R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Especialista

por Maria Helena Bandeira

conto publicado em 24.01.2002

republicado em 09.07.2003

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Cena Final

O Escritor ligou a estereovisão.
A claridade da enorme tela cortou a penumbra da sala.
Os Tomadores de Café observavam atentamente as imagens do noticiário. Quando o locutor anunciou que o assassino do Honorável Sing Lo se suicidara na prisão, o mesmo sorriso irônico percorreu seus rostos.
"...os psicólogos da Polícia Científica garantem que era um desequilibrado e que agiu sozinho. Os motivos para o seu gesto ainda estão sendo investigados. Os policiais liberaram fotos do prisioneiro enforcado com uma corda feita com tiras do próprio lençol. Entidades de Direitos Humanos de várias partes do mundo protestaram e entraram com pedidos exigindo a autópsia do acusado. Mas as autoridades carcerárias garantem que ele será cremado amanhã às 17 horas. Como não tem parentes conhecidos, a cerimônia acontecerá no Crematório da Prisão de Segurança Máxima de Thor..."
O sorriso continuava.
"... e atenção para essa notícia: O PRESIDENTE DA UNIC, SING LO, NÃO MORREU NO ATENTADO!... Foi atingido em seu lugar um clone Sing Lo II, usado para ocasiões de perigo..."
Na suite da notícia, o locutor explicava, com desenhos computadorizados, o que era um clone substituto e como funcionava. Logo depois, um sorridente Sing Lo apareceu na tela, agradecendo a solidariedade e o pesar manifestados durante a sua suposta morte e demonstrando estar mais robusto e bem-disposto do que nunca.
O Escritor fitou os trinta e seis Judas ao seu redor e em cada sorriso viu o mesmo brilho dos trinta dinheiros.
O círculo dos traidores se fechou sobre ele e a última coisa que viu foi uma arma apontada diretamente sobre sua cabeça.
Quando foi destruída a câmera de estereovídeo colocada atrás de suas células-olhos.
No interior do subterrâneo, em algum lugar do planeta, o Dr. Lannor desligou o aparelho receptor.
"Eu estava certo. Não se podia confiar neles..."
O Escritor concordou, entristecido.
"Eram bons camaradas. O poder corrompe."
O outro não fez comentários. Perguntou apenas:
"Quer vê-lo agora?"
"Quero. A inteligência será preservada?"
"Claro. É um cérebro privilegiado. Mas quando os Tomadores de Café foram avisá-lo, já era o clone que estava na presidência da UNIC. O nosso clone. Aquele que o Especialista "matou"."
"Um plano sem falhas..."
O Escritor sorriu.
Entraram juntos no Laboratório. Deitado numa prancha metálica suspensa a um metro e trinta de altura, com monitores do Programa de Dissolução da Personalidade envolvendo sua cabeça, o poderoso Sing Lo, presidente da UNIC, respirava suavemente.
"Quando voltar a si, fará apenas o que nós quisermos. Agora somos os verdadeiros donos da Universal Idea Company! E destruiremos pedra por pedra de sua abominável estrutura... Viva a liberdade de expressão!..."
O Escritor respondeu:
"Viva!..."
Mas seu entusiasmo soou falso.
Pela primeira vez, ele e o Dr. Lannor evitaram se encarar.
Afinal, a UNIC era a UNIC.
O poder corrompe.

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O Especialista

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