R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Terror em Pedra Torta

por Gerson Lodi-Ribeiro e Miguel Carqueija

conto publicado em 24.10.2001

republicado em 05.03.2004

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Ao retornar à biblioteca, reparei que Álvaro notara o Testamento do Mal na escrivaninha e começara a folheá-lo com ar distraído. Fui direto até o bar, preparar-lhe o scotch prometido.
— Gelo?
— Pouco. — Levantou os olhos por um momento e tornou a baixá-los no livro. — Quer dizer que você gosta de ler essas obscuridades? Ah, estou vendo onde você parou. Pelo visto, não perdeu o velho hábito de marcar com cartões de visita.
— Fazer uma dobra na página é coisa de selvagens.
— "Existe um grande número de vampiros no mundo" — Leu em voz alta, sem dar maior atenção ao meu comentário. — "Constituem a Raça das Sombras, que sempre se ocultou em meio aos humanos verdadeiros. Afirmo que os vampiros formam uma sociedade secreta, cujos membros têm procurado, desde os primórdios da civilização, ocupar postos-chave na administração dos assuntos humanos e posições de destaque nos círculos mais elevados do poder temporal. O objetivo a longo prazo é assumir o controle da humanidade, estabelecendo uma cultura vampírica."
Ele se voltou para mim e me fitou com um olhar pensativo no momento em que pronunciava as últimas palavras do texto.
Permanecemos alguns instantes presos àquele silêncio embaraçoso. Mas Álvaro soube quebrar o encantamento.
— Prefiro Axiologia, Egon. Aliás, jamais desconfiei que se interessasse por esses esoterismos.
— Aqui está seu uísque. — Desconversei. — Só tenho para as visitas. Como sabe, meu pai abusou da bebida, bateu com o carro e morreu.
— Disseste-o bem: abusou. Mas diga uma coisa, você já reparou como tem chovido ultimamente em Pedra Torta? Já tinha visto uma tempestade assim?
— Nunca. — Senti espanto ante à questão levantada. — Mas, e daí? Há sempre uma primeira vez.
— Ah, você sabe, Pedra Torta não tem estrutura para uma chuva dessas. Já existem desabrigados.
— Bom, isso é problema do prefeito. Mas, com essa tradição brasileira de prefeitos idiotas, tenho a impressão de que as providências vão ser insatisfatórias.
Sentei-me numa poltrona e convidei-o a fazer o mesmo. Ele sentou-se em frente e encarou-me com um sorriso entre triste e ligeiramente sarcástico:
— Diga-me, Egon, você esteve na Universidade de Miskatonic?
— Aproveitando uma bolsa de estudos, sim... mas porque me pergunta isto?
— Queria saber se você leu por lá um livro chamado Necronomicon.
Começava a não gostar do rumo que a nossa conversa tomava. Nunca gostei de coincidências e, diante do meu tormento íntimo, só podia encarar aquela visita intempestiva e o assunto estapafúrdio como mais lenha na fogueira dos meus pesadelos.
— Cheguei a lê-lo, sim... é uma espécie de folclore daquela universidade. É um livro raríssimo.
— Mas como o pôde ler? Ao que me consta, trata-se de um livro árabe. Você lê em árabe?
— O exemplar de Miskatonic — pelo menos o que eu li — está em inglês.
— Em inglês? É impossível! Pois, segundo soube é uma edição antiqüíssima, talvez o original...
— Você está se esquecendo do progresso, Álvaro. Onde esteve nos últimos trinta anos? Lá pelos idos de 1990, o Departamento de Inglês da universidade obteve a tradução e mandou imprimir uma boneca do Necronomicon. E existe o disquete, evidentemente.
Sorriu amplamente, como um garoto que acabasse de sofrer uma surpresa agradável.
— Ah, meu amigo! Por vezes me pergunto se o progresso do qual você se vangloria é uma coisa boa ou má...
— Mas afinal, porque você se preocupa tanto com essa droga de livro?
Em vez de responder ao tom agressivo de minha pergunta, Álvaro levantou outra questão:
— Diga, você veio da América do Norte há uns cinco anos, não é?
— Sim, e daí?
— Já se preocupou com as estatísticas das chuvas e tempestades em Pedra Torta?
