R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Tudo Isto Existe...

por João Ventura

conto curto publicado em 07.11.2002

republicado em 18.05.2005

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3. Fado maior

O luar enche o Coliseu, e a voz de Márcia, ao mesmo tempo áspera e macia, é como um fluido que se derrama na sala, deixando cinco mil pessoas fascinadas, completamente rendidas à beleza do seu canto.
O espectáculo aproxima-se da apoteose. Márcia acaba de cantar o último fado, já extra-programa, e agradece os aplausos.
A luz do luar é gradualmente substituída por uma luminosidade mais quente, e o público apercebe-se que é o nascer do Sol. Primeiro a luz é fraca, mas torna-se mais forte à medida que a imagem do Sol sobe a partir da base da cúpula. Exclamações de admiração surgem da assistência.
Manuel Guimarães, médico, está sentado na primeira fila da plateia. É um apreciador de fado e comprou bilhete para este espectáculo há mais de um mês. Tem os olhos presos em Márcia, que agradece os aplausos do público, os braços cruzados sobre o peito, cada mão sobre o ombro oposto, tronco e cabeça inclinados para a frente. Olhando a fadista, sem saber bem porquê, vem-lhe à lembrança Álvaro de Campos: Vem, noite antiquíssima e idêntica…
No momento em que a luz do sol substitui o luar, parece ao Dr. Guimarães que o corpo da fadista é percorrido por um súbito estremecimento, antes de ela levantar subitamente o tronco, olhar na direcção da luz, levar as mãos à cabeça e soltar um grito, arrepiante, como um animal ferido. O corpo oscila, dá dois passos trôpegos e cai no chão.
O médico trabalha no INEM; habituado a actuar em emergências, levanta-se rapidamente, corre para a direita até atingir a escada que leva ao palco, sobe os degraus a dois e dois e corre para o centro do palco. Enquanto se aproxima, um dos músicos acompanhantes tira o lenço que traz enrolado ao pescoço e cobre com ele o rosto de Márcia, em seguida despe o casaco e tapa-lhe os ombros e os braços. Parece ao médico, num breve relance, que a pele da fadista ficou cor de cinza. O seu olhar treinado permite-lhe também observar no pescoço do músico que está debruçado sobre Márcia uma curiosa cicatriz, parecendo dois sinais de perfuração separados por 3 ou 4 centímetros, e nessa altura o outro músico interpõe-se, empurra-o para trás, Eu sou médico!, diz Manuel Guimarães, e o outro replica OK, doutor, está tudo sob controlo, e o médico vê dois homens que saem dos bastidores, com uma maca, e que rapidamente retiram Márcia do palco.
É nesta altura que a sua atenção é despertada por gritos vindos da sala. Olhando para a assistência, do ponto de observação privilegiado que é o palco, Guimarães vê alguns pontos na plateia de onde as pessoas se afastam gritando, em pânico, como se fossem repelidas. No centro de cada um desses focos de repulsão está sempre um corpo, e o médico questiona-se, enquanto corre o caminho de volta à plateia, o que levará as pessoas a fugir em vez de se aproximarem para ajudar.
Salta sobre as cadeiras da primeira fila para chegar ao corpo mais próximo, que está na segunda fila. Junto do corpo, percebe subitamente a razão do comportamento das pessoas e ele próprio pára, horrorizado. A carne é cinza, não apenas cor de cinza, mas realmente cinza, o cheiro é quase impossível de suportar, em volta da boca a cinza começa a desprender-se, o médico vê os dentes, e o seu olhar é atraído pelos caninos de grandes dimensões, a sua mente a tentar enquadrar todos os factos e racionalizar a situação, a aperceber em fundo o caos existente na sala, os seguranças a procurar organizar a evacuação do público, e por cima um sol quente, abrasador, como se fosse um meio-dia de Agosto…

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Tudo Isto Existe

João Ventura escreveu:

 

Crónica Marciana, ou A Explicação da Guerra

in O Planeta das Traseiras