinante do sol; dissolvido pelas águas cáusticas do grande Oceano Único. Minha missão era a da semente, da crisálida, que deixa de existir para gerar vida nova; como o Cristo na cruz, minha morte seria o preço a ser pago para que a Vida pudesse começar. E eu esperava um fim doloroso e solitário, porém rápido. Eu contava com isso.
Olhei em redor. O céu era vermelho, roxo, com nuvens negras e marrons; o mar emitia um brilho fantasmagórico, uma luz mineral, provavelmente emanada por lavas incandescentes.
Mal tive tempo de notar esses detalhes antes que meus pulmões parassem, pesados, sobrecarregados pelo gás irrespirável, denso, que compunha a atmosfera ao redor; antes que a água ácida me corroesse a garganta.
Por um precioso instante, estive morto.
E depois...
Depois, eu me lembrei.
Estava numa jaula; era algum tipo de divisória de vidro, ou algum metal transparente. Ângulos todos errados, desproporcionais; conformação desconfortável — impossível ficar em pé, impossível sentar, impossível deitar. A textura, também: escorregadia demais para obter apoio firme, e ainda assim áspera o suficiente para haver atrito, e atrito doloroso.
E, do lado de fora, coisasseres — me observando.
Só o que posso dizer é que pareciam estar vivos, e pareciam algum tipo de forma de vida inteligente... Que mais? Eles tinham cinco lados — você entende? Cinco! — não apenas dois, não só direita e esquerda, mas...
E o mais estranho, o mais estranho de tudo, é que eu me lembrava. Como quem volta a uma casa onde viveu no início da vida, na primeira infância; como quem, de repente, se recorda da letra de uma música ouvida há muito anos.
A lembrança, ainda que incerta e fragmentada, foi como a nota grave que quebra o gelo e dá início à avalanche. No caso, uma verdadeira avalanche de medo.
Você sabe o que é isso? Medo? Você acha que está sentindo medo agora, sentado sozinho no escuro, no apartamento de uma mulher morta, ouvindo a confissão de um desconhecido que você, pobre imbecil, imagina seja um louco, um assassino? Ah! Você não sabe o que é ter medo.
Tudo o que você já pode ter lido ou visto ou ouvido ou sentido a respeito disso, do verdadeiro pânico, sobre seu impacto, sobre as sensações que causa... Tudo... — o coração que salta à garganta; o cabelo em pé nas próprias raízes; a visão que parece falhar, o frio que toma conta das pontas dos dedos, a terrível secura na garganta, a sensação do sangue que se esvai para não se sabe onde, o tremor convulsivo, a náusea, o suor gelado que brota na testa e hesita, suspenso, em gotas trêmulas — por um instante insuportável, tudo isso foi verdade para mim. Deus me ajude, tudo isso foi verdade em mim.
A caixa, no entanto, ainda estava comigo.
Usando-a, abri mão de meu sonho. Sem remorsos, pela primeira vez, fugi.

XI.

