R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Especialista

por Maria Helena Bandeira

conto publicado em 24.01.2002

republicado em 09.07.2003

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2º Ato

Chovia fino quando o porteiro introduziu os primeiros membros do Clube dos Tomadores de Café no saguão iluminado.
Uma entidade que tinha como única finalidade aparente reunir, em torno da negra infusão, uma série de apreciadores, para discutir sobre inutilidades.
Todas as quartas-feiras, pontualmente, às nove horas da noite, no imponente edifício-sede da Empresa ATZ de Publicidade.
Quando o número de participantes se completou, o Escritor, que presidia às sessões, mandou que as portas de aço fossem fechadas.
Ninguém mais poderia entrar ou sair da reunião.
Nesse momento, uma radical transformação se processou entre os pacatos Tomadores de Café:
Três deles, munidos de rastreadores eletrônicos, rapidamente vasculharam o recinto à procura de câmeras e microfones.
Um telão de estereovídeo apareceu atrás da mesa do conferencista e, por uma porta até então invisível, o Desconhecido entrou e se sentou ao lado do presidente.
O Escritor foi direto ao assunto:
"Este é aquele que nós chamamos o Especialista..."
Todos os olhos se voltaram para o estranho. Um homem alto e moreno, de pele clara e rosto sensível.
Não parecia um matador.
"Na verdade é o protótipo Número Um da série Alpha. Um clone. Uma reprodução absolutamente fiel, física e mentalmente, de seu original humano, o Dr. Jason Lannor, cientista brilhante e meu amigo. Ele trabalhou nesse projeto durante quinze anos, num laboratório secreto nas montanhas, com uma equipe cujos membros, por motivo de segurança, nem eu mesmo conheço integralmente. O Dr. Lannor morreu há dois meses atrás..."
O Escritor fez uma pausa. Os outros permaneceram em silêncio.
"Desde então, o Especialista tem se mantido oculto, com a minha ajuda, até esse momento. Quando chegou a hora dele realizar sua primeira tarefa para nós: eliminar o nefando Sing Lo, presidente da UNIC..."
O silêncio se tornou mais espesso.
"O Especialista é praticamente um homem comum. Suas necessidades são as mesmas de um indivíduo normal de seu tamanho e idade aparente. Pode sentir dor, fome e frio, e não é dotado de super força ou velocidade, nem tem qualquer tipo de poder desconhecido. Mas foi projetado com uma qualidade essencial para o sucesso dessa operação, além de um cérebro privilegiado: a ausência total de qualquer emoção humana..."
Pela primeira vez, um ligeiro tremor percorreu a assistência.
"Nem ódio, nem medo, atrapalhando sua caminhada. Nem ambição, nem amor, impedindo-o de ver claramente seus limites..."
O desconhecido permanecia impassível, ouvindo com atenção concentrada e registrando todos os detalhes ao seu redor.
"Agora, ele vai nos mostrar, num programa simulação, exatamente como a coisa deve acontecer..."
Com seu jeito distante e tranqüilo, o Especialista inseriu o programa. Imagens perfeitas dele e do presidente da UNIC apareceram no telão no ambiente escolhido.
Os espectadores prenderam visivelmente a respiração, quando o espírito do Sing Lo virtual foi ao encontro de seus antepassados, através da mão certeira do Especialista.
Então a tela escureceu novamente e todos respiraram aliviados.
O Escritor decretou com voz fria:
"Será amanhã, às 17 horas. Os que estiverem de acordo levantem a mão direita."
Uma a uma, as mãos se levantaram lentamente.
A tela escureceu, o Especialista desapareceu pela porta secreta e os Tomadores de Café voltaram a conversar sobre amenidades.

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