R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

Tudo Isto Existe...

por João Ventura

conto curto publicado em 07.11.2002

republicado em 18.05.2005

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1. Fado menor

As velas tremeluzindo sobre as mesas projectam sombras oscilantes nas paredes e arrancam reflexos aos jarros de vinho e aos copos. Há conversas sussurradas, mas mesmo esse ruído de fundo se reduz a quase nada com a entrada da fadista, seguida dos acompanhantes. Um silêncio quase religioso enche a sala, agarra-se às pessoas, às paredes que ostentam fotografias autografadas de gente conhecida.
Márcia, a fadista, é a grande atracção da noite lisboeta. Há quem lhe atribua uma origem aristocrata, outros dizem que cresceu nas ruas de um dos bairros populares da capital. Recusando-se a dar entrevistas, nunca a sua fotografia apareceu nas páginas das revistas sociais e a sua vida privada permanece um mistério.
Os músicos, magros, de boné, lenço ao pescoço, casaco com a gola levantada, bota engraxada, acomodam-se nas cadeiras, guitarra e viola em posição, olham para a fadista esperando um sinal. Esta, de vestido preto até aos pés, ajeita o xaile em torno dos ombros nus, olha para o guitarrista e as primeiras notas rompem o silêncio, a guitarra à frente, desenhando a melodia em rápidos arabescos, a viola atrás, marcando o ritmo. Surge então a voz, primeiro como um murmúrio, que vai ganhando força, e há uma espécie de arrepio que percorre os assistentes, e é como se a voz descrevesse uma descida aos infernos, o rosto da fadista tem a cor do marfim, os olhos semicerrados, a boca entreaberta; e quando o fado termina, a assistência sente que o universo em que estava mergulhada lhe foi subitamente retirado e surgem as palmas, de forma contida, como é da tradição.
Mais dois fados, e em cada um se repete a mesma magia, o mesmo transe colectivo, a mesma sala suspensa de uma voz única.
Antes de se retirar, a fadista faz uma pequena vénia e o gerente da casa de fados avança com um anúncio:
— Senhoras e senhores, gostaria de lembrar que a nossa querida Márcia vai actuar amanhã, às nove e meia da noite, no grande espectáculo de reabertura do Coliseu dos Recreios. Uma salva de palmas para ela!
Mais aplausos, e aos poucos regressa o ruído de fundo das conversas a meia voz à volta das mesas.

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Tudo Isto Existe

João Ventura escreveu:

 

Crónica Marciana, ou A Explicação da Guerra

in O Planeta das Traseiras