— Muito pouco.
— Bem, eu andei investigando a incidência das chuvas nos últimos cinqüenta anos e descobri que houve uma progressão evidente de uns cinco anos para cá. A precipitação pluviométrica anual é agora pelo menos 50% superior às marcas de duas décadas atrás.
Estaria louco? Onde queria chegar aquele sujeito que eu já considerara um amigo chegado, mas com o qual eu perdera quase todo o contato desde a adolescência?
— Não estou entendendo, Álvaro. O que você quer, afinal?
— Olha, eu vou lhe dizer claramente. Já estudei a fundo certos assuntos misteriosos. Tive muito tempo para isto. Existe uma espécie de maldição em torno do Necronomicon.
Senti um arrepio me subir coluna acima. Ultimamente eu vinha pensado muito naquela maldição. Lembrei-me deste rumor ouvido em Arkham assim que os pesadelos se tornaram piores e mais freqüentes.
— Ouvi falar disso, é claro. Mas, que diabo, Álvaro! Somos ou não somos homens de ciência? Como é que você queria que eu ligasse pra uma maldição?
— Ah, mas deveria ter ligado para esta!
Ele me fitou de um modo intenso, como se estivesse zangado comigo. Por um breve instante, julguei ter notado o vislumbre de um brilho avermelhado nas pupilas dele. Lembro que na hora pensei que era só impressão minha.
— E, como você não só esteve em contato com esse livro — que não deveria ter lido — mas ainda trouxe excertos dele consigo no Testamento do Mal, foi aparentemente acompanhado pela maldição.
Devia estar bêbado! Mas só tomara uma dose de uísque... Além disso, afora o papo esdrúxulo, não apresentava nenhum sintoma de embriaguez. Sendo por natureza conciliatório, engoli o riso garganta abaixo, indagando apenas:
— E se isso fosse verdade, o que eu poderia fazer?
— Não sei ao certo. Talvez você devesse destruir esse seu exemplar do Testamento do Mal. Acredito que isto diminuiria a carga negativa da sua casa.
— Ah, pela madrugada! Eu não sou supersticioso! E afinal de contas, você não é um intelectual?
— Está bem, não vamos discutir. Mas pense bem. No que é que a ciência moderna nos ensina a acreditar? Numa força chamada gravitação, que age à distância através de fluxos de partículas que não podemos detectar? Em matéria que ora se comporta como onda e ora como um conjunto de partículas? Caia em si, Egon. O que realmente conhecemos do universo?
Nesse instante um trovão fortíssimo explodiu muito perto mesmo, como que para dar ênfase às heresias pseudocientíficas daquele homem estranho que até então eu tomara por amigo.
Estremeci involuntariamente com o barulho do trovão.
Álvaro se levantou.
— Ainda pretende dormir essa noite?
— É claro! — Considerei a pergunta ridícula — Ou você acha que eu vou passar a noite em claro?
— Egon, eu também penso que você acabará por dormir. Mas antes de partir, devo relembrá-lo de uma coisa. Todas as criaturas racionais possuem livre arbítrio. Não existem, portanto, raças benévolas ou malignas, apenas seres bons ou maus. Sei que esteve lendo sobre vampiros. Eles existem, acredite. Mas nem todos são maus. Talvez alguns até sejam capazes de prevenir amigos que desejam saber demais e não avaliam o risco que correm.
— Álvaro, eu não sei o que...
— Escute, você quer um conselho? — Sem esperar pela minha negativa, ele disparou — Tome um sonífero qualquer. Assim, você desligará sua mente, impedindo o ingresso daqueles que são trazidos pelas tempestades. Em nome da nossa velha amizade, faça isso só esta noite. — Ou então, passe a noite em claro. E livre-se desse Testamento do Mal. Pois não terá paz enquanto esse livro permanecer em sua casa.
Ergueu-se da poltrona e se encaminhou para a porta. Como que desperta de um transe, Laika acordou, levantando-se do tapete e foi se despedir dele. Quanto mim, sentia-me inteiramente estupidificado e sem ânimo para lhe fazer a pergunta óbvia.

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