R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Imagem e Semelhança

por Carlos Orsi Martinho

conto publicado em 15.06.2002

republicado em 22.01.2004

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Prólogo

O elevador pára.
Sem tirar os olhos da janela estreita, você aperta o botão do relógio digital e ouve o "bip" do cronômetro. Só então baixa a cabeça e confere o mostrador: o tempo exato, até à primeira casa decimal.
Tem que ser neste andar.
Você se lembra de uma semana atrás, quando imaginou ter ouvido a mistura de sons — um estampido, como uma porta batendo, junto com algo que talvez fosse um grito de mulher — enquanto descia de seu apartamento, no décimo-terceiro andar. Você cantarolava uma canção popular para as paredes nuas do elevador, e se lembra do ponto exato da letra em que estava quando ouviu os sons.
Você se lembra da mulher morta, o cadáver irreconhecível em tudo, menos no sexo, encontrado na caçamba de lixo do lado de fora da garagem, no dia seguinte.
Morta com um tiro.
Ou teria sido uma porta batendo?
O elevador abre.
Você desembarca no espaço minúsculo do saguão. A porta do apartamento está aberta — você não contava com isso. A escuridão do outro lado, emoldurada pelos batentes de madeira vermelha, parece quase uma coisa sólida, uma barreira física mais eloqüente até do que seria a própria porta... isto é, se estivesse fechada.
Os elevadores deste prédio não têm monitor de andar pelo lado de dentro. Só dá para saber em que andar se está quando as portas se abrem. Ou então cronometrar as viagens, deduzir quanto tempo se gasta entre um andar e outro, e multiplicar...
Pelo tempo que se leva para cantarolar uma certa música, por exemplo.
Mas gente nunca leva o mesmo tempo para cantar a mesma música duas vezes, não é? Não exatamente...
Seus pensamentos começam a ficar confusos, e você luta contra isso. Luta contra a idéia de que a escuridão do outro lado é uma coisa cristalina, brilhante, como um espelho de obsidiana; contra a impressão de que, se você olhar de esguelha para o vão da porta, se virar bem a cabeça e olhar apenas com o canto dos olhos, vai captar, num lampejo, a própria imagem, refletida em negativo.
O que estou fazendo aqui, meu Deus?
Você sente como se alguma coisa amorfa, alguma coisa feita de gelo, lava e espinhos, algo afiado e impiedoso, estivesse se mexendo, tendo espasmos, em suas entranhas. A versão titânica, avassaladora, de um friozinho na barriga. Sua boca está seca, há bile na garganta e você tenta, sem sucesso, manter pelo menos os lábios úmidos.
E se não for aqui?
Você confere de novo o relógio, a leitura do cronômetro ainda congelada na tela cinzenta de cristal líquido. O andar tem que ser este. É a única coisa que faz sentido. Isto é, se é que o elevador faz mesmo um andar a cada dois segundos... Se é que o fosso do elevador não distorce os sons; se é que vozes e ruídos não são como fantasmas, deslizando para cima e para baixo pelo túnel escuro, ressoando pelos cabos, morrendo nos contrapesos.
Você morde o lábio, partindo a pele seca e rachada. É claro que a cronometragem está certa. Você sabe muito bem disso, já que passou a última semana conferindo tudo. Então...?
É a porta. Você não esperava, não contava, não queria encontrar a porta aberta. Porque, afinal, uma porta aberta é como algo que diz...
— Entra, porra — fala uma voz que vem da escuridão além dos batentes vermelhos, uma voz masculina, grave, sussurrada e quebradiça, como o som de passos pesados sobre um campo de folhas secas. — Alguém tinha que vir. Afinal, era o único jeito... Eles têm que ter alguém. Já entrou? Ótimo. Não, não. Deixa a luz apagada. Tem uma cadeira logo aí à direita. É só tatear um pouco... Ah! Achou? Bom. Agora, sente-se. Sente, eu disse!
Você obedece. Por um instante, algo metálico parece brilhar em um ponto próximo, talvez às costas, da fonte da voz — o homem deve estar armado, você pensa, ao mesmo tempo em que sufoca a vontade de sair, de correr, ao mesmo tempo em que se culpa pelo próprio medo, em que se envergonha da própria obediência.
A cadeira em que você está finalmente se acomoda e pára de ranger. Então, sem qualquer aviso, o homem começa a falar...

I.

Imitações baratas (ele diz. Você escuta, como que hipnotizado). É o que todos nós, homens, mulheres, eu, você, a espécie humana, somos: imitações, fraudes, falsificações patéticas. Copos e xícaras de plástico, vidro e gesso, sofrendo, morrendo porque nos falta a substância mais pura, bela e verdadeira, o cristal, a porcelana. E a maioria das pessoas é tão idiota que acha que a frase da Bíblia, "criado à imagem e semelhança de Deus", é algo de bom, algo para se ter orgulho. Imbecis, entenderam tudo ao contrário.
Mas não eu. Oh, eu não, de jeito nenhum. "À imagem e semelhança de Deus" foi algo que sempre me incomodou, me diminuiu, me agrediu. Sempre. Quando eu era adolescente, lembro bem, tinha um gato na vizinhança onde minha família morava. O gato era preto, de peito branco. Vivia na rua. Imagino que ele deve ter sofrido alguma coisa, um derrame, talvez, porque a partir de um certo dia começámos a ver que o bicho não conseguia mais fechar o olho direito. De jeito nenhum. Até dormir ele dormia com o olho aberto. Uma cena bem desconcertante.
E daí? Acontece que, certa vez, eu estava olhando o gato. Percebi que algo devia estar acontecendo, porque ele foi ficando inquieto, parecia trêmulo e indeciso, volta e meia erguia uma das patas dianteiras no ar, garras estendidas, tremia um pouco, golpeava o ar uma, duas vezes, baixava a pata de novo.
E então, de repente, o olho direito, grande e verde, estourou, rebentou como uma fruta podre. O cheiro era parecido com o que você deve estar sentindo agora, e o som, o miado, eu sou incapaz de descrever. Numa espécie de acesso, ou espasmo, o gato começou a atacar o que tinha sobrado dentro da órbita com as próprias garras, a rasgar a própria pele, enfiando as unhas em si mesmo. Nessa hora ele já devia estar louco de vez, porque li em algum lugar que os gatos normais retraem as garras, automaticamente, quando se tocam a si mesmos.
Do buraco que ficou na cara dele escorria pus, sangue e um monte de larvas brancas, uns vermezinhos lustrosos, meio amarelados e translúcidos. Imagino que algum inseto, um borrachudo ou uma varejeira, tenha usado o olho, sempre úmido, quente e aberto, para pôr ovos. Provavelmente dias antes, enquanto o gato dormia. Quem sabe?
O fato é que fiquei olhando para as larvas que se retorciam dentro da órbita do gato, e ouvindo os gritos do animal, e pensei que, porra, Deus tinha usado mais talento, criatividade e imaginação para fazer aquilo do que para me fazer. As larvas, o desespero do animal, eram uma obra; eu era algo feito "à imagem e semelhança" do artista. Tão adimensional quanto um auto-retrato.
Naquele dia decidi que não aceitaria mais isso. Que iria fazer algo a respeito.

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