R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Especialista

por Maria Helena Bandeira

conto publicado em 24.01.2002

republicado em 09.07.2003

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Sentiu alguma coisa rastejando sobre suas pernas. Um ser vivo, úmido, pesando sobre suas coxas, as patinhas arranhando a pele, subindo em direção ao peito.
Com um gesto rápido, agarrou a criatura e apalpou-a.
Tudo indicava que era uma ratazana, bastante grande e gorda.
Atirou-a para o lado. Ela guinchou e o ruído foi diminuindo até se perder nas profundezas.
Compreendeu, então, a razão da corrente de ar que vinha sentindo do lado direito.
Estava deitado num parapeito ao lado de um abismo.
Sentou-se com dificuldade e ficou contemplando o negrume ao seu redor, refletindo.
Bebeu um pouco da água malcheirosa e isso acalmou o ardor na garganta e a sede, embora a náusea que se seguiu o incomodasse um pouco. Quando ela passou, sentindo-se mais forte, começou a explorar, cuidadosamente, a nova prisão.
Ali estaria melhor. Havia até alimento com que saciar a fome: ratos, talvez cobras e outros animais pequenos. Descobriu também outra companhia inanimada. Uma dezena de ossadas, provavelmente de antecessores dele naquele lugar.
Sorriu, satisfeito.
Pelo menos teria armas com que se defender e capturar suas presas.
Nesse instante, uma claridade insuportável obrigou-o a fechar os olhos.
Quando pôde enxergar novamente, viu que estava no topo de um abismo que se abria vertiginosamente abaixo dele, amarrado a uma corda que balançava ao vento, presa a uma saliência do rochedo.
Logo em seguida, ouviu um rufar de asas e levantou com dificuldade a cabeça. Um pássaro enorme, semelhante a um abutre de grandes dimensões, tentava destruir a corda com seu bico.
Reunindo toda a energia que lhe restava, ele torceu o corpo e bateu os braços para afugentar a ave.
Sem resultado.
As asas flagelavam seu rosto e seus braços, e as garras finas machucavam seu peito e pescoço. A criatura procurava bicar seu estômago na altura do fígado, lacerando a carne e provocando dores lancinantes. Lutou desesperadamente para escapar, até que a corda se partiu e ele despencou interminavelmente, numa queda vertiginosa até afundar num mar de lama e sargaços.
As algas puxaram suas pernas para o fundo.
Enquanto tentava chegar à superfície e respirar, observava a beleza das plantas que se moviam sob o lodo com a atenção concentrada que dedicava a tudo ao seu redor.
Dentro da sua cabeça uma voz explodiu:
"Vamos testar a Reação Máxima Weiner"
Outra voz respondeu:
"Mas foi proibido pelo regulamento..."
As vozes se misturaram num nevoeiro denso, pontilhado de sussurros, e a escuridão novamente o envolveu.
Devagar, a claridade foi voltando.
Estava num corredor, aparentemente interminável, banhado por uma luz difusa. Era um corredor estreito e suas paredes muito altas perdiam-se na escuridão acima dele.
De alguma forma, tinha consciência de que, lá no fundo, algo inimaginável, apavorante, estava à sua espera.
Mesmo assim, caminhou com calma naquela direção.
À medida que se aproximava, a sensação ia ficando mais forte.
Escondido no negrume à sua frente, o Impronunciável esperava por ele. Sabia que apenas alguns passos o separavam do Absoluto Horror.
Havia uma música dentro da sua cabeça que se tornava cada vez mais alucinante e a mente se fragmentava em cores, acompanhando o ritmo. Pela primeira vez, tinha uma certa dificuldade de se concentrar. Mesmo assim, percebeu que tinham colocado uma pequena arma de bolso presa na sua cintura.
Então, o Especialista parou.
Os Cientistas se entreolharam. Ele já resistira mais do que era provável imaginar.
Ia desistir. Se usasse a arma contra si mesmo, o que era uma reação ainda dentro de uma certa normalidade, eles poderiam considerar a experiência satisfatória.
Mas ele apenas ajeitou a arma e continuou em passadas regulares em direção ao Inominável.
E atirou contra ele!...
Os Psiquiatras interromperam a experiência. O Especialista estava de volta à realidade.
Deitado na confortável espreguiçadeira da Terapia Comportamental.
Fechou os olhos porque a intensidade da luz, que imitava a solar, feria seus olhos acostumados à penumbra do corredor.
