R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Especialista

por Maria Helena Bandeira

conto publicado em 24.01.2002

republicado em 09.07.2003

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4º Ato

Situada nos contrafortes das montanhas geladas de Thor, a Prisão de Segurança Máxima é uma edificação escura e pesada, que se confunde com as rochas ao seu redor.
A muitos quilômetros de qualquer cidade e cercada por poderosos rastreadores espaciais, é praticamente inacessível, tanto por terra como pelo ar.
Só aerocars e aeróbus policiais descem no seu aeroporto e as visitas são proibidas.
Sua divisa poderia ser:
"Deixai toda a esperança, ó vós que entrais."
Para os que lá chegam como prisioneiros, a Prisão de Segurança Máxima de Thor é o próprio Inferno.
Muitos metros abaixo do solo, nos Laboratórios de Interrogação Científica, os guardas colocaram o Especialista numa cadeira de aço e prenderam suas pernas e um dos braços por garras de metal. O braço livre repousava sobre um anteparo brilhante que terminava numa prancha onde lhe indicaram que deixasse a mão. Ela foi, então, coberta a uma distância de aproximadamente 10 centímetros por um artefato de metal, que emitia uma luminosidade violeta.
Apesar de manietado, a posição do Especialista não era totalmente inconfortável e ele passou a observar com calma as paredes claras, as máquinas e os Cientistas ao seu redor.
"Qual é o nome dele?"
"Não conseguimos identificação até o momento. O computador rejeitou as impressões digitais como desconhecidas. A aparência externa é do Doutor Jason Lannor, físico do Projeto Experimental de Manipulação Genética."
O outro levantou as sobrancelhas, surpreso:
"Identidade falsa. O Dr. Lannor morreu há dois meses. Deve ter sofrido uma plástica de alta sofisticação. Até as impressões foram alteradas... de qualquer maneira, fizemos coleta do material celular, vamos aguardar o exame de DNA e a resposta do Laboratório de Análises. Ele se recusa a colaborar, claro."
O Cientista, um homem de meia-idade com a aparência de um simpático avô meio cansado, dirigiu-se diretamente ao prisioneiro:
"Preste atenção... Responda apenas o que eu perguntar. Como é o seu nome?"
"Eles me chamam o Especialista."
"É só o que a gente consegue arrancar dele..."
"Muito bem. Deixa ele comigo..."
Dirigiu-se outra vez, pacientemente, ao prisioneiro:
"Você conhece este aparelho?"
O Especialista observou atentamente a máquina:
"Parece um Detector de Mentiras."
"Ele pode ser considerado um Detector de Mentiras. Só que é muito mais sofisticado do que esses que existem por aí... É impossível enganá-lo. Veja bem, filho, você pode mentir para mim, mas este aparelho percebe qualquer vibração de seus dedos, por menor que seja, qualquer modificação na umidade da pele, a mais infinitesimal partícula de suor, a mais imperceptível diferença de temperatura. Então, é possível controlar todas as suas reações... saber o que se passa na sua mente... no seu sistema nervoso..."
O criador se entusiasmava com a criatura.
Mas o Especialista continuava absolutamente calmo, ouvindo, como sempre, com toda a sua atenção concentrada.
Aquela ausência de reação desapontou um pouco o Cientista. Mas era questão de tempo.
"Quando aquela luz verde se acender, a máquina estará ligada. Certo?"
"Certo."
"Muito bem. Vamos começar... Qual é o seu nome verdadeiro?"
"Eles me chamam o Especialista."
Nenhuma reação - afirmava o computador. A tela permanecia parada. O aparelho zumbia suavemente.
"Eu perguntei seu nome verdadeiro. Aquele do registro civil. Diga, filho, qual é o seu nome?"
"Eles me chamam o Especialista."
Nenhuma reação.
O Cientista começou a suar. Não estava dentro do padrão. O homem era uma pedra de gelo.
"Quem são eles?"
"Os que me chamam o Especialista."
Nenhuma reação outra vez.
"Quantos anos você tem?"
"Aparento 39 anos."
"Não perguntei quanto aparenta!... Responda apenas o que for perguntado!.. Quantos anos você tem?... Responda!... Responda!..."
O Cientista começava a perder a calma.
