R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Imagem e Semelhança

por Carlos Orsi Martinho

conto publicado em 15.06.2002

republicado em 22.01.2004

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VI.

A meta passou a ser, portanto, obter o Libro de las Reglas para mim. Os monges do monastério onde eu encontrara a obra não me permitiriam ficar junto ao livro por tempo suficiente para copiar todas as passagens que me pareciam relevantes. E, mesmo se permitissem, eu sempre poderia cometer um engano, deixar de lado um capítulo ou versículo que, depois, viesse a se mostrar indispensável.
Além disso, por tudo que eu sabia, aquele era um exemplar único. Como já disse, a obra não é citada em qualquer bibliografia, não consta de catálogo algum. Bibliotecários de instituições que se orgulham de possuir tomos obscuros como o Peri Ton Eibon ou o De Nomine Necorum, assim como conhecidos teólogos e autoridades eclesiásticas, responderam a meus telefonemas e telegramas (feitos e enviados sob pseudônimo) com manifestações de perplexidade — para eles, tal livro (assim como a misteriosa Orden de Aragón) jamais teria existido! Porra, aposto que o Vaticano sequer se lembrava de que havia um monastério e uma biblioteca naquela parte de Portugal.
E, não obstante, os monges estavam lá. Vivendo em um torreão de pedra que data, pelo menos, da ocupação romana, erguido na periferia de um vilarejo português cheio de relíquias neolíticas; um amontoado de casebres que mal aparece nos mapas, uma gota de vida urbana em um oceano de dólmens, capim, ovelhas e porcos.
O porco, aliás, é o animal que mais se assemelha ao homem, mesmo admitindo o parentesco próximo que une a raça humana aos macacos. É em porcos que os cientistas pretendem cultivar corações, rins e fígados compatíveis para transplante; a pele do porco é a única outra, além da humana, que se bronzeia sob o sol.
E nenhum outro animal, além do porco e do homem, grita tanto ao ser degolado.
Isso quase pôs tudo a perder: não consegui passar um corte limpo e eficiente na garganta do primeiro monge, e ele teve tempo de gritar. Como gritava! Como um porco, roliço e rosado, morrendo, exangüe, mas urrando e berrando, urrando e berrando até o último instante. Nenhum respeito ao voto de silêncio.
Outros dois, que deviam estar nas proximidades, acorreram. Um deles derrubei com o arremesso certeiro de um banquinho de madeira maciça; o outro, vendo a situação, se voltou para correr e, provavelmente, buscar mais ajuda — mas consegui alcançá-lo em dois pulos, e desta vez a faca entrou direitinho entre a terceira costela e a quarta, perfurando o coração.
Tudo isso aconteceu numa pequena cela do monastério. O lugar, como já disse, é um torreão. No andar térreo ficam a capela, a cozinha e a área comum de refeições. A partir daí, uma escada em espiral sobe aos três outros andares. Em cada um deles há duas celas monásticas, ligadas entre si e à escada por um corredor. A biblioteca fica em um recesso da adega, no subsolo.
Havia seis celas, portanto, mas eu sabia que eram apenas cinco monges. Três tinham ido; faltavam dois.
Eu tinha planejado agir de acordo com o único curso lógico possível nas circunstâncias: matar todos os cinco, tentando fazer o mínimo de barulho possível (era por isso que tinha decidido não usar armas de fogo) e pegando-os todos dentro da torre, me apossar do livro e deixar a aldeia rapidamente, mas sem demonstrar pressa. Tinha imaginado que, com o tipo de vida que os cinco sacerdotes levavam, talvez se passassem semanas até que alguém notasse que estavam todos mortos.
Enquanto subia mais um lance de escada, em busca de minha quarta vítima, repassei o plano. Não acreditava que os gritos do primeiro monge tivessem comprometido o arranjo geral; eles dificilmente teriam ressoado para além das paredes de rocha da torre, o que o som de um tiro talvez fizesse. Os dois padres alertados tinham, apenas, corrido para a morte, me poupando o trabalho de encontrá-los. Sim, mesmo os imprevistos trabalhavam a meu favor.
Subir aquelas escadas era uma experiência e tanto — o edifício teria mais de mil anos e, mesmo em plena luz do dia, o interior se mantinha escuro. Raios de sol entravam por frestas na parede circular, que de tão estreitas não chegavam, realmente, a ser janelas. Meros respiradouros, talvez seteiras.
Esses raios cortavam meu caminho, fazendo reluzir a poeira de rocha suspensa no ar. Cada vez que passava por um deles, emergia meio ofuscado no degrau acima. Talvez minha tarefa tivesse me deixado hipersensível, mas parecia haver uma diferença notável de temperatura, cheiro e umidade entre os trechos cortados pela luz e as sombras imediatamente ao redor.
Disse que cruzar os raios de sol me deixava ofuscado; depois de algum tempo, portanto, passei a atravessá-los com os olhos fechados. Preocupava-me que algum dos outros padres se aproveitasse da confusão momentânea, causada pela transição entre luz e sombra, para me atacar. Uma preocupação estúpida, é verdade, já que os dois sobreviventes provavelmente nem sabiam de minha presença no torreão. Mas, mesmo assim...
No final das contas, minha preocupação se mostrou desnecessária, um verdadeiro desperdício. Encontrei os últimos irmãos numa cela do terceiro andar. Não vou dizer o que faziam. Estavam, ambos, de costas para mim, e o segundo a morrer demorou demais para notar a verdadeira causa do último gemido e suspiro de seu companheiro.
Deixei a faca cravada na garganta do mais gordo, e desci para buscar o livro. Tinha levado uma muda de roupas comigo, numa valise, de forma que o jorro de sangue não me incomodava.

