R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

O Homem Adrenotrópico

por Keith Brooke

tradução de João Barreiros

conto publicado em 23.11.2001

republicado em 07.12.2003

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Em 96, Mel Slaney, um dos nossos geniozinhos de serviço, então a trabalhar no novo laboratório de Buxton, iniciou uma outra linha de desenvolvimento. Os infusores já existiam há muito tempo, mas nunca se tinha conseguido arranjar uma aplicação prática para eles, num esquema à larga escala. A Mel mudou tudo isto. A versão dela parecia-se com uma esferográfica com almofadinha, com cerca de um centímetro quadrado numa das pontas. O cartucho com a droga era inserido na outra extremidade enquanto que a almofada era comprimida contra a superfície apropriada do corpo: depois, bastava uma pequenina descarga eléctrica para transferir a droga através da pele até ao interior do corpo. Depois disto, à excepção do terceiro Mundo, as injecções passaram à história.
Após este sucesso, Mel e o seu grupo recém transferido, criaram logo um outro, com uma variedade de drogas infusíveis. Como seria de esperar, depois dos sucessos do Vemdaí, a GenGen colocou no mercado um contraceptivo infusível para as mulheres, Ovoidance. Este era um mercado em vias de crescimento depois da morte da SIDA.
Outra das nossas drogas infusíveis, produzida sob contrato com o governo, também se vendeu muito bem no estrangeiro. O Disciplinafusor é uma obra-prima da biotecnologia. Infunde adrobato, uma droga adrenotrópica desenvolvida pelo grupo da Mel. O adrobato permanece adormecido no sangue até que a produção de adrenalina atinja um certo nível. Nesse momento a droga entra em acção, anulando os efeitos da adrenalina e voltando a pôr o corpo num estado normal e relaxado. A Corporativa das Prisões Nacionais viu logo o potencial do Disciplinafusor. Os seus clientes deixaram de ter acessos de violência. O Disciplinafusor tornou-se também parte integrante das alas psiquiátricas dos hospitais. Alguns grupos de pressão ideológica causaram problemas quando os usos do Disciplinafusor foram publicitados. Insistiam eles que os acessos de adrenalina não eram só resultantes dos estados de raiva, uma posição válida, mas que nada tinha a ver com o caso. Estes grupos tinham pouca influência; bastou prender alguns dos contestatários mais barulhentos e dar-lhes pessoalmente um ante-gosto do Disciplinafusor. E os protestos desapareceram como por encanto.
A circular que o Grupo de Acção Verde me mandou referia-se ao Disciplinafusor. As alterações que eles tinham feito no panfleto indicavam que seria eu o próximo a ser infundido. Só que tinham cortado todas as referências ao adrobato. Não citavam a substância que era suposto infundir-me. Limitavam-se a descrevê-la nuns rabiscos à margem do papel:
 
A nossa droga vai matar-te. A adrenalina, acima de uma concentração Fulviana de 0.36, despoleta uma reacção em cadeia. A tua produção de adrenalina vai crescer a um ritmo exponencial, até atingir a overdose. Por isso tem muita calminha, meu...
 
