R e v i s t a . e l e c t r ó n i c a . d e . f i c ç ã o . c i e n t í f i c a . e . f a n t á s t i c o

They Sell Souls, You Know...

por João Seixas

conto publicado em 09.03.2002

republicado em 16.04.2004

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Olhei com verdadeira adoração para a língua húmida entre os dedos grossos, cobertos de lixo e porcaria. Os dedos eram de Martin Caiden, grande amigo meu... mas a língua era minha, humilde narrador desta história.
Os olhos de Martin olhavam com igual adoração para o pedaço de carne outrora vicejante. Apercebi-me com tristeza de que começava a secar, os tecidos a retraírem e a morrer e que a humidade que lhe arrancava brilhos de vida se devia mais ao formaldeído do que à sua humidade natural. Não duraria muito mais, isso era evidente, se eu não conseguisse que ma reimplantassem nos próximos dias.
Martin também o sabia e, por isso, olhava para ela com avidez. Ainda podia render um bom dinheiro no mercado e, ao fim e ao cabo, era quase certo que eu não a conseguiria reimplantar. Eu próprio tinha conhecimento disso e apenas a guardava porque era minha. Minha! E de mais ninguém! Senti os olhos marejarem-se-me de lágrimas, como acontecia sempre que olhava para a minha língua. Lutara muito por ela. Tinham-ma tentado arrancar uma noite em que eu dormia debaixo da velha ponte metálica. Mas alguma coisa correu mal com o anestésico — parece que estão a cortar no orçamento — e eu acordei durante a operação de sutura.
Deus, como eu gritei! Oh, se gritei. Como nunca nenhum humano devia ser obrigado a gritar. Diabos, como nenhuma criatura devia ser obrigada a gritar! Mas gritei. E mordi. Mordi com tanta força que fiquei com três dedos cobertos de borracha fina na minha boca, sem saber se o sangue que corria pelo meu queixo era meu ou do maldito enfermeiro.
Mas lutei pela minha língua e tenho o direito de ficar com ela.
— Porque não a vendes? — Perguntou Martin, os seus olhos brilhando de cobiça. — Ainda podias ganhar uns cobres valentes. Se não a vendes depressa...
Não acabou a sua afirmação, mas também não era necessário: os meus guinchos e o meu olhar assustado tornaram bem clara a minha vontade. Era minha e eu ia ficar com ela.
Martin lançou-lhe um último olhar pesaroso, chorando interiormente as moedas que poderia arrecadar, e voltou a colocar a minha língua no seu leito de formoldeído dentro da caixinha de Petri. Inclinei um pouco o corpo de forma a permitir-lhe meter-me a caixa no bolso do colete imundo.
— Vou andando, meu velho... — Disse Martin limpando os dedos nos farrapos de ganga que lhe envolviam as pernas amputadas. — Pensa bem nisso... Amanhã ainda dá bom dinheiro, e tu deixare-la morrer assim...
Voltei a guinchar como um animal assustado e Martin encolheu os ombros.
— Bom, até amanhã! — O desânimo na sua voz e nos seus gestos era evidente. Começou a afastar-se, empurrando o carrinho de madeira com ambas as mãos, os dois blocos de plástico arrancando um tlac tlac monótono do piso de betão.
'Espero que amanhã acordes sem braços...', pensei, vendo-o afastar-se. Mas Martin tinha demasiada sorte para que tal lhe acontecesse. No dia seguinte, como todos os dias, ali estaria, sorridente e ganancioso, para me retirar a caixinha do bolso e me mostrar a minha língua.
Era realmente estúpido guardar aquele pedaço de carne (aquele pedaço de mim!) e deixá-lo morrer enquanto podia ainda ganhar algum dinheiro no mercado. Afinal, não me podia dar a demasiados luxos quando nem sequer uma refeição diária tinha garantida. Mas era como se, enquanto tivesse aquela língua, enquanto a pudesse ver todos os dias — nem que fosse a morrer — poderia ter a certeza de que estava vivo.
Embora houvesse dias em que não tinha a certeza de que isso seria um grande conforto...
Comecei a arrastar também a minha plataforma móvel. Não com tanta elegância como Martin, mas não me podia queixar, já que ele tinha braços... e eu não! Vale-me o meu engenho e as mãos dos outros. Enfim... um simples sistema de rodas dentadas, algumas molas e um cabo de terylene e aí está um carrinho que posso comandar com os dentes. Basta-me agarrar o punho de borracha que envolve o cabo, flectir os peitorais, e puxar o corpo para trás. Um, dois... Um, dois... O cabo faz mover as rodas dentadas e as rodas dentadas movem as rodas de madeira e o carrinho desliza - com alguma dificuldade, é certo, mas quem se pode queixar na minha situação?