VII.

Como sou uma pessoa cuidadosa, assim que cheguei a Paris tratei de autenticar o volume. Enviei amostras a laboratórios e especialistas, e minha intuição inicial se confirmou: o trabalho tinha sido impresso ainda no século XVI. No processo de coletar amostras, descobri um detalhe curioso... uma data, rabiscada em tinta já bem desvanecida, quase ilegível, no rodapé de uma das últimas páginas. VIII, Roma, 12 octobre 1582, dizia.
Uma vez obtida a autenticação, mergulhei fundo no texto. Escrito em uma mistura de latim bastardo, castelhano primitivo e um português certamente pré-camônico, o conteúdo da obra era um verdadeiro labirinto de alusões, charadas e simbolismos que transcendiam, em muito, o jargão místico-alquímico a que eu me habituara enquanto lia alfarrábios como Philosophiae Chymicae, ou o Turba Philosophorum. Havia trechos realmente codificados no corpo do texto, e para lidar com eles tive de procurar tratados sobre a criptografia da época, como o Traité des Chiffres, que por sorte encontrei na Bibliothèque Nationale.
Acho que eu deveria dizer que a paisagem que o Libro de las Reglas descortinou diante de mim desafia qualquer tentativa de descrição. A frase seria verdadeira, e ainda assim insuficiente para dar conta de toda a verdade. Você provavelmente imagina o tempo como uma grandeza unidimensional, certo? Um segundo, um minuto, ambos têm um certo comprimento, isto é, uma duração. E se eu lhe dissesse que, além de comprimento, cada segundo de nossas vidas tem também uma largura, e uma profundidade?
Há menos de dez anos, nem mesmo a matemática mais moderna seria capaz de expressar esse tipo de conceito. Mas idéias assim existem há séculos (ou talvez tenham sido criadas no futuro, e depois exportadas), como está patente na decoração de velhas igrejas, nas quadraturas do zodíaco, nos ângulos do octógono que envolve a pia batismal, nas quatro faces da pirâmide, nos sete dias do Gênese. Só o que se exige para que alguém possa absorvê-las, depreendê-las e desfrutá-las é que esse alguém saiba ler. E o Libro de Las Reglas, uma vez decifrado, é a gramática completa, o perfeito guia de leitura.

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