R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Terror em Pedra Torta

por Gerson Lodi-Ribeiro e Miguel Carqueija

conto publicado em 24.10.2001

republicado em 05.03.2004

Página: 1 | 2 | 3 | 4

O mundo parecia prestes a acabar naquela noite tenebrosa.
Depois de uma tarde cinza chumbo, nuvens negras e ameaçadoras desabaram num aguaceiro sem precedentes. O temporal envolveu a cidadezinha de Pedra Torta com seu coro de trovões pavorosos e sua teia de relâmpagos, emaranhados uns nos outros, riscando os céus escuros da região.
Caminhava de um lado para outro, presa de uma inquietação crescente, segurando na mão direita um cálice de licor de chocolate, sem decidir se sorvia ou não o primeiro gole.
Sentia-me encurralado em casa, embora protegido por uma laje sólida centenária e pelo pára-raios instalado meses atrás, e gozando da companhia dúbia da idosa cadela huskie siberiana, herança do meu avô, que dormitava no tapete apesar do bramido das trovoadas.
Fitei Laika com uma ponta de inveja. Muito velha e virtualmente surda, para ela era fácil dormitar em meio àquele festival de trovoadas capaz de fazer um cadáver se erguer da sua tumba.
Observava as velhas estantes e os livros que acumulara durante muitos anos. Alguns eram velhíssimos, adquiridos em sebos, ainda que geralmente bem conservados. As encadernações ostentavam aquele aspecto acolhedor, tão comum em edições mais antigas, ao contrário das atuais, chamativas pela falta de estética patente em suas cores berrantes. Inquieto, volta e meia eu retornava para a frente das estantes e fixava obsessivamente algumas lombadas gastas e apagadas. Dentre os milhares de livros, o que mais atraía a minha atenção naquela noite fatídica era um volume grosso intitulado simplesmente: O Testamento do Mal. Um livro estranhíssimo, uma espécie de antologia com trechos significativos de diversas obras sinistras recolhidas ao longo dos séculos, dentre elas o célebre e medonho Necronomicon. Li este último em Arkham, nos E.U.A., quando lá estive de passagem pela Universidade de Miskatonic.
Desde aquela época sonhos horríveis me perseguiam. Ocorriam sempre nas noites de tempestade. Sempre tive a impressão de um elemento sobrenatural nesses temporais. Embora confusos como costumam ser os sonhos, esses pesadelos eram a seu modo instigantes, afigurando-se como revelações de universos estranhos e mundos assustadores.
Havia sempre uma grande variedade de monstros inteligentes presente nesses sonhos. Criaturas malignas e hediondas, mas dotadas de grande intelecto, cujo objetivo fundamental e imutável ao longo dos séculos, milênios e aeons era o domínio absoluto do universo — ou dos universos.
Era por isso que as noites de tempestade me assustavam tanto.
Não espantava, portanto, que eu estivesse inquieto e insone naquela noite horrorosa. Não me atrevia a dormir por temor aos horrores noturnos que me aguardavam. Sentia-me nervoso demais para assistir um vídeo ou folhear um livro de Astronomia. Preso àquele estado de espírito, só me restava deambular pela casa, como um Mr. Hyde acuado, sentindo os pelos se eriçarem a cada ribombar de trovão.
No fundo eu sabia que, naquilo tudo, alguma coisa estava de fato muito errada. Aqueles pesadelos seguiam uma lógica, uma coerência aterradora. Ao longo dos anos eu fizera anotações sobre eles e agora dispunha de vários cadernos de apontamentos que jamais ousei mostrar mesmo aos amigos mais íntimos. Lembravam até certo ponto os sonhos atribuídos a H.P. Lovecraft. Nos últimos pesadelos a revelação final parecia iminente. E era isso que eu temia: pois aquela era a maior tempestade que eu já vira.
Finalmente, num ímpeto, decidido a enfrentar de frente o meu pavor, retirei o Testamento do Mal da estante, ainda que uma voz interior me sussurrasse que eu não devia ficar remoendo aqueles textos obscuros e hediondos.
Possuía todo tipo de livro em minha biblioteca, desde a Bíblia até Agatha Christie. Então, por que aquele interesse por coisas estranhas? Na verdade, não gostava daquele livro, mas queria extrair dele alguma experiência, algum conhecimento.
Sentei-me à escrivaninha e comecei a folheá-lo — passando, por exemplo, por trechos do Dei vermii misterys — até chegar aos excertos do Necronomicon.
Esse relato falava nas cidades imensas que raças cósmicas haviam construído. Na imensidão da Terra e com o passar das eras — bilhões de anos — tudo praticamente desaparecera ou jazia soterrado por camadas geológicas ou esmagado sob as geleiras.