Ao seu redor, os jardins envidraçados e coloridos do Projeto Mente-Sonhos.
Os Cientistas tiraram o Capacete de Ondas de sua cabeça sem dizer uma palavra.
Através do intercomunicador chamaram o Chefe da Guarda.
"Ele é todo seu."
Definitivamente, o Especialista não reagia como um ser humano normal. Tinham experimentado com ele os pesadelos e medos mais frequentes e mais terríveis na extensa gama do terror humano. E ele resistira a toda e qualquer tortura mental. Caindo de precipícios assustadores, preso com cadáveres e ratos no escuro, enfrentando répteis e animais pré-históricos, mantivera sempre a mesma calma determinação, a mesma atenção concentrada.
Nada era capaz de abalá-lo.
Tinham acabado de colocar na sua mente, apesar da proibição expressa do Conselho de Ética Médica, o último recurso, o pesadelo inenarrável, o sonho maldito escondido no mais recôndito da alma de cada um.
E o Especialista atirara contra ele!...
Não tinha reações humanas. Essa foi a conclusão do seu relatório.
Agora era com os gorilas do Terceiro Subsolo.
-oOo-
O Chefe da Guarda estava satisfeito. Finalmente iam realizar um trabalho objetivo. Esse negócio de máquinas e mente não era com ele. Nada como uma boa sessão de dor física e ameaças de mutilação para despertar as lembranças mais bem guardadas. Queria ver a coragem desse sujeitinho diante do fogo, do cutelo, do pau-de-arara, do choque elétrico. Velhos métodos, sempre eficientes. Já vira homens mais fortes do que ele se desmancharem feito crianças.
Mas tinha que reconhecer que era valente.
Depois de tudo, caminhava ao seu lado em direção à tortura absolutamente indiferente.
Olhava as paredes ao seu redor como se nada mais importante lhe passasse pela cabeça.
A cela do Terceiro Subsolo era ampla e nua.
Nada de jardins ou cadeiras aconchegantes. Apenas um catre, uma cadeira simples e uma latrina tosca.
O Especialista entrou, atirou-se sobre a cama e dormiu instantaneamente.
Parado diante dele, o Chefe da Guarda observava a respiração regular e o rosto sereno.
O homem era frio. Isto ele tinha que admitir.
-oOo-
A sombra do Torturador, debruçado sobre ele, diminuiu um pouco a intensidade da luz que o cegava.
"Quem são eles?... Fala, desgraçado!..."
A voz doce do início desaparecera. Era uma de suas características: extrema dor física e uma gentileza oriental. Mas este cara o punha fora do sério.
O estilete arrancou a última unha com violência.
O Especialista soltou um urro e tombou para trás. De sua boca escorriam sangue e saliva, e o rosto intumescido estava coberto de suor. Os olhos eram uma pasta irreconhecível.
Mas, entre as pálpebras feridas, o olhar era frio.
Quando retornou à posição inicial, ele apenas sorriu com dificuldade e respondeu:
"Eles me chamam o Especialista."
Um pontapé no estômago o jogou fora da cadeira.
"Levem esse filho de uma cadela de novo pro pau-de-arara... Eu desisto!... DE-SIS-TO!... Ele não é normal!... É um pervertido... Parece que gosta de sofrer!..."
"Pois vamos satisfazer os desejos dele..."
O Chefe da Guarda arrastou o prisioneiro, que seguiu cambaleando pelo corredor.
 
O Torturador examinou o papel à sua frente.
"Agora é tarde demais. O pássaro se foi esta manhã..."
"Que história é essa?... Eu disse que preservasse a vida dele... As ordens foram bem claras!..."
"O homem resistiu a tudo... essas coisas acontecem... a gente não pode controlar... um coração mais fraco..."
"Coração fraco coisa nenhuma!... Você leu o relatório. As análises concluíram que não era humano. Um clone!... um exemplar raríssimo perdido por causa da incompetência de vocês!... Um indivíduo destes não pode ser destruído tão facilmente!..."
"Olha aqui, não enche meu saco!... Ninguém me avisa nada... entregam a mercadoria e querem que eu arranque a informação. Depois, se alguma coisa dá errado vem querer me culpar. Que se danem!... Eu estou me lixando pra esse seu precioso robô!..."
"Robô, não!... Clone, seu cretino!... Um exemplar em tudo semelhante ao homem... coisa raríssima!... E você destruiu com seu sadismo burro!.... Mas não vai ficar assim, não!... Pode esperar que vem chumbo grosso!..."
O Torturador sacudiu os ombros.
"Que se danem!..."

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O Especialista

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