R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Especialista

por Maria Helena Bandeira

conto publicado em 24.01.2002

republicado em 09.07.2003

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6

1º Ato

O Escritor elaborou o anúncio pela décima vez e digitou-o no terminal.
O símbolo inconfundível da UNIC apareceu na tela:
"BOSTON - 2015 - Elizabeth Tellmark pela CLOUD para pasta dental EXCLUSIVE - Março a Julho - Amerikan Net Stereovision"
Soltou o milésimo palavrão. Tinha vontade de esmurrar o computador.
Com um movimento brusco, retirou o pequeno cachimbo eletrônico preso a um dos lados do terminal e aspirou a fumaça antipoluente e anticancerígena.
Uma cortesia do Departamento de Pesquisa em Biofeedback da UNIC.
O calor e um ligeiro relaxante acrescentado ao fumo diminuíram sua irritação em alguns pontos percentuais. A pequena luz vermelha do cachimbo foi se tornando alaranjada até se estabilizar no amarelo.
Continuou, então, a quebrar a cabeça com as combinações possíveis.
Na vigésima-quinta tentativa, finalmente, o maldito símbolo não apareceu.
E a máquina emitiu as alegres notas da Aleluia de Haendel, que ele acompanhou em falsete.
Pequena contribuição humorística acrescentada, por sua conta, ao programa.
Agora, só faltava testar os estereovídeos prontos e a trilha sonora. Às vezes, depois do produto acabado, era preciso recomeçar por causa de um pequeno detalhe.
A UNIC (Universal Idea Company) tornara-se o terror de todos os criadores. Uma simples firma de patentes que o gênio de seu dono transformara no poderoso complexo mundial de hoje, que englobava todas as firmas de absolutamente tudo que era produzido no planeta. De frases a imagens e músicas, de máquinas a sabonetes.
Com a rendosa indústria dos processos por plágio, a preocupação dos criadores tornou-se paranóica, principalmente na área de publicidade. Quase todos trabalhavam com terminais da UNIC.
Os outros simplesmente não existiam para o mundo do consumo.
"RIO DE JANEIRO - 2021 - Marcos Cordeiro pela DPZ para sutiãs Desire - três semanas em Maio - Revistas na Web e jornais."
O Escritor jogou a cadeira longe. O cachimbo não estava sendo suficiente.
Foi até o banheiro, pressionou a tecla que adicionava modificadores comportamentais à água da torneira e tomou um copo-medida.
No espelho em frente seu rosto estava tenso e os cabelos cada vez mais grisalhos, indicando o início da Síndrome de Retroatividade Verbal que acometia os profissionais da sua área.
Os cabelos ficavam precocemente embranquecidos e o vocabulário, eternamente policiado, ia se reduzindo a slogans para cada operação do cotidiano, até que a comunicação em sociedade se tornava impossível.
Eram, então, internados no SEPROC (Sanatório Especial dos Profissionais de Criação) onde permaneciam, em estado catatônico, os olhos brilhantes, emitindo sílabas incompreensíveis.
Uma parte das diárias de hospitalização saía de seus polpudos salários. A outra era, generosamente, doada pela UNIC.
Quando o modificador começou a fazer efeito, o Escritor voltou a se sentar diante do terminal.
Finalmente, os anúncios ficaram prontos. Tinham, cada um, exatamente 15 segundos. Mas levaram oito dias e seis horas para que o computador os aceitasse.

Página: 1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6

Gostou deste texto? Ajude-nos a oferecer-lhe mais!

 

O Especialista

Para Sempre Marte

in O Planeta das Traseiras