Nos meus sonhos apareciam as tais cidades, com suas arquiteturas de geometria estranha e proporções espetaculares. Uma delas, R'lyeh, talvez seja um dia encontrada no fundo do Oceano Pacífico, pelos exploradores da estirpe de um Piccard ou de um Cousteau.
O Necronomicon completo era um compêndio e tanto; uma obra cuja autoria costumava ser atribuída a um certo árabe conhecido com Abdul Al-Azred. Pouco se conhece desse pretenso autor. Por outro lado, seus textos revelam um conhecimento insólito — ou talvez fictício — de um passado muitíssimo remoto. O Testamento do Mal reproduzia apenas dois capítulos do Necronomicon mas, um deles era justamente o mais inquietante de toda a obra (o outro trecho falava das cidades ancestrais). Segundo o capítulo sinistro, pelo menos uma das raças antigas ainda subsistia no mundo atual, embora parecesse reduzida à impotência, como uma raça das sombras, caminhando lado a lado com os seres humanos.
O elemento perturbador é que, diferentemente das outras criaturas pavorosas citadas no Necronomicon, essa última raça arcana era, por assim dizer, uma velha conhecida da humanidade, presente nas nossas lendas e folclore. Ao contrário de todas as outras, não haviam desaparecido sob o véu espesso do esquecimento.
A campainha tocou.
Não contava receber visitas àquela hora. Sobretudo não com aquele tempo.
Deixei o livro e o cálice de licor intato de lado. Caminhei até a porta da sala.
Reconheci pelo olho mágico o Álvaro Magalhães, meu amigo de infância que se tornara professor de Medicina e meu colega na universidade local.
Abri a porta e Laika, por milagre desperta, abanou a cauda para o recém-chegado que gotejava na soleira da porta.
— Salve, Álvaro. O que te traz aqui com um tempo desses?
Nervoso, ele fechou o guarda-chuva negro, mas quase do tamanho de uma barraca de praia.
— Tenho uma coisa importante a lhe falar. Pode parecer estranho, com este tempo horrível... mas...
Parou de falar e nós permanecemos olhando um para a cara do outro, embaraçados.
Álvaro... Quando garotos havíamos sido unha e carne. Fora praticamente o único amigo dele, pois Álvaro havia sido uma criança doentia, sempre fraca, que não podia tomar sol, e que só ia da casa para a escola e da escola para casa.
E era para aquela casa sombria, onde o pequeno Álvaro vivia com um casal de tios estrangeiros e caladões, que eu ia todas as tardes,depois dos deveres escolares.
Embora fraco, desde pequeno Álvaro possuía um intelecto e tanto. Conversávamos muito, víamos televisão, jogávamos xadrez (ele vencia sempre, a não ser quando sentia pena e me deixava ganhar) e batíamos figurinhas. Na véspera das provas, sempre pude contar com o Álvaro para esclarecer os tópicos mais difíceis.
Bons tempos aqueles...
Lá pelo meio da nossa adolescência, Álvaro se mudou. Ao que parece, foi morar com uns parentes distantes. Só tornei a vê-lo já adulto, como colega na Universidade Federal de Pedra Torta. Desde então, havíamos trocado meia dúzia de cumprimentos secos, algumas banalidades e uns poucos lugares-comuns, e foi só. Como era de se esperar, a velha chama da amizade se extingüira.
— Entre. — Cortei, tentando ocultar o embaraço do amigo dos tempos de moleque que, com o passar dos anos e o afastamento, tornara-se quase que um estranho. — Dê aqui o seu casaco e o guarda-chuva.
Ele limpou os sapatos tipo Vulcabrás no capacho de nylon, tirou o casacão comprido e o passou às minhas mãos junto com o guarda-chuva.
Depois de cruzar o átrio, Álvaro parou no meio da sala de jantar, olhando com ar apreciativo os diversos quadros nas paredes. Santa Ceia. Paisagem japonesa. Pintassilgo na amendoeira. Nave em órbita lunar.
— Você está bem instalado aqui. Era a casa do seu avô, não era?
— Isto mesmo. Mas, e aí? Aceita um drink, um conhaque talvez?
— Ah, sim. Vou aceitar um scotch, se você tiver. Ou um bom copo de bourbon.
— Está bem. Espere-me na biblioteca. — Apontei-lhe o caminho. — Tenho um pequeno bar por lá. Para os amigos.
— Entendo.
Fui ao lavabo do primeiro andar, pendurar o casaco. Estava inteiramente seco. Também, com um guarda-chuva daqueles... Abri o bicho com dificuldade e o deixei escorrendo sobre o piso ladrilhado.

Página: 1 | 2 | 3 | 4

Gostou deste texto? Ajude-nos a oferecer-lhe mais!

 

Terror em Pedra Torta

Gerson Lodi-Ribeiro escreveu:

 

Outras Histórias...

Editorial Caminho

Colecção Caminho Ficção Científica, nº 179

1997

 

O Vampiro da Nova Holanda

Editorial Caminho

Colecção Caminho Ficção Científica, nº 187

1998

 

Pátrias de Chuteiras

Gerson Lodi-Ribeiro organizou:

 

Como Era Gostosa, a Minha Alienígena!

Editoria Ano-Luz (Brasil)

2002

(leia a crítica de Eduardo Torres)