E tudo isto por causa das chatices da burocracia relacionadas com o Inquérito Público. Aqui para nós, considero que a sentença não é verdadeira. A minha situação é o resultado inevitável de anos de batalhas entre a Indústria e os ecomarados. Ou melhor, eco-fascistas, como costumavam chamar-lhes. Comportavam-se como se tivessem todas as respostas e as pessoas devessem obedecer-lhes em tudo. Que se fodam! O que eles não gostam é das mudanças, do progresso.
Calminha. Vê lá se te acalmas, sim?
Isto não está a servir de nada. Não posso excitar-me. O controlo do corpo é o controlo da mente. Isto tem sido o meu mantra desde o dia 22. O controlo do corpo é o controlo da mente.
Melhor assim. Não vou deixar que eles ganhem. Já passaram 27 horas desde o meu assassinato e ainda continuo aqui. O meu espírito está relaxado. A adrenalina não atingiu aquele nível fatal. Sou eu quem continua a mandar.
A minha primeira reacção foi pensar na vingança, mas logo percebi que ela me seria fatal. Demasiada excitação. O primeiro antegosto bastou para me avisar contra os malefícios deste tipo de atitudes. Falhei o encontro com o director regional, mas mais tarde informaram-me que a conta bancária dele tinha sido engordada por um certo indivíduo abastado que era suposto ter ligações próximas com grupos ambientalistas. O meu ex-empregado foi disciplinado. Ou melhor, disciplifusado. Mas só o estímulo de instigar tal acção foi quase demasiado para a minha saúde. As pulsações aceleraram, a testa enrugou-se, a adrenalina correu-me nas veias. Demorei vários minutos a recuperar o controlo, com o problema a ser exacerbado pelo medo de que tivesse ido demasiado longe. Mas permaneci dentro dos limites. Continuei vivo.
Esta experiência ensinou-me que o nível 0.36 é um nível elevado. Eles não queriam que eu batesse a bota só por chocar contra o assassino. Deram-me um certo espaço de manobra.
Planeio agora uma vingança bem mais doce: vou vencê-los. Vou conseguir sobreviver até à data do Inquérito. Felizmente a minha presença só vai ser necessária durante uma curta sessão. Não vai haver problemas.
O Inquérito não passa de um teste. Há muito que eles andavam a pedir um confronto directo. Tudo o que o Inquérito visa é examinar um caso de libertação-de-organismos-geneticamente-transformados-no-meio-ambiente. E até é irónico pensar que as nossas algas modificadas foram feitas apenas com a intenção de processar dejectos e, terminado este serviço, até podiam ser recolhidas e transformadas em papel. Tudo para proteger o meio ambiente. Mas não era essa a opinião dos verdes. Eles insistiam que as algas podiam começar a gostar de comer outras coisas, despoletando assim uma nova ameaça imprevisível sobre o nosso frágil mundo. O fim está próximo! (Tem calma, meu! Tem calma...)
Mas a questão é de facto um bocadinho mais complicada do que as algas da GenGen. Se eles conseguirem parar este projecto, conseguem parar com todos os outros. Já há muito tempo que nos andam a fazer a cama. Vamos ter de os calar de uma vez por todas. Mas eu posso resolver o assunto. O juiz disse-me que era fácil.
Pode ser que todos os grupos de pressão andem a juntar-se contra mim, mas a verdade é que também tenho gente poderosa do meu lado. Gente com ligações. Somos demasiado grandes para os verdes. O que o juiz mais quer é que haja boas razões para votar em nosso favor. O que é compreensível. Tudo o que ele pede é um discurso firme da parte da GenGen. Um discurso capaz de por o povo - ou pelo menos parte dele - do nosso lado. Esse dever coube-me a mim. Uma escolha mais que óbvia. Além de eu ser o director administrativo desta empresa, sou bom naquilo que faço. Aconselharam-me a meter-me na política, disseram-me que eu tinha aquele tipo de carisma que funciona muito bem na TV. Com toda a honestidade sou forçado a concordar. Desde a adolescência que consigo dar a volta a toda a gente. O discurso que vou proferir no Inquérito vai ser gravado e transmitido para milhares de lares, vai aparecer em todos os noticiários. Não vai haver problemas. Os verdes vão ficar encostados.
Só me resta sobreviver até lá. Entretanto permaneço fechado em casa, no meu apartamento. Ninguém me pode deitar a mão. A segurança aqui sempre foi boa, mas agora tenho o conforto acrescentado de haver guarda-costas aqui mesmo junto à porta e junto à entrada do prédio. Mandei a Mel e o grupo dela investigar uma cura e multipliquei amostras do meu sangue de modo a poderem testar as respectivas poções. A Mel disse-me que eu devia infundir algum adrobato de modo a manter em baixa os níveis de adrenalina, mas eu respondi-lhe que não. Não me costumo apoiar em meros palpites, verifico sempre tudo antes de agir. E desta vez estava certo. O adrobato produz bolhas de nitrogénio no meu sangue contaminado. Examinei a amostra: toda ela borbulhava. As perspectivas para uma cura não são boas. Tenho a certeza que nada será descoberto antes do Inquérito.
Continuo aqui. Estou a aprender a meditar. É fácil, quando se tem tanto controlo do corpo como eu tenho do meu. O controlo do corpo é o controlo da mente.
—oOo—
Há já cinco dias que permaneço aqui. As meditações estão cada vez melhores. O controlo do corpo é o controlo da mente.
A minha vida mudou radicalmente desde o dia 22. Até aí sempre fui aquele tipo de homem de negócios hipercinético: cinco horas de sono, pequeno almoço de trabalho, trabalho propriamente dito, almoço de negócios, mais trabalho, ceia com clientes e depois recuperar o tempo perdido noutros trabalhos, antes das minhas próximas cinco horas de sono. Agora já não me posso arriscar a ter todas estas actividades. O estímulo poderia ser fatal: adrenalina a mais. E ficaria exposto ao Grupo de Acção Verde. Há muita coisa que eu posso fazer através do computador, com a consola à minha frente. Mas não me parece certo. Não consigo trabalhar num sistema de part-time. Sinto-me demasiado isolado para mexer no computador, sabendo que a verdadeira GenGen se encontra muito para além das minhas possibilidades.
Continuo sem ter grandes perspectivas de cura. Tenho de permanecer calmo. Respirar fundo. Às vezes até isso custa. Uma descontracção permanente causa muita ansiedade. Sinto o pulso a acelerar-se, o suor a perlar-me a pele. Calma, calma...

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Sarob Press (Reino Unido)

2000

 

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1992

 

Expatria

Victor Gollancz (Reino Unido)

1991

 

Keepers of the Peace

Victor Gollancz (Reino Unido)

1990

 

Keith Brooke editou:

 

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Keith Brooke é o principal responsável pelo site

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