R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Homem Adrenotrópico

por Keith Brooke

tradução de João Barreiros

conto publicado em 23.11.2001

republicado em 07.12.2003

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Leio muito. Chamo os livros na consola, mando imprimir tudo e que se fodam as despesas. Pushkin, Dostoievsky, Tolstoi, gosto dos velhos russos, são tão densos, tão distantes do meu modo de vida. Também oiço música, igualmente a partir da consola, já percorri todos os clássicos, coisa que nunca tinha feito antes. Até agora o Mozart foi o melhor de todos, as melodias dele assombram-me sem que eu consiga explicar porquê. Sinto que chamam por mim. Baixinho.
Às vezes sou assolado por crises de escuridão. Certo dia invoquei uma Enciclopédia Médica. Adrenalina. Hormona estimulante segregada pelas glândulas supra-renais, de acção simpaticomimética. Também chamada de epinefrina. Acelera o coração, dilata os vasos sanguíneos do coração e dos músculos, contraindo todos os outros; daí o aumento da pressão sanguínea. Eleva o teor de açúcar no sangue, produz calor (calorigénica, é o termo), dilata as pupilas. Aumenta a produção de suor e saliva enquanto contrai os músculos lisos da pele. Já chega, tenho de permanecer calmo.
Quais seriam os resultados de uma overdose? Demasiado calor, excesso de suor... Será possível morrermos afogados na nossa própria saliva? Será que a pele era capaz de contrair-se tanto ao ponto de me estrangular? Tensão arterial já de si elevada, a crescer exponencialmente. Visões de veias estoiradas e capilares rasgados. Ou limitar-me-ia apenas a morrer de um simples enfarte? Calma. O pulso a acelerar, a pele tensa, pensar nestas coisas pode ser o fim. Preocupo-me demasiado.
—oOo—
"Om mane padme hum". Aqui está uma frase que apanhei nas minhas leituras. Servem-se dela para meditar, para focar o espírito no nada. É boa. Ajuda a descontrair-me.
Om mane padme hum.
Vejo pássaros através do vidro à prova de bala. Existe um, especialmente, num ninho feito de lama, junto à minha janela, por baixo do telheiro. De um azul escuro, com a barriguinha branca, a esvoaçar nos céus deste fim de Junho. A consola diz-me que é uma andorinha. Que nome tão estúpido para uma criatura tão bonita.1 Fico sentado a observá-la.
Batem à porta e um dos seguranças entra com um pedacinho de papel na mão. Sem grandes dificuldades reprimo um acesso de raiva por esta falta de civismo. Não posso deixar que ele abuse da minha condição para ganhar um ascendente sobre mim. Nenhum deles sabe o que realmente se passa. Trata-se de um segredo bem mantido. Entrega-me o papel - percebo agora que se trata de um envelope - e diz-me: "O Correio Pronto trouxe isto". Depois vira-me as costas e vai-se embora. A carta seguiu em correio normal.
Om mane padme hum. O controlo do corpo é o controlo da mente. Todas as mantras às minhas ordens. Tem calma.
E fazendo os possíveis para me acalmar, abro o envelope e desdobro a única folha de papel que se encontra no interior.
 
Mr. Riesling,
Parabéns. Ainda está vivo. Deve ter uma personalidade forte. Mas a excitação do Inquérito vai dar cabo de si. Se nós não dermos antes.
Com os nossos melhores cumprimentos.
O Grupo de Acção Verde
 
Desta vez não vem nada em anexo. Assustei-os. Estou a ganhar.
O Inquérito começa amanhã, mas são apenas os preliminares. O meu discurso só será no dia seguinte. Estou morto por isso. Entretanto, fico à espera.
Om mane padme hum.
—oOo—
Amanhã vou discursar. Estou mais que treinado. O fluxo de adrenalina continua a crescer, tal como eu já esperava. Mas já sei controlá-lo. Medito, deixo o mundo andar às voltas, enquanto me concentro em coisa nenhuma. Om mane padme hum. O essencial da meditação é sermos um com o mundo. Com o Cosmos. Deixar as coisas correr. Desliga o espírito, descontrai-te, deixa-te ir na corrente. Isto não é morrer. Não é, garanto. O âmbito da minha música expandiu-se. O Lennon sabia o que estava a dizer. Abandona os pensamentos, rende-te ao vazio. Um vazio que brilha. Podem crer que é verdade. Eu vi tudo isso.
Nada parece ter sentido. Toda essa gente sempre a correr de um lado para o outro. Sempre julguei que tinha tudo o que queria ter. Mas a verdade é que não tinha nada. Só podemos ir na corrente, acompanhar o ritmo das coisas. As meditações mostraram-me o vazio que era a minha vida. Tratou-se de uma experiência transcendental. Om mane padme hum.
—oOo—
Neste estado de meditação o tempo nada significa. Levanto os olhos e lá fora faz escuro. Amanhã. Amanhã tenho de... fazer o quê?
A escuridão forma um padrão curioso de sombras sobre sombras. Ainda há um minuto não fazia escuro.
Deve ter sido um minuto muito grande.
Sinto-me incomodado por ruídos que vêm do exterior. O céu está a tingir-se de um azul delicado que pressagia a manhã. Entra um segurança logo seguido de um tipo mais pequeno. O fuinha. Ainda vestido com o fato às riscas e transportando - vejam lá - um saco de plástico dos Harrods. Sorrio.
"Este cavalheiro diz que tem uns assuntos para tratar consigo, Mr. Riesling". O segurança mal pode conter um esgar de satisfação, de poder. Depois vai-se embora. Tenho pena dele.
E o mundo continua a girar.
"Recebeu a nossa carta?"
Sorrio, e o fuinha parece incomodado. Pela minha parte sinto-me feliz, contente. Pela primeira vez estou em paz com o mundo. Preparado para receber o brilho desse vazio. Om mane padme hum.
O fuinha ajoelha-se e começa a mexer no saco de plástico verde. Pergunto a mim mesmo como é que me vão matar desta vez.

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O Homem Adrenotrópico

Bem-Vindos ao Planeta Verde

in O Planeta das Traseiras

Keith Brooke escreveu:

 

Lord of Stone

Cosmos (EUA)

2001

 

Head Shots

Cosmos (EUA)

2001

 

Parallax View

com Eric Brown

Sarob Press (Reino Unido)

2000

 

Expatria Incorporated

Victor Gollancz (Reino Unido)

1992

 

Expatria

Victor Gollancz (Reino Unido)

1991

 

Keepers of the Peace

Victor Gollancz (Reino Unido)

1990

 

Keith Brooke editou:

 

Infinity Plus One

com Nick Gevers

PS Publishing (Reino Unido)

2001

Keith Brooke é o principal responsável pelo site

Infinity Plus