— Déjà vu. No longo prazo inevitável, imagino. Depois de passar pela mesma coisa tantas e tantas vezes... Acho que tenho que me considerar um homem de sorte por ter conseguido interceptar a sua fuga.
O homem que me dirigia essas palavras estava emoldurado por um céu resplandecente, branco, marcado aqui e ali por manchas negras de formato variado. Atrás desse homem — ele mesmo uma figura digna de nota, vestindo algo semelhante a um hábito monástico com o número "VIII" marcado no peito — vi um edifício. Pelo que eu me lembrava de ter visto em minhas próprias viagens e em fotografias, poderia ser a Basílica de São Pedro. Mas a cúpula estava semidestruída.
Os únicos sons no lugar eram a voz do homem, e o de minha respiração. Não se ouvia mais nada: pássaros, o vento, folhas, nada. Nem mesmo passos à distância.
Eu estava caído no chão, e sentia uma dor aguda na espinha que, para todos os efeitos, me impedia de tentar qualquer esforço maior do que balbuciar algumas palavras — mesmo o ato de engolir saliva era, se não doloroso, no mínimo desconfortável.
— Tantas... vezes? — perguntei, mais por reflexo do que qualquer outra coisa.
— Ora! Não lhe parece óbvio? O senhor volta no tempo e fornece aos alienígenas da Raça Antiga a matéria-prima para que criem a vida na Terra, da forma como a conhecemos; a vida evolui, cria o senhor, que depois volta no tempo. O ciclo vem se repetindo, com pequena ajuda de minha humilde pessoa e de meus associados, em números redondos, há quatro bilhões de anos. A aparente natureza paradoxal do fenômeno obviamente não lhe escapa. Quanto a isso, só posso lhe garantir que, quando se observa o contínuo icosadimensional pelo lado de fora, tudo fica muito claro, realmente. Provavelmente houve algum tipo de saturação do ciclo, o que fez com que a informação gerada pelas oportunidades anteriores fosse assimilada pela mente de seu ego atual, após o choque da viagem. O resultado, pelo que posso ver, foi pânico absoluto. Não posso culpá-lo; os métodos analíticos da Raça Antiga podem ser bastante desagradáveis. Não que eles sejam cruéis, de jeito nenhum; apenas desconhecem todas as implicações envolvidas na estimulação aleatória do sistema nervoso. Mas me esqueço de que o senhor só teve oportunidade de ler os fatos comezinhos que reuni especialmente no Libro de las Reglas; temo que essas noções estejam, portanto, um pouco fora de seu alcance.
— Onde... estou?
— Roma. Vaticano, para ser mais preciso. O "quando" talvez também lhe interesse: 12 de outubro de 1582. Esta é uma das poucas coordenadas do espaço-tempo em que o senhor pode continuar vivo, isto é, sem a ajuda de aparelhos especiais, como um gerador de estase ou a câmara de ressurreição onde a Raça Antiga o colocou, e de onde o senhor fugiu. Aliás, reparo que, ao mesmo tempo em que lhe devolveu a vida, a câmara lhe causou alguns problemas estruturais bastante graves; danos que, sem dúvida, a própria câmara tratava de mascarar, ao menos enquanto o senhor se mantinha dentro dela. Mais paradoxos, é o que parece. E aqui vai outro: o dia de hoje nunca existiu. Não em Roma: em 1582, o papa cancelou dez dias do mês de outubro, o doze incluído.
À agonia em minhas costas vinha se somar, agora, um latejar crescente, uma cãibra nos braços e pernas, com certeza causada pela posição pouco natural em que meu corpo se encontrava. O sofrimento me fez revirar os olhos, e mais uma vez contemplei o céu branco, marcado por manchas que eram como estrelas e galáxias negras.
O homem com o hábito de monge — eu me vi pensando nele como o "VIII" — percebeu o novo rumo de meu olhar, e disse:
— Impressionante, não? O céu é assim, nestes trechos em que congelamos a Eternidade: a área branca abrange todos os pontos, visíveis da Terra, onde já houve ou por onde já passou uma estrela, ou um corpo que refletisse, em nossa direção, a luz de uma. Já as falhas negras são os lugares onde nunca existiu luz visível a olho nu. O efeito de negativo é deveras majestoso mas, como todo o resto, nós nos acostumamos. Como a cúpula de São Pedro, ainda inacabada, e a cripta dos pais da Igreja, ainda aberta ali atrás. Já gostei muito de passear por esses lugares, mas atualmente...
— Morte.
— Perdão? Não creio ter entendido...
— Morte — eu disse. — Quero morrer. Sem... dor.
— Ah. Sim. É exatamente este o problema, não é mesmo?
Ele me contornou, de forma a olhar diretamente nos meus olhos — que eu não era mais capaz de desviar do céu branco de estrelas. A dor era tão intensa que eu não tinha mais como senti-la de qualquer outra forma que não a de uma força irresistível, uma gravidade esmagadora que mantinha meu corpo imóvel, paralisado numa posição tão grotesca quanto a de uma marionete descartada, jogada fora sem ter quem lhe manipulasse os fios.
— Porque — continuou o "VIII" — o senhor não pode morrer. Não aqui, porque é impossível morrer ou nascer nestas coordenadas, nem em nenhum outro lugar do contínuo espaçotempo normal, porque isso destruiria toda a história do Universo. A Raça Antiga tem que estudar o senhor, para que desse estudo surja a primeira célula da primeira alga dos mares da Terra. Entende? Meu dever, portanto, é devolvê-lo ao laboratório da Raça Antiga. E, desta vez, sem meios de fuga. Aliás, tomei a liberdade de privá-lo de sua caixa. Espero não ter causado nenhum incômodo ao fazê-lo.
Eu não conseguia mais falar. Mesmo assim, algo deve ter mudado na expressão de meu rosto, porque o "VIII" de repente me pareceu comovido.
— Por outro lado... Não há como negar que o senhor cumpriu muito bem seu papel, em todos os milhões de oportunidades anteriores. Para que a memória da Raça Antiga saturasse o contínuo dessa forma, o senhor deve ter realizado a viagem um número absolutamente incalculável de vezes. Talvez seja a hora de lhe dar um descanso, de sondar realidades alternativas...
Alguma esperança deve ter se filtrado em minha expressão, porque o "VIII" rapidamente desviou os olhos, antes de completar:
— ... e talvez seja a hora de dar à vida na Terra uma origem um pouco mais nobre. Senhor, seu histórico de crimes não o recomenda. Mesmo assim, estou propenso a considerar sua punição completa. Isto é, se o senhor estiver disposto a assumir um pequeno compromisso.

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