R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Terror em Pedra Torta

por Gerson Lodi-Ribeiro e Miguel Carqueija

conto publicado em 24.10.2001

republicado em 05.03.2004

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Uma grande labareda azulada se espalhou num átimo de cima a baixo, lambendo o corpo da criatura com um chiado horrível. Em menos de um segundo, ela estava totalmente envolta numa mortalha ardente e flamejante.
O outro urrou em desespero. Notei que, apesar do seu tom pungente, a boca e os lábios dele não se mexiam:
"Não! Carmilla não!"
A mulher desarmou no assoalho como uma massa amorfa e flamejante. Lembrou um saco de batatas vazio dobrando-se sobre si mesmo. Mas o mais estranho de tudo é que mal tocou o pinho-de-riga das tábuas corridas e se desmanchou numa nuvem de poeira fina e brilhante.
"Carmilla não existe mais. Somos só eu e você..." — Os lábios de Álvaro também não se mexeram. Estavam cerrados com força, como se suportasse um martírio indizível. Observei que a chama descera por seu braço, consumindo-o até a altura do cotovelo. — "E agora, Imhotep, como vai ser?"
"Pelo amor dos Antigos, Álvaro, largue esse crucifixo e vamos conversar..."
"Sem conversa. Saia daqui e deixe o meu amigo em paz!"
"Não posso, irmão. Devo cumprir as ordens dos Arcanos. Você sabe, o último exemplar do Testamento do Mal... já permaneceu em mãos humanas tempo demais..."
"Eu mesmo destruirei o livro. Agora vá."
"Está bem. Mas se o seu amigo der com a língua nos dentes?"
"Ele não fará isto. Não é, Egon?"
— N...ãoooo! Não mesmo!
"Até porque, se o fizer, irá parar na ala dos incuráveis do Asilo de Pedra Torta. Confie em mim, mestre. Cuidarei pessoalmente para que assim seja."
"Muito bem então. Mais tarde será julgado pelas ações desta noite."
"Isto é problema meu." — Álvaro lançou o crucifixo no chão com um gesto cansado. Seu braço flamejante se apagou instantaneamente. O quarto voltou ao breu inicial, embora uma claridade muito tênue começasse a se filtrar entre as dobras da cortina. — "Puxa, você não imagina como isto dói!"
"Muito engraçado! Deixe estar, dentro de uns três ou quatro séculos doerá muito mais! Aí quero ver se terá coragem de cometer este sacrilégio outra vez."
''Neste ponto você tem razão. Ao contrário do que os humanos parecem pensar, os séculos não trazem apenas sabedoria. A propósito, está quase amanhecendo. Se eu fosse você voltaria para o seu esquife..."
"Também vai precisar de um em breve, caso consiga sobreviver à sentença."
"Quem sabe?"
Vinda não sei de onde, uma ventania súbita invadiu o quarto fechado. As cortinas balançaram, os caixilhos das janelas estremeceram e a porta bateu com um estrondo.
— O mestre se foi.
— Álvaro, pelo amor de Deus, o que foi isto tudo?
— Um sonho, meu amigo. Um pesadelo. Lembra que eu te pedi para tomar o sonífero para evitar os pesadelos?
Tive vontade de acreditar que tudo não passara realmente de um pesadelo. Mas a dor horrível no pulso me convenceu do contrário. Nunca ouvi falar de ninguém que desarticulasse o pulso dormindo...
— Mas o que tem os sonhos...
— ... a ver com isto? Tudo. Primeiro, eles penetraram em seus sonhos e então te induziram para que os convidasse a entrar em sua casa.
Meus olhos acostumaram-se à claridade fraca que atravessava as cortinas.
— E a cruz? Porque produziu um efeito muito mais devastador na mulher do que em você?
— Carmilla era vários séculos mais velha do que eu. Além disso, fui criado entre os humanos.
Lembrei-me de Álvaro como a criança frágil, de pele pálida, sensível, que mal suportava os raios cálidos do sol no inverno sem se encher de bolhas e erupções cutâneas...
Então era assim que os vampiros eram criados. Não pela ingestão de sangue de outro vampiro, como afirmavam as lendas e o folclore. Não se trata de infecção, mas antes mutação. Os seres humanos não se transformam em vampiros, mas podem dar à luz eventualmente a criaturas dessa estirpe.
O pulso partido latejava num martírio. Procurei me controlar. Suava frio, mas não podia me dar ao luxo de urrar de dor ou, pior ainda, desmaiar... Não quando havia tanto a perguntar.
— Álvaro, você... você é um vampiro?
— Sou, Egon. Sou um vampiro. Mas não sou mau. E sou seu amigo.
— Nisto eu acredito! Se não fosse você...
— Deixa isto para lá.
— E o seu braço, vai ficar bom?
— Vai, sim. Em uma ou duas noites estará novo em folha. Quanto ao seu pulso, acho melhor você visitar o ortopedista da clínica universitária.
— Você... bebe sangue?
— Isto mesmo. Mas não mato pessoas para bebê-lo. — Diante do meu ar de incompreensão ele se sentiu forçado a explicar. — Sou médico, esqueceu? E, diga o que quiser da Prefeitura, mas o Hospital Municipal de Pedra Torta possui um banco de sangue dos melhores que já vi. E olha que disso eu entendo bem...
— Puxa, Álvaro... Quem diria, hem?
— E aí? Posso confiar o meu segredo a você?
— É claro que pode! Você salvou a minha vida. E, além do mais, nós somos amigos, não somos?
— Somos sim. Ah, mais uma coisa, Egon. Vou ter que levar o livro.
— Tudo bem. Depois de tudo o que aconteceu esta noite, eu mesmo o destruiria... isto é... se eu pudesse...
— Pois é. O Testamento do Mal tem os seus próprios encantos protetores. Mas eu posso e vou destruí-lo.
— Faça isto.
— Vai perceber que sem a presença do livro será mais fácil conciliar o sono nas noites tempestuosas... Não que devam ocorrer muitas noites desse tipo em Pedra Torta, de agora em diante.
— Mais uma vez obrigado.
— Ah, o que é isto! O que não fazemos pelos amigos?
— Álvaro, e esse tal julgamento?
— Vamos ver. Devo partir agora. O dia não tarda. Para minha desdita pessoal e felicidade dos humanos, será um dia bonito e ensolarado.
— Tomara! Pedra Torta anda mesmo precisando disso.
— Adeus, meu amigo.
— Até breve.
Álvaro saiu de forma convencional pela porta da sala, bem diferente da partida daquele que chamara de mestre.
Só então reparei que os dois licantropos também se haviam transformado em pó.
Álvaro já me indicara a origem dos vampiros. Mas como será que os lobisomens surgiam? Não, deixa para lá. Acho que aprendi minha lição... É melhor não saber.
Gemendo de dor, apalpei o pulso inchado com cuidado. Álvaro tinha razão, eu precisava ver a lesão. Antes que piorasse.
Mas havia coisas mais urgentes a fazer.
Depois de engolir quatro Novalginas com meio copo d'água, fui até o armário da despensa, pegar o aspirador e uma pilha de sacos plásticos. Com somente um braço válido e com a dor, aquilo iria dar um trabalhão...
Passando pela sala de jantar, observei Laika em seu sono tranqüilo, estendida sobre o tapete felpudo.
— Menina, você não sabe o que perdeu...

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