Mas tive motivo de queixa da primeira vez que o experimentei. Custou-me dois dentes. Os dois da frente. Outros dois ainda abanam desde essa altura. O sangue que me empapou a boca ainda está na minha camisa de flanela. Mas já não se vê: o sangue da minha língua tapou-o.
De qualquer das formas lá me consigo arrastar para onde quero, embora aproveite esta oportunidade para lhe pedir desculpa pelo meu aspecto se um dia se cruzar comigo. Algumas moedas também serão bem vindas. Sou um homem alto, de cabelo preto, embora o facto de já não ter pernas não o permita notar. Mas reconhece-me facilmente: estou sempre na esquina da Tolland com a Dylan e visto uma camisa de flanela vermelha. Todos me reconhecem. Pelo menos é isso que eu espero.
Foi isso que eu pedi que dissessem a Carys... Minha Carys...
Todos os dias espero que ela apareça por ali. Que os seus braços macios me abracem e a sua voz meiga me sussurre ao ouvido: 'Vamos para casa... Vou cuidar de ti', enquanto eu me embriago com o seu perfume a flores silvestres.
E todos os dias procuro por ela na multidão, esperando ver a mais bela mulher do mundo tapando os seus olhos claros com a mão pequena, procurando um aleijado com uma camisa de flanela vermelha na esquina da Tolland com a Dylan.
Foi o que pedi para lhe dizerem: 'Estou vivo... Não morri...'
Na verdade não espero muito que ela venha por causa disso. Nem eu acredito muito que esteja vivo. E, mesmo que hoje seja um bom dia e eu me sinta falador, quem me garante que amanhã não me encontram com a garganta cortada e sem a minha língua? Martin era bem capaz disso.
De qualquer forma todos os dias me arrasto até à minha esquina, estaciono o meu carrinho e estendo a mão (por assim dizer) em busca de algumas moedas que caiam de um bolso mais generoso. Corro os meus olhos pela multidão e agradeço o facto de me terem deixado os olhos. E algo mais...
Quando olho para toda aquela gente que passa pela minha mão estendida, elegantemente vestida de porcaria e de miséria, fico contente por ainda ter algo que eles não têm: a minha alma. Sim, eu ainda tenho a minha alma, e isso eles ainda não me podem tirar.
Mas tive que pagar um preço muito alto por ela. Muito, muito alto.
Tive que dar os meus braços e as minhas pernas. E o meu pénis. Tive que dar um rim, e os meus dentes da frente. E a minha língua...
Mais ainda do que isso: tive que dar a minha vida, a minha carreira, a minha casa, o meu doutoramento e o meu ordenado de $300.000/ano. Tive que dar a minha Carys... desculpem se choro agora.
Por isso ainda tenho a minha alma. Embora às vezes me questione sobre se realmente fiz um bom negócio... Sei que o fiz... pelo menos era a única hipótese que tinha. Mas, quando olho para todos aqueles que se cruzam comigo, ostentando com soberba os seus membros novos, os seus braços fortes e as suas pernas musculosas, os seus rins perfeitamente funcionais e os seus intestinos que lhes permitem sorrir sem se ver toda a porcaria que ocultam, e penso... me pergunto quantos deles teriam feito o mesmo que eu...
Rio-me deles... É engraçado como podemos fazer o que queremos na situação em que eu me encontro. Nenhum deles tem coragem para admitir que nos vê. Seria muito difícil poderem olhar para nós, para a factura que é paga pelos seus corpos perfeitamente funcionais. Qual deles teria coragem de olhar directamente nos meus olhos pensando que o rim que lhe puseram a semana passada podia ser meu?
Mas foi esse o preço que paguei pela minha alma e sei que muito poucos o aceitariam pagar. Sobretudo sabendo que não ia adiantar nada... Sabendo que a máquina não ia parar só porque um dos parafusos se ia soltar.
Lembro-me perfeitamente das palavras de Mr K., sentado por detrás da sua ampla secretária impecavelmente limpa, do seu mundo completamente asséptico, a olhar para o jovem engenheiro idealista que é agora o vosso narrador:
— Por favor, Danny... Pensa nisto como sendo fruto dos condicionalismos do mercado. O mundo está sobrepovoado e a economia não suporta mais ninguém. Os vagabundos crescem de dia para dia e aquelas pessoas que realmente contam, que participam nas rodas do mercado, envelhecem e apodrecem. Não esperas ser tu a parar a máquina, pois não?
Não. Como podia eu parar uma máquina como aquela? Quando havia tantas pessoas doentes e tantos vagabundos inúteis? Quando as técnicas desenvolvidas pelo nosso laboratório permitiam qualquer tipo de transplante? Quando os vagabundos eram um mercado de abastecimento tão amplo?

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