R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Homem Adrenotrópico

por Keith Brooke

tradução de João Barreiros

conto publicado em 23.11.2001

republicado em 07.12.2003

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Assassinaram-me a 22 de Junho de 1997, por volta do meio dia. Encontrava-me a caminho de um almoço de trabalho na baixa, com o director regional, destacado durante alguns dias para se submeter àquilo a que chamamos de "consultas", ou seja, a minha missão era verificar-lhe todas as contas bancárias cujo saldo demasiado elevado não correspondia ao respectivo salário. Detive-me durante alguns instantes na New Carnaby Street, para espreitar por uma montra o fim dos saldos da Boutique Macco Man's. Esbocei um sorriso. Tinha acabado de vender por bom preço, ainda há poucas semanas, todas as acções da Macco; pelos vistos o meu empurrãozinho foi o suficiente para lhes deitar abaixo todo o castelo de cartas. Dentro de mais um ou dois meses, contava apanhar do chão todos os pedacinhos ao preço da chuva. Mas isto foi antes de ser assassinado.
O reflexo sorriu-me do outro lado do vidro. Um reflexo com trinta e seis anos, mas que ainda parecia estar na casa dos vinte; nem sinais da barriga dos executivos. Sempre gostei de me manter em boa forma. Se controlarmos o corpo, também podemos controlar a mente. Desde a adolescência que me tenho vindo a sujeitar a um rigoroso regime de exercício físico, acompanhado de comida saudável. De facto, atribuo mesmo o meu recente sucesso nos negócios a esta força interior de corpo e alma. Virei as costas à loja e prossegui passeio abaixo. O reflexo acompanhou-me, saltando de montra em montra.
Estremeci quando alguém esbarrou comigo. Era um indivíduo pequenote, com um fato às riscas, cara de fuinha, cabelos brancos colados à cabeça por uma mistura de Brylcream e óleos naturais. "Mas que merda vem a ser esta?", berrei, recuando aos tropeções, sob a força inesperada do impacto. "Mil desculpas, chefe", murmurou o tipo, para logo de seguida se perder no meio da multidão que andava às compras na hora de almoço. Durante alguns instantes, no momento em que ele se desculpava, os nossos olhares cruzaram-se e eu percebi tudo. Percebi mesmo. Este tipo era suposto assassinar-me. Limpar-me o sarampo com uma pistola automática da janela de um Cadillac negro, ou estoirar com o meu apartamento. Enfim, coisas que deviam ser feitas com um certo estilo. Mas comigo não aconteceu assim. Afinal enviaram-me um meia leca de um Cockney jarreta, que estaria mais à vontade na bancada de um mercado, do que a fazer as vezes de assassino. O meu antebraço exposto doía-me e eu comecei a esfregá-lo, preocupado.
Max Riesling, jovem empresário americano, fundador e director administrativo da GenGen. Sabia perfeitamente que andavam atrás de mim, sabia que tinham posto a correr o anúncio da minha execução desde os finais de Maio, e mesmo assim continuei a expor-me à vista de todos. Nem sequer contratei seguranças para tomar conta dos meus interesses. Não fiz coisa nenhuma, abri-lhes todas as portas.
Vamos lá manter a calma, toda esta excitação não serve para nada. Excitação sim, é esse o termo correcto. Acalma-te. Vai mais devagar.
Mandaram-me a notícia pelo correio. Nada de vidfonemas, nem 'lecmails, limitaram-se a enviar-me um papel no interior de um envelope, entregue pelos serviços do Pronto Postal Co., correio normal.
 
Mr. Riesling:
As suas acções não nos deixaram outra alternativa. Discutir pessoalmente estes assuntos não serve de nada com gente da sua índole. Pode ter a certeza que já não vai estar vivo para falar no Inquérito. Seguem-se os devidos pormenores.
Com os melhores cumprimentos,
Grupo da Acção Verde.
 