"Eles me chamam o Especialista. Aparento 39 anos."
"Quer bancar o engraçadinho, não é?... Mas, se você não passar aqui vai direto para o Comportamental e lá eles não são simpáticos como eu, não... lá a barra é pesada... é sofrimento mesmo!... Ninguém resiste!... É melhor cantar aqui e você fica livre..."
Nenhuma reação - continuava o computador zumbindo suavemente, as linhas verdes correndo serenas como as águas de um rio preguiçoso de verão.
Quando a sessão terminou e os guardas entraram, o Especialista continuava absolutamente calmo. Nem um fio de seu cabelo se desarrumara. Ele observava concentradamente o ambiente, registrando cada pequeno detalhe. O cientista, vermelho e suado, bufava diante da máquina.
"Esse cara não é humano!... Rasgo meus diplomas se ele não for um andróide... pode apostar!... Quero ver os exames..."
"Não é assunto seu, Doutor. Se não conseguiu nada aqui, a ordem é levá-lo para o pessoal da Comportamental."
"Besteira!... Estou dizendo a vocês que ele não é humano!... Não tem emoções!... Não reage!... Fica aí, sentado, feito uma pedra!... Nem uma mísera gota de suor!... Isso não existe!..."
Estava a ponto de chorar de frustração.
O Chefe da Guarda balançou a cabeça e foi saindo com o prisioneiro.
"Esses cientistas são todos birutas...".
Deixassem com ele e os velhos métodos tradicionais, e aquele pássaro ia cantar direitinho... Mas toda essa parafernália eletrônica de agora... "Porcaria!... Não vale nada!...".
Como não era ele quem decidia, o Especialista foi levado para o segundo subsolo, onde funcionava a menina dos olhos da Polícia Científica: o Laboratório de Terapia Comportamental para os Desvios Patológicos do Crime.
-oOo-
Quando recuperou a consciência, estava imerso na escuridão.
Há uma escuridão com a qual a vista, pouco a pouco, se acostuma, distinguindo vultos e sombras.
Mas ali, o negrume era absoluto e total.
Não havia diferença entre abrir e fechar os olhos. Era apenas um ato mecânico, como flexionar as mãos.
Pelo ar abafado e ligeiramente úmido, concluiu que estava num ambiente fechado, talvez uma cela subterrânea, próxima de algum lençol de água.
Seus ouvidos aguçados distinguiram um leve gotejar, não muito distante.
Agachou-se e apalpou o solo.
Parecia cimento, ligeiramente molhado.
Ensaiou alguns passos, sempre na mesma direção, com a mão estendida. Três passadas adiante, sua mão esbarrou numa parede úmida e viscosa. Acompanhando a parede, lentamente, descobriu um ângulo.
Retirou o casaco e colocou-o no chão, marcando o lugar. Depois se moveu com cuidado para a direita, tateando a parede.
Descobriu mais três ângulos antes de chegar de novo ao casaco, e determinou que estava num aposento de forma retangular. Não havia, pelo que pôde perceber apalpando a parede durante horas intermináveis, portas ou janelas.
Levantando a mão podia tocar o teto, também viscoso e frio.
A umidade entrava nos ossos.
Começou a sentir fome e sede. Tinha todas as necessidade humanas. Mas não havia o que fazer no momento, a não ser uma coisa: embrulhando-se no casaco meio molhado, acomodou-se num dos cantos e dormiu.
Acordou com uma sede torturante.
Resolveu então atravessar diagonalmente a cela.
Cautelosamente, colocando um pé na frente do outro, deu o primeiro passo... o segundo... o terceiro... no quarto passo seu pé encontrou o vazio.
Com os membros entorpecidos pelo frio, a umidade e a falta de alimento, não conseguiu se equilibrar.
Caiu pesadamente de encontro às águas geladas abaixo dele.
O choque fez com que perdesse a respiração, e ele afundou no líquido escuro, lutando para recuperar o fôlego. Quando conseguiu, nadou alguns metros, no limite de suas forças, sem direção, até que o braço esbarrou em algo sólido. Um parapeito escorregadio, que parecia coberto de limo, para onde subiu com dificuldade.
Ficou um minuto deitado, ofegante, o peito subindo e descendo, a garganta ardendo como fogo.

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O Especialista

Para Sempre Marte

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