R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Tudo Isto Existe...

por João Ventura

conto curto publicado em 07.11.2002

republicado em 18.05.2005

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2. Variações

No interior do Coliseu decorrem os últimos preparativos para a grande noite. Acompanhado do dono da empresa concessionária, o Presidente da Câmara faz uma visita à sala mais emblemática da capital. Passam dois operários transportando uma escada, os técnicos de som fazem experiências, sente-se a agitação característica das horas que antecedem os grandes acontecimentos.
— …mas a grande inovação é o novo sistema de luzes, senhor Presidente. O Coliseu vai ser a primeira sala europeia com este sistema. Ainda só foi montado em três salas americanas. Espere aí, vou chamar o nosso homem da iluminação para explicar o que é este sistema. Oh engenheiro!
Respondendo ao chamamento do empresário, dirige-se para eles um homem de óculos, cabelo curto, um microfone sem fio com auricular preso à cabeça, calças de caqui com os bolsos laterais atafulhados, uma tee-shirt amarela onde se lê em grandes letras vermelhas "Light my bulb!". Enquanto se aproxima, vai falando para o microfone:
— OK, guys! Let's have a five-minute break!
Passa a mão direita pela tee-shirt antes de a estender ao Presidente da Câmara.
— Explique aqui ao Sr. Presidente o que é que este sistema tem de especial.
O engenheiro sorri, os olhos brilham como os de um pai a quem perguntaram pelo filho recém-nascido.
— Bem, como sabem a luz solar não é monocromática, isto é, não tem só uma cor, ou, o que é o mesmo, não tem só um comprimento de onda. Na realidade, é caracterizada por um espectro, que inclui a gama do visível, do vermelho ao violeta, o infravermelho, invisível, ao lado do vermelho, e o ultravioleta, também invisível, para lá do violeta.
— Isso do ultravioleta não é o que causa o cancro da pele? — pergunta o Presidente da Câmara, mostrando um ar interessado.
— É isso mesmo! E a quantidade de luz de cada tipo, digamos assim, não é a mesma, mas depende da fonte emissora e da temperatura a que esta se encontra. É à distribuição da luz pelos diversos comprimentos de onda que chamamos um espectro.
O Presidente da Câmara e o empresário acenam com a cabeça como se percebessem.
— O que aquela beleza lá em cima consegue fazer — e aponta para a cúpula translúcida que cobre a sala — é reproduzir qualquer espectro de emissão que seja metido no computador que a controla. Isto é, conseguimos reproduzir qualquer tipo de luz, desde que tenhamos o espectro original. E conseguimos reproduzir esse espectro original, completo, com um erro menor que meio por cento. Querem ver?
E, sem esperar pela resposta, dispara para o microfone:
— Calling control. Gimme a full moon!
A sala mergulha na obscuridade e, instantes depois, uma fantástica lua cheia brilha na cúpula, banhando todo o espaço com um luar frio e branco, tão forte que parece dia.
— OK, now give me a sunset!
Sem transição, a luz passa a um misto de laranja e vermelho, proveniente de um sol moribundo, próximo do limite inferior da cúpula. O engenheiro observa os outros dois, e verifica que estão impressionados. Entusiasmado, comenta:
— E esta luz solar é igualzinha à do verdadeiro sol, desde o infravermelho ao ultravioleta!
Espera alguns segundos, para os deixar apreciar bem o pôr-do-sol, e fala para o microfone:
— Fine, back to normal.
E a iluminação é agora a que se esperaria numa sala de espectáculos, os projectores enchendo o recinto com uma luz crua.
— Muito bonito, sim senhor — diz o Presidente da Câmara, e em voz mais baixa para o empresário — quando é que o Porto conseguirá ter uma coisa destas? — e riem-se os dois, de forma cúmplice.

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Tudo Isto Existe

João Ventura escreveu:

 

Crónica Marciana, ou A Explicação da Guerra

in O Planeta das Traseiras