Mas não havia pormenores nenhuns incluídos na carta, à excepção de um clipe de papel. Espreitei no interior do envelope e descobri lá dentro o documento solto, um folheto promocional sobre investimentos lucrativos. O panfleto tinha sido modificado para se ajustar à presente situação.
—oOo—
Passei a maior parte da minha infância nos States, principalmente nas cidades de Washington e New York. Foi então que Rick, o meu pai, conseguiu um bom trabalho na indústria e mudámo-nos para Chicago. Esta cidade ventosa é um lugar duro para se crescer. O nosso apartamento estava situado num condomínio um tanto ou quanto chungoso lá para o Southside, um bairro agressivo, mas cujas ruas são uma boa escola da vida. Tive uns quantos empregos nos States, fui subindo a pulso as escadas das corporações, mas, quando a oportunidade surgiu, mudei-me logo para Londres. Já aqui tinha passado dois anos, quando era puto, e o Rick trabalhava no corpo diplomático da Embaixada. Gostei tanto da cidade, que procurei sempre continuar a par das novidades sobre o que acontecia na Inglaterra. No início do ano de 89, o Evening Post que costumava receber pelo correio, publicou um artigo sobre os Bioconstrutores, uma pequena firma de biotecnologia que tinha fechado por motivos de falência.
Contactei o meu banco mas eles nem queriam saber. Então dirigi-me pessoalmente ao Banco do Rick. "Maxwell Riesling. Filho de Mister Riesling? Ora essa, claro que lhe prestamos toda a assistência, meu caro senhor." Logo que consegui comprar os Bioconstrutores, arrendei um apartamento no bairro de Chelsea. Depois transferi a firma de Ealing para a zona rural do Dorset, apanhando pelo caminho vários subsídios do Estado. Novos trabalhadores, um local diferente, nova administração. Afinal tudo o que eu realmente tinha comprado não passava de umas quantas peças de equipamento, já de si obsoletas, e o nome da companhia. Nome que mudei logo de seguida.
A General Genetics Research teve um começo humilde. Depois tudo mudou. Os Bioconstrutores tinham-se especializado na produção em massa de produtos medicinais. Os microorganismos biotransformados produziam plasma sanguíneo, insulina, e esse tipo de derivados. Tudo isto com um esforço mínimo, especialização nula e inovação zero. Era uma empresa de segunda categoria. De início, quando a GenGen me passou para as mãos, continuou a agarrar-se aos contratos de natureza médica. Depois, logo que pudemos, deixámo-nos disso e fomos procurar aventuras mais alargadas. Em vez de nos limitarmos a produzir, agarrámo-nos à investigação médica. Estudámos novos meios de desenvolvimento agrícola e toda uma nova gama de produtos cosméticos biodegradáveis capazes de se dissolverem no espaço de uma noite.
Porém, aquilo que nos transformou numa das melhores empresas do mercado foi um produto característico dos nossos tempos. Como a SIDA ainda continuava activa no final da década, nós não fizemos mais do que receber os dividendos desta explosão comercial. Com a ajuda da tecnologia disponível, foi muito fácil separar uns quantos microorganismos - com o respectivo complexo genético - e contactar os melhores fabricantes de látex. As manipulações seguintes produziram um neolatex merecedor de toda a confiança. Umas alteraçõezinhas na habitual lata de aerossol, mais uns quantos testes rigorosos e a GenGen acabou por ser dona do primeiro preservativo do mundo em spray, por nós chamado Vemdaí. De natureza orgânica, geralmente não alérgico, bastava aspergir e descascá-lo logo que o entusiasmo faltasse. Selámos o nosso sucesso ao contratar a Anita Alveaux para fazer os anúncios. Uma Anita que espreitava pelo ecrã do televisor a sussurrar: "Diz-lhe Vem daí e espera pela resposta". Uma resposta que garantiu o futuro das vendas da GenGen por muitos anos. A partir dessa altura, quem quer que dissesse vem daí, com todas as sílabas bem articuladas, estava a proferir a maior das piadas dos anos 90.
O único fracasso comercial da GenGen encontrou-se no produto seguinte. As massas acéfalas simplesmente não gostaram da ideia de se construírem microorganismos dedicados à higiene pessoal. Garantimo-lhes que não seria mais preciso lavar o cabelo ou escovar os dentes. Os microorgs dariam conta do recado. Mas não vendeu.
O Alimentos Não-Cê, o nosso novo produto, tornou-se num tremendo sucesso. Uma vez mais, não foi necessária nenhuma grande revolução tecnológica - bastou-nos ter uma boa ideia com um desenvolvimento e produção relativamente simples. Todas as moléculas orgânicas têm certas características comuns. Os açúcares, por exemplo, tendem a ser D ou dexorrotatórios; por outro lado, a maior parte dos aminoácidos são L ou levorrotatórios; tudo isto se relaciona com a estrutura tridimensional das moléculas. Como os enzimas digestivos operam numa base estrutural, não conseguem agarrar-se às moléculas L: açúcares L, proteínas D, tudo o que não se adeque ao sistema, passa por ele sem ser digerido. Resultado: alimentos com zero calorias.

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Sarob Press (Reino Unido)

2000

 

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1992

 

Expatria

Victor Gollancz (Reino Unido)

1991

 

Keepers of the Peace

Victor Gollancz (Reino Unido)

1990

 

Keith Brooke editou:

 

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PS Publishing (Reino Unido)

2001

Keith Brooke é o principal responsável